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Mimo, empatia e medos. 15 conselhos de uma psicóloga infantil para as horas mais difíceis

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Inês Afonso Marques, psicóloga infantil, é a autora do livro "Crescemos Juntos", que reúne reflexões sobre a parentalidade para todos os dias do ano. Escolhemos 15 frases e pedimos que as comentasse.

iStockphoto/NataliaDeriabina

A importância de estimular a empatia, de elogiar os filhos e de nunca ridicularizar os seus medos. Inês Afonso Marques é psicóloga Infantil na Oficina de Psicologia, em Lisboa, e autora do livro Crescemos Juntos, da IN Edições, que reúne 365 (mais 1) frases inspiradoras com conselhos sobre a parentalidade. De um leque enorme de opções, pedimos à psicóloga e autora que desenvolvesse as ideias que estão nas entrelinhas de 15 frases escolhidas a dedo. Os conselhos explicados na íntegra por Inês Afonso Marques contemplam vários desafios do dia a dia e têm potencial para responder a dúvidas urgentes: afinal, sabe mesmo como responder às perguntas difíceis que o seu filho faz?

À venda por 15,99 euros.

“Ensine ao seu filho que o valor de uma pessoa está naquilo que é e não naquilo que tem”

As coisas que temos influenciam apenas uma pequena parte da forma como nos sentimos. Os valores que cultivamos funcionam como uma espécie de bússola para aquilo que procuramos ser, para o “local” onde nos queremos posicionar; se agirmos de acordo com esses valores estamos mais próximos da satisfação pessoal. Nesse sentido, quando se ajuda uma criança a crescer, é importante que haja uma preocupação acrescida com a promoção de valores pessoais, que norteiam um trajeto de vida. De pouco nos serve termos muitas coisas para mostrar, quando internamente somos pobres em princípios, valores, emoções, ideais… A melhor forma de ensinarmos às crianças aquilo que somos, face àquilo que temos, é sermos modelos de referência.

“Uma criança que se sente segura é uma criança que tem vontade de explorar o mundo”

Uma criança que estabelece um padrão de vinculação seguro sente que os seus cuidadores estão disponíveis para a apoiar, dar afeto e atenção e responder às suas necessidades de forma sensível e calorosa, de um modo que respeite a sua independência. Assim, a criança sente que tem uma base segura para explorar o contexto em seu redor. Mesmo que o contexto lhe seja desconhecido ou possa parecer ameaçador, o incentivo e apoio caloroso dos adultos de referência torna-se fundamental para que a criança sinta segurança e vontade suficientes para o explorar, pois sabe que mesmo que “algo corra mal”, tem nos adultos de referência todo o apoio necessário.

“Encoraje o seu filho a colocar-se no lugar de outras pessoas”

A empatia pode ser vista como uma das dimensões da inteligência emocional. Sabemos que a inteligência emocional está fortemente associada ao bem-estar e à capacidade de adaptação aos desafios da vida, à noção de sucesso e satisfação com a vida. É relevante que na educação de uma criança haja espaço para ela ser desafiada a colocar-se no lugar de outra pessoa, procurando experimentar outros papéis e tentando compreender o mundo pelo seu ponto de vista, bem como procurando compreender aquilo que o outro pensa e sente. Isso fomentará também a flexibilidade emocional, mais um valioso ingrediente para o bem-estar global.

“Uma criança feliz não anda, ela salta e corre (na maior parte do tempo).”

As crianças são intrinsecamente enérgicas e mexidas. Essa vitalidade fá-las muitas vezes viver entre saltos e pequenas corridas e é muito importante que os adultos, mesmo que por vezes se sintam incomodados com isso, não limitem esta natureza totalmente saudável da infância. Uma criança sem energia, apática, que não mostra curiosidade e proatividade na exploração do mundo é motivo de preocupação. Uma criança com “bichinhos carpinteiros”, que vive num corpo cheio de animação é, em princípio, uma criança física e emocionalmente saudável. “Castrar” essa vitalidade é que pode comprometer o seu desenvolvimento saudável. As crianças devem brincar livremente ao ar livre. E nunca se deve retirar o direito das crianças em idade escolar de usufruírem dos seus recreios. Correr, saltar, trepar árvores, fazer a roda, dançar são necessidades e direitos dos mais novos.

Uma das ilustrações incluídas no livro

“Um dia sem ligar a televisão é um dia de convite à criatividade e à interação”

A televisão é tendencialmente uma atividade passiva onde não há espaço para o estabelecimento de laços afetivos ou para a criatividade. A televisão desconecta as pessoas umas das outras e delas próprias. A televisão em excesso nunca pode ser uma resposta muito interessante para uma família. Numa casa em que a televisão passa muitas horas ligada, quando há um dia em que não é ligada, todos são obrigados a gerar outras formas de se entreterem e surge também o convite ao diálogo e à partilha ativa do tempo. Por exemplo, um jantar em família sem que haja uma televisão ligada por perto é uma refeição manifestamente mais rica, em que se cruzam olhares, em que se escuta com muito mais genuinidade e disponibilidade, em que se conversa e em que o foco são as pessoas.

