Nasceu em 1925 e foi durante largas décadas a queijaria de muitos portuenses. “Toda a gente conhecia o Rei dos Queijos”, comenta Alzira sem nenhum excesso nas palavras. Atrás dela a Regaleira recentemente fechada, duas casas contemporâneas, agora com destinos diferentes. Felizmente para o Rei dos Queijos, de portas trancadas durante sete longos anos, que os atuais proprietários quiseram manter quase inalterável a história do lugar. “Tínhamos uma relação próxima com este espaço” recorda Alzira que, juntamente com Carlos e Filipe, ia frequentemente lá lanchar. Ela é designer, Carlos também, já Filipe é arquiteto. “Achámos bonito devolver o Rei dos Queijos ao Porto com alguns toques de contemporaneidade” e o resultado desta combinação respira sem nenhum sobressalto estético.

As madeiras do mobiliário vintage, das cadeiras e das mesas, agora com tampo em mármore, continuam a dialogar com os elegantes detalhes dourados e com o vidro das portas de correr do louceiro e dos armários. No chão o marmorite claro, tão comum noutros edifícios da cidade; nas paredes placas de cortiça que garantem uma acústica confortável. As linhas variam entre uma geometria rectilínea perfeita, com formas trapezoidais, e extremidades arredondadas que dão uma sensação de fluidez e profundidade ao espaço. E nas duas salas, duas vitrines dos anos 70 com as jóias da coroa: cerca de 40 variedades de queijo 100% nacionais. “É uma casa portuense e portuguesa, logo queríamos dignificar o produto nacional”.

Há um ingrediente que continua a ser o patrão da mesa, mas há muito mais para provar nesta nova vida do Rei dos Queijos

Há alguns DOP de estatuto inquestionável, como o Terrincho Velho, o Azeitão, o Nisa ou o Amarelo da Beira Baixa, o magistral São Jorge com 36 meses de cura “que mais ninguém tem”, mas também uma interessante selecção de queijos que, mesmo menos conhecidos, revelam forte carácter. Os de cabra da Caprinos de Odemira ou os da empresa Prados de Melgaço são dois bons exemplos disso, bem como o queijo de Seia amanteigado da Flor da Beira. “Sobre essa empresa há uma história engraçada” conta Alzira debruçando-se para a frente, “já são fornecedores do Rei dos Queijos há muitos anos” — “olha que eu vendia toneladas de queijo para essa casa” terá dito o avô ao neto, agora responsável pelas entregas.

Todas as terças-feiras lá vai levar os queijos, “quantos queres?” pergunta com uma proximidade de outros tempos, e a entrega é feita com promessa de regresso na semana seguinte. Neste vai e vem de variedades, é possível passar largos minutos na loja a degustar qualquer um dos queijos à venda, por €3 a dose, juntamente com um copo de vinho de uma lista essencialmente composta por pequenos produtores. Há alguns acompanhamentos extra como nozes caramelizadas, figos das Rendufas e compotas todas feitas na casa.

A loja é uma das novas apostas

O processo de selecção de queijos contou com a colaboração de João Pupo Lameiras, chef que também assina a carta do restaurante. À pergunta “porquê o João”, Alzira responde sem pestanejar “porque ele é fantástico!” faz uma pausa, “e porque é um profundo conhecedor de queijos.” O menu foi desenhado com sugestões de partilha, como as tábuas de 3 ou 5 queijos, de queijinho gratinado, de enchidos ou mistas (€7,70 – €15,50), disponíveis durante todo o horário, assim como as tostas servidas apenas durante a tarde (€6 – €7,20).

Nos frios há criações como o Tártaro de Beterraba e Queijo Pyramide (€7) ou o Tártaro de Boi com “o queijo mais Intenso do Rei dos Queijos” (€9,50), um cabra curado pela Quinta dos Moinhos. Olhando para os quentes, salta à vista o Xarém com gambas e queijo Amarelo (€8,50), os Croquetes com queijo de Seia (€5) ou o Rosbife com queijo das ilhas (€8,50). Em quase todos os pratos há a opção com e sem queijo, variações facilmente justificáveis: “Fazer uma refeição do início ao fim só com queijo pode ser muito violento”. Os mais contidos agradecem a preocupação. Já para o verdadeiro apreciador, não há tal coisa como queijo a mais. Uns e outros têm razões para sair daqui satisfeitos. Longa vida ao Rei.

Rei dos Queijos: Rua do Bonjardim, 154 – Porto; Tel. 223 163 838; 17h-23h | sáb. e dom. 13h-23h