Estilo de Vida

O sofrimento é opcional. Esta e outras “verdades” de uma monja brasileira seguida por milhões

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A monja Coen é "uma das maiores figuras budistas da América Latina". A autora de "O Sofrimento é opcional" defende como devemos todos viver com mais leveza porque, às vezes, "dramatizamos muito".

Paulo Spranger /Global Imagens

Tem quase 500 mil seguidores no Instagram, os vídeos que publica no canal de Youtube (com cerca de 800 mil subscritores) têm milhares de visualizações — este em particular já foi visto 2.215.917 vezes — e, segundo a contracapa do seu primeiro livro publicado em Portugal, O Sofrimento é Opcional, é “uma das maiores figuras budistas da América Latina”. Cláudia Dias Baptista de Souza, nome de batismo da monja Coen, nasceu em São Paulo em 1947. Recentemente esteve em Portugal para participar no Festival Literário Internacional de Óbidos (FOLIO), que se realizou entre 27 de setembro e 7 de outubro.

A monja Coen, como é conhecida, foi mãe aos 17 anos, exerceu jornalismo durante vários anos e, numa certa altura da vida, pensou em suicidar-se. Na década de 1980, já nos EUA, começa a praticar regularmente budismo zen, faz os votos monásticos e entra para o mosteiro feminino de Nagoya, no Japão, onde vive durante oito anos. Atualmente mora no templo Tenzui Zenji, em São Paulo. É autora de vários livros, incluindo O Sofrimento é Opcional, da editora Nascente, que chegou recentemente ao mercado nacional. O livro, que traz ensinamentos e reflexões budistas para ajudar a combater a depressão, tida como uma das pandemias dos tempos modernos, foi mote para uma conversa curta, via telefone. Desta entrevista resultam seis “verdades” da Monja Coen.

À venda por 13,99 euros

O sofrimento é opcional

“Nós podemos escolher. Esta é a diferença. Temos dor e insatisfações, passamos por dificuldades, mas não precisamos de ficar a apertar a ferida. “Como sofro… Como sou infeliz… Como ninguém me compreende”, isto é extra. Passamos por dificuldades, por momentos de luto — não só de pessoas que morrem, mas de sonhos, de ideias e de relacionamentos que acabam –, mas não precisamos de ficar enterrados naquilo que não deu certo, temos de ir adiante. Quando acreditamos no discurso ‘Eu sou mais sensível do que o outro’ ou ‘Eu sofro mais do que o outro’ –, estamos a criar um estado de sofrimento que é extra. Já temos dores e preocupações suficientes na vida. A dor, a tristeza e a depressão existem, mas também existem caminhos de libertação.”

Meditação para observar em profundidade

“A meditação é importante para que nos possamos observar em profundidade, para percebermos o que está a acontecer connosco. Se conhecemos alguém a entrar em depressão, cabe a nós prestar apoio. Basta dizer ‘Estou contigo’; não é dizer ‘Vamos sair, passear’. Uma pessoa em depressão não acha nada bonito. Não encontra beleza em nada. Se não vemos nenhuma luz ao final do túnel é porque ainda não chegámos a meio do túnel. Quando chegarmos, vamos perceber a luz. Para algumas pessoas é preciso atravessar o túnel às escuras. A ideia [ao sair do túnel] é encontrar o renascimento de si mesmo, encontrar o seu ‘eu verdadeiro’. Às vezes, numa viagem espiritual, as pessoas ficam assustadas porque tinham uma ideia diferente de quem eram e do que era a realidade. Nesses momentos, é importante empurrar e não puxar a pessoa para trás.”

Não há antes, é impossível voltar atrás

“É preciso trabalhamos muito a presença absoluta, o estar absolutamente presente onde se está. Não há antes, é impossível voltar atrás. Só podemos ir para a frente. As experiências que temos só nos impulsionam para a frente. É muito importante teremos resiliência, não desistirmos. Passamos por depressões, por tristezas e sofrimentos, mas podemos voltar ao estado natural que é neutro, nem de grande alegria nem de grande tristeza.

Nem sempre a insatisfação significa depressão

“A insatisfação é uma pequena tristeza, mas, se não tivermos cuidado, ela pode transformar-se em depressão. Falo em depressão quando, depois de uma semana, uma pessoa não consegue sair do quarto, não quer trabalhar, não quer fazer nada — assim se começa o processo deprimido. Às vezes, temos de enterrar os nossos sonhos: sonhámos que íamos ter um casamento maravilhoso, mas o marido, que seria um príncipe encantado, virou um sapo feio. Temos de nos adaptar: ou separamo-nos ou vivemos em harmonia. O que quero dizer ao mundo é que temos de viver com mais leveza porque, às vezes, dramatizamos muito. Podemos viver com um pouco mais de leveza, mais ternura e mais sabedoria. Quando não há sabedoria ficamos deprimidos: nós podemos entrar e sair de um buraco escuro, não precisamos de ficar lá.”

A importância da “memória correta”

“A memória correta significa lembrar da verdade. Não é recordar uma discussão que tivemos ontem ou há dez anos. Isso não serve para nada. Falo da memória de quem somos, do que estamos a fazer aqui. Esta é memória que não podemos perder. Vivemos uma superficialidade da existência, achamos que ter uma roupa bonita nos vai fazer felizes, não vai. A dor é necessária para o nosso crescimento, para o nosso amadurecimento. Uma vida de prazer e de alegria não leva ao questionamento da vida.”

A iluminação não é uma coisa de outro mundo

“A iluminação é uma coisa deste mundo, não é muito mística. É a capacidade de vermos a realidade como ela é e atuarmos a partir de valores éticos e a partir de princípios. Quando as pessoas vivem por valores, vivem bem. Existe na sociedade uma provocação muito grande para abandonar a ética, para abandonar os valores. Temos de nos manter firmes, mesmo que estejamos a nadar contra a corrente. É muito importante educar para a ética, independentemente de se ter ou não fé. É apenas preciso ter-se fé do ADN humano.”

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