“Nunca ridicularize os medos do seu filho”

Uma criança com medo é uma criança que está aflita e assustada. A última coisa que precisa dos pais é de sentir-se humilhada. Ao expressar os seus medos, as crianças procuram segurança, contando com os seus adultos de referência para lhe conferirem essa segurança. Minimizar ou ridicularizar aquilo que a criança diz apenas contribui para que esta se sinta mais insegura e incapaz de lidar com o seu receio. Dos pais espera proteção e segurança. O adulto não precisa de questionar a pertinência do medo da criança, precisa de dar respostas tranquilizadoras.

“Educar não é proteger numa redoma”

A maioria das crianças passa a maior parte do seu tempo entre paredes e sob a supervisão apertada de um adulto. Mesmo as oportunidades de brincadeira acabam por ser reguladas e controladas pelos adultos. Se todas as regras e riscos são controlados pelos adultos, as crianças nunca terão oportunidade de avaliar de forma consciente os riscos e as potencialidades das situações e contextos em que estão inseridos. Quando permitimos que uma criança quebre algumas regras, assuma riscos controlados, ela tende a lidar com a realidade de forma cautelosa, procurando contornar o medo, dando passos com os quais se sente confortável. É natural e desejável que os adultos se preocupem com a segurança das crianças. Mas quão limitativa é essa preocupação? Um foco exagerado na segurança leva a que as crianças cresçam sem se sentirem livres, cresçam reféns do medo, cresçam mais dependentes do adulto, com receio de fazer escolhas e assumir decisões. Crescer (e viver) implica riscos. Riscos saudáveis. Riscos que permitam à criança crescer socialmente, emocionalmente e fisicamente. Riscos que permitam à criança sentir-se confiante na ausência dos seus pais.

“Quando elogia, deixe o ‘mas’ de lado.”

Um elogio acompanhado de um “mas” é entendido pela criança como uma crítica. A criança traduz o “mas” como um “não foi suficiente”. Ou foi bom ou não foi. Ou está giro ou não está. O “mas podia estar melhor / mais giro…” Anula o que foi dito antes e que funcionaria como elogio. Mesmo que na mente do adulto esse “mas” esteja a funcionar como um incentivo, na cabeça da criança ele tem outro efeito.

“Não caia na tentação de fazer tarefas pelo seu filho só porque ‘assim é mais rápido'”

À medida que as crianças alcançam a maturidade – física, cognitiva e emocional – procuram libertar-se da dependência funcional em relação aos adultos cuidadores. A criança toma consciência da sua individualidade, do controlo que tem sobre o mundo e das novas e espetaculares capacidades que possui. As crianças procuram experimentar as suas próprias ideias, executar as suas preferências e tomar decisões. Os pais que veem estas (novas) tentativas como um esforço saudável no sentido da autonomia, podem ajudá-las a alcançar o autocontrolo, contribuindo para um crescente sentido de competência e evitando conflitos. A autonomia, e a consequente responsabilidade, não surgem sem mais nem menos com o passar do tempo sendo, por isso, necessário programá-las e estimulá-las. Se os pais substituem os filhos em tarefas que eles já sabem fazer, ou que estão a aprender a fazer, anulamos importantes oportunidades da crianças desenvolverem novas capacidades. Adicionalmente, corremos o risco de lhes passar a mensagem de que não confiamos nela e na sua competência e ainda que não somos capazes de respeitar o seu ritmo…

“A tecnologia não é uma boa ama para o seu filho”

A tecnologia em excesso é má, principalmente quando é usada numa lógica de “anestesiante” das crianças, como tantas vezes vemos nos parques, nos restaurantes, nas praias ou nos supermercados. A tecnologia pode funcionar como uma atividade de entretenimento, entre tantas outras. Até aí, quando há variabilidade nas atividades de entretenimento, quando há qualidade no conteúdo e quando há bom senso no tempo de uso, a tecnologia não tem de ter vista como um monstro. O perigo é quando ela é usada como recurso para os pais terem tempo para as suas coisas ou simplesmente para manter a criança quieta; quando ela impede que a criança apreenda o que a circunda ou se isole (um jardim que visita ou uma refeição em família, por exemplo).

“Ensine o seu filho como pensar e não o que pensar”

Desejamos crianças autónomas, que confiam nelas e nas suas ideias, assertivas na expressão dos seus ideais, das suas emoções e das suas necessidades. Desejamos crianças livres. Se um pai ensina ao filho o que pensar, retira-lhe uma dose imensa de liberdade e desrespeita o direito que a criança tem de ser ela própria… Adicionalmente, se fornecemos à criança todos os seus conteúdos de pensamento, transmitimos a ideia de que ou não confiamos nela ou que não respeitamos que possa ter uma forma diferente de pensar…

“Perguntas difíceis? Retribua a pergunta e surpreenda-se com as respostas”

