O Presidente que nunca se enganava e raramente tinha dúvidas agora admite que se enganou numa questão. “Houve uma coisa em que eu não acertei. Eu nunca pensei que o Bloco de Esquerda e o PCP se curvassem com tanta facilidade”, disse Cavaco Silva esta sexta-feira numa entrevista à TSF, a propósito da publicação do seu último livro de memórias sobre a reta final do mandato em Belém. Segundo o ex-Presidente, o que mais o surpreendeu na formação da “geringonça” e na durabilidade daquela solução governativa não foi António Costa ter conseguido agregar os partidos da esquerda de forma inédita, mas sim o BE e o PCP se terem “curvado tão facilmente” perante as imposições ditadas ao país pelo ministro das Finanças.

“Uma coisa eu antecipei: foi que a ideologia acabaria por ser derrotada pela realidade. Na parte económica – porque essa era, em grande parte, imposta a Portugal, vinda da interdependência dos países que são membros da zona do Euro. Mas houve uma coisa em que eu não acertei. Eu nunca pensei que o Bloco de Esquerda e o PCP se curvassem com tanta facilidade a essa realidade. Que viessem a aceitar tão facilmente aquilo com que anteriormente atacavam com grande violência o Governo do Dr. Passos Coelho, em particular em matéria orçamental. Ou, por exemplo, em cortes na área da saúde. Isso é que foi a minha surpresa”, disse aos microfones da TSF.

Questionado sobre se BE e PCP foram demasiado brandos com António Costa ao longo destes três anos, Cavaco insiste que nunca pensou que estes partidos se “curvassem da forma que curvaram”, dando como exemplo a questão do défice orçamental. “Eles aceitam com toda a facilidade a imposição do ministro das Finanças – corretamente – para respeitar aquilo que ele próprio procura impor no Eurogrupo aos outros países, nos mais variados domínios fiscais ou de despesas públicas. Basta comparar a atitude que esses dois partidos tomaram no Governo do Passos Coelho e aquela que tomam em relação às mesmas matérias agora, com este Governo”, nota ainda, acrescentando que na primeira reunião que teve com Jerónimo de Sousa percebeu que o PCP “podia não rejeitar participar no Governo”, mas que sempre achou que António Costa “não queria isso”.

“É banal” políticos escreverem memórias

É “banal noutros países” que pessoas que tiveram responsabilidades políticas ao mais alto nível escrevam biografias e, nessas obras, façam relatos de factos em que participaram e teçam opiniões sobre o que se passou. Foi assim que Aníbal Cavaco Silva  reagiu às críticas que se seguiram à publicação do livro, tendo sido acusado de “falta de sentido de Estado” pelas revelações que fez de conversas privadas.

“Eu tenho em casa cerca de 50 biografias de grandes políticos de todo o mundo e lá fora é normal eles exprimirem opinião”, afirmou Cavaco Silva, em entrevista à TSF esta manhã de sexta-feira. Porque é que em Portugal é diferente? Porque, diz Cavaco, há uma “má tradição dos políticos” que faz com que estes “não prestem contas das ações que desenvolvem”. “Os portugueses têm direito a saber como é que o Presidente da República reagiu num dos períodos mais dramáticos da