A Assembleia Nacional vietnamita elegeu esta terça-feira o secretário-geral do Partido Comunista, Nguyen Phu Trong, como o novo Presidente do Vietname, país que foi reunificado em 1976.

Trong, o único candidato designado pelo comité central comunista, foi apoiado por 476 parlamentares e só teve um voto contrário na sessão plenária da Assembleia Nacional, local onde fez o juramento referente ao seu novo cargo e um discurso transmitido pela televisão do país.

Aos 74 anos, Trong substituiu Dang Thi Ngoc Thinh, chefe de Estado interino desde a morte, em setembro passado, do Presidente Tran Dai Quang, por uma doença viral.

Com a sua nomeação, rompe-se o tradicional equilíbrio de forças entre o chefe de Estado, o primeiro-ministro, o secretário-geral do Partido Comunista e o presidente da Assembleia Nacional.

Além do amplo poder executivo que tem como máximo responsável do Partido, Trong agora é comandante em chefe do exército, tem prerrogativas de nomear ou demitir os ministros e ampliar a sua exposição internacional.

Trata-se de uma “intervenção sem precedentes do líder do Partido (Comunista) nos assuntos do Estado”, declarou num texto o analista Carlyle Thayer, da Universidade de South Wales, na Austrália.

Nascido em 1944 em Hanói, Trong foi chefe do partido na capital vietnamita entre 2000 e 2006, depois presidiu a Assembleia Nacional e, no congresso partidário de 2011, subiu a secretário-geral.

Tanto pela sua idade como pela sua aparente falta de interesse em chegar à Presidência, os analistas tinham-no deixado de fora da corrida presidencial após a morte de Quang, por isso a sua nomeação por unanimidade pelo comité central foi uma surpresa.

O próprio Trong havia rejeitado no passado a fusão dos dois cargos por medo de que a concentração de poder enfraquecesse os sistemas de controlo e equilíbrio de forças dentro do Partido.

A mudança de posição pode ter acontecido, segundo Thayer, como uma tentativa de fortalecer os seus seguidores no congresso do Partido Comunista em 2021, no qual, de acordo com os estatutos, não poderá concorrer à reeleição como secretário-geral por ter já cumprido dois mandatos.

Apesar desta limitação técnica, Thayer e outros analistas descartam a possibilidade de Trong forçar uma mudança do regulamento, para concorrer a um terceiro mandato de cinco anos à frente do Partido Comunista e aglutinar os cargos.

A fusão dos dois cargos é por enquanto provisória, mas o precedente criado com Trong poderia levar a unificá-los permanentemente, seguindo o modelo da China.

“A união dos dois cargos parece uma questão de tempo, já que o Vietname é o único Estado comunista que tem dois políticos diferentes à frente partido e da Presidência do país”, disse num artigo Le Hong Hiep, do Instituto Yusof Isha.

Hiep dúvida que a concentração de poder tenha implicações para a política económica de abertura internacional progressiva, mas advertiu para a “perda da pluralidade da estrutura de poder” e aumento dos riscos para um sistema político mais dependente” do líder eleito em cada momento.

Espera-se que Trong continue a dura campanha anticorrupção do Governo contra altos funcionários políticos e empresariais, a qual muitos observadores veem como uma limpeza camuflada contra os seus oponentes dentro do Partido.

A concentração de poder nas mãos do líder comunista também não dá muita esperança à dissidência política, vítima nos últimos anos de um ressurgimento da repressão denunciada por organizações de direitos humanos.

No âmbito internacional, Trong é conhecido pela sua afinidade com a China, apesar das tensões territoriais que ambos os países mantêm, mas nenhuma mudança substancial é esperada na política de equilibrismo entre Pequim e Washington nos últimos anos.