Desde cedo, o nosso papel de pais parece claro: protegemos, alimentamos, damos mimo, mudamos fraldas, levamos ao médico… Mas, quando a linguagem emerge, e as crianças começam a juntar palavras e a dar-lhes a entoação de um ponto de interrogação no final, o nosso papel parece sofrer um enorme upgrade. Os nossos filhos olham para nós como enciclopédias, filósofos, professores… A qualquer momento: perguntas, perguntas e mais perguntas. Perguntas cujas respostas nem sempre são lineares. Na idade pré-escolar, na fase dos “porquês”, as crianças sentem-se curiosas relativamente a muitos assuntos, nomeadamente em relação ao seu corpo e ao nascimento dos bebés. E as perguntas emergem naturalmente. Um pouco mais tarde, surgem questões mais existenciais, associadas ao mundo e à vida. Com o crescente interesse pelo mundo, acompanhado pelo desenvolvimento cognitivo do seu filho, a multiplicidade de perguntas relacionadas com “temas difíceis” aumenta. As questões aumentam dentro da cabeça das crianças e jovens, mas elas só serão verbalizadas se sentirem que as suas perguntas são bem-vindas junto dos seus educadores. Ao lançarem questões “desafiantes” aos pais, os filhos estão a dizer-lhes que se sentem confortáveis e confiantes na relação.

Perante uma pergunta, a tentação será, muitas vezes, adiar a resposta ou responder com outra pergunta: “De onde vem essa ideia? Se calhar quando fores mais velho é mais fácil responder-te”. Os pais podem, antes, começar por lhe transmitir a ideia de que se trata de uma questão pertinente e mostrarem-se disponíveis para responder às dúvidas que possam surgir; devem manter-se calmos e agir com naturalidade. Por muito que os pais sintam que o assunto é embaraçoso, é preciso ter em conta que a forma como o adulto responde é tão ou mais importante do que o conteúdo da sua respostas. A dúvida de muitos pais reside na quantidade de informação e no tipo de vocabulário que as respostas devem conter. Uma possibilidade será pensar em dar respostas honestas, curtas e simples, recorrendo a um vocabulário que seja de fácil compreensão para a idade/nível de desenvolvimento da criança. “O que sabes sobre x?” “O que gostarias de saber sobre y?” “Sabes o que significa z?” — consoante as pistas que a criança dá, quer em termos de interesses e necessidades, quer em termos de maturidade cognitiva e emocional, os pais podem adequar a quantidade da informação que cedem e ajustar o tipo de vocabulário usado.

Inês Afonso Marques escolheu frases simples e diretas

“O mimo não ‘estraga’ uma criança”

Entenda-se aqui o mimo como o afeto, a atenção e a disponibilidade genuína. O que “estraga” uma criança é a falta de mimo. Todas as crianças precisam de atenção e de carinho e amor, precisam de sentir-se especiais, de sentir-se gostadas, de sentir que os outros estão atentos a ela e às suas necessidades. Todas precisam de contacto físico, de beijinhos e festas, de colo, de interações positivas, de atenção… Neste sentido, nunca há excesso de mimo!

“O seu filho é um todo — valores, pensamentos, emoções –, não se resume a bons e maus comportamentos.”

Os comportamentos das crianças traduzem aspetos do seu mundo interior, que são relevantes, mas é fundamental que os pais olhem e demonstrem que se preocupam com outras dimensões. Há muitas crianças que me dizem quase em desabafo que os pais, quando se despedem deles antes do dia da escola ou quando se reencontram ao final do dia, se limitam a dizer “Porta-te bem. Portaste-te bem? Fizeste asneiras? Qual a cor da bolinha do comportamento? Quanto tiveste no teste? Vamos lá ver se o teste dá para o Muito Bom”… A verdade é que as crianças querem ouvir um “diverte-te” ou “qual foi o momento alto do teu dia?” ou “tem um dia feliz!”  ou “o que pensas sobre o tema x?” ou “vejo-te triste com esse acontecimento. Como te posso ajudar?”… É muito importante que os pais demonstrem curiosidade e procurem conhecer o que é importante para os seus filhos e que deixem de se focar apenas em manifestações comportamentais.

“A saúde mental do seu filho é mais importante do que qualquer nota, medalha ou ranking”

Vivemos numa época de competitividade enorme e os pais acabam por traduzir o seu foco em termos escolar nas notas do filho. Exigem muitas vezes que sejam os melhores, em vez de desafiarem os filhos a darem o seu melhor, independentemente do resultado final. Valorizam e premeiam resultados (e, muitas vezes, com expetativas verdadeiramente irrealistas e potencialmente frustrantes para os miúdos) mais do que processos (como os esforços). Este padrão de exigência, comparação com os outros e competitividade quase cega, que não respeita os ritmos, a individualidade e as idiossincrasias das crianças, gera frequentemente sintomatologia ansiosa, depressiva e baixa autoestima nos mais novos… Porque se sentem tantas vezes incapazes de lidar com a pressão, incapazes de corresponder às expectativas dos adultos de referência… Se o foco for no bem-estar, a aprendizagem acontece de forma mais motivada e entusiasmada. No fundo, é pensar que as exigências pela nota, medalha ou ranking — que tantas vezes desrespeita a individualidade, o ritmo e as próprias capacidades das crianças — geram muitas vezes desequilíbrios no bem-estar emocional das crianças.

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