Cinema

“O Primeiro Homem na Lua”: um filme anti-heróico sobre um herói americano recatado

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A fita de Damien Chazelle sobre Neil Armstrong e a Apollo 11 não é totalmente conseguida, mas Claire Foy e a recriação da era e da tecnologia são estupendas. Eurico de Barros dá-lhe três estrelas.

Autor
  • Eurico de Barros

De “Viagem à Lua”, de Georges Méliès, a “O Outro Lado da Lua”, de Duncan Jones, passando por “A Fantástica Aventura do Barão”, de Terry Gilliam, e até pela animação em “Dia de Folga”, de Nick Park, o cinema já foi à Lua de todas as maneiras. Mas até agora, por uma razão ou outra, nunca tinha sido feito um filme sobre a histórica viagem da Apollo XI e os primeiros passos do homem na Lua, no dia 20 de Julho de 1969. Coube agora, e finalmente, a Damien Chazelle (“Whiplash — Nos Limites”, “La La Land-Melodia de Amor”) rodá-lo, embora “O Primeiro Homem na Lua” não seja uma narrativa convencional sobre aquele feito. Mas sim, e como diz o título, sobre Neil Armstrong, o primeiro ser humano a pôr os pés na Lua, e inteiramente mediada pelo ponto de vista e condicionada pela personalidade e pela biografia deste. 

[Veja o “trailer” de “O Primeiro Homem da Lua”]

Falando também da corrida ao espaço e da rivalidade entre os EUA e a URSS, “O Primeiro Homem na Lua” é, no entanto, o avesso de um dos melhores filmes sobre o tema, “Os Eleitos”, de Philip Kaufman (1983), baseado no livro “The Right Stuff”, de Tom Wolfe, centrado nos astronautas do projecto Mercúrio. Onde este é épico, exuberante, entusiasta, patriótico e tem uma série de personagens, aquele é intimista, reservado, contido, parco no agitar de bandeiras e dominado pela figura de Armstrong. O homem do Midwest que foi escoteiro, sonhava em voar desde que uma vez o pai o fez faltar à aula de catecismo e levou a andar de avião, e que se tornou num excelente engenheiro aeronáutico e óptimo piloto e líder. E que era humilde, circunspecto e económico em emoções e palavras.

[Veja a entrevista com Ryan Gosling]

Todo o filme, adaptado por Josh Singer da biografia de Neil Armstrong  escrita por James R. Hansen (que foi radicalmente desbastada para o efeito), é referido às idissioncrasias do astronauta e moldado por elas, e associado à sua vida familiar. Para Damien Chazelle, o entendimento da personalidade do primeiro homem a pisar a Lua passa acima de tudo pelo insondável desgosto que ele teve com a morte da sua filha Karen, de tumor cerebral, com apenas três anos, e o filme tem várias justaposições que o frisam: o avião X-15 que ele pilota e a máquina de raios-X que examina a menina, Armstrong a ajudar Karen a vomitar, e mais tarde a vomitar ele mesmo durante os testes na NASA, a canção de embalar sobre a Lua que canta à filha e a lágrima que mais tarde derramará por ela no Mar da Tranquilidade, onde deixará uma pulseirinha que Karen usava.

[Veja a entrevista com Claire Foy]

Isto faz de “O Primeiro Homem na Lua” o filme sobre a corrida ao espaço mais anti-épico, introspectivo e comedido de sempre. E em que Damien Chazelle cometeu o erro de escolher Ryan Gosling, o actor “cool” do momento, para personificar Neil Armstrong, o astronauta “square”. O parado e tristonho canadiano ainda consegue ser credível no Armstrong marrão que até em casa está agarrado aos livros e aos manuais da NASA, bem como no piloto frio e exímio. Mas Gosling falha redondamente ao representá-lo como quase incapaz de esboçar um sorriso, emocionalmente reprimido e intrinsecamente amargurado. Quando ele era apenas, por origem, educação e feitio, recatado na manifestação de sentimentos e afectos, e totalmente contrário a ufanismos. Não é por acaso que a família lhe chamava “o herói americano relutante”.

[Veja a entrevista com Damien Chazelle]

Esse excesso de ensimesmamento na composição e essa leitura errada da personalidade de Neil Armstrong por parte de Ryan Gosling (e também do próprio realizador do filme) são parcialmente compensadas pela interpretação de Claire Foy como Jan, a primeira mulher do astronauta. Ela conhece o marido melhor do que ninguém e Foy, mostrando o medo que Jan tinha de o perder e que os dois filhos ficassem sem o pai, mas também a sua capacidade de não se deixar dominar por esse medo e o seu orgulho em Armstrong e a consciência da importância histórica da missão da Apollo XI, transforma-a não só na antena emocional de “O Primeiro Homem na Lua”, como ainda no contrapeso do marido em termos de personalidade e de expressão de sentimentos.

[Veja os bastidores da rodagem do filme]

“O Primeiro Homem na Lua” é um filme parcimonioso até na espectacularidade. O tom da descrição dos vários estágios do projecto especial americano, que teria como corolário a chegada do homem à Lua é ditado pelo registo emocional reservado da personagem de Neil Armstrong. E o ponto de vista é quase sempre subjectivo, o dele e o dos outros astronautas, metidos em aviões de teste que tremem por todo o lado, em aparelhos experimentais instáveis ou em cápsulas acanhadas e cheias de botões, interruptores, visores e luzinhas, executando operações e  cumprindo instruções compreensíveis apenas por eles. A recriação das condições de funcionamento da NASA, da tecnologia da época, das sequências espaciais e lunares e do ambiente físico, emocional e mental das missões dos astronautas é meticulosa, exacta e excelente, e realça ainda mais o feito espantoso que foi a chegada à Lua.

[Veja uma sequência do filme]

Nem quando Neil Armstrong e Edwin “Buzz” Aldrin atingem a Lua e caminham nela o filme se permite uma explosão visual ou emotiva (Damien Chazelle combina imagens e sons de arquivo da altura com uma recriação sem costuras). E aqui entra a grande controvérsia que estalou nos EUA pelo facto de “O Primeiro Homem na Lua” não mostrar a bandeira americana a ser cravada no solo lunar. Se é verdade que esta omissão rima com o espírito anti-triunfal da fita, convém também lembrar que a corrida especial era parte integrante da Guerra Fria entre os EUA e a URSS, e da rivalidade entre o Ocidente livre e o Leste totalitário; e que embora reivindicada em nome da Humanidade, a conquista da Lua foi uma proeza política, anímica, económica e tecnológica dos EUA. Por isso, não tinha ficado mal a Chazelle ter exibido a “Old Glory” na Lua, nem que fosse por breves segundos, e independentemente de quem ocupa hoje a Casa Branca.

E se, segundo adiantam alguns na indústria cinematográfica americana e outros escrevem nos media, “O Primeiro Homem na Lua” não mostra a bandeira dos EUA na Lua porque o filme tem que ser vendido no mercado russo e sobretudo no importantíssimo mercado chinês, e não convém levantar ondas em nome das receitas de bilheteira, então é mesmo caso para dizer: que vergonha, Damien Chazelle! Que vergonha, Hollywood!   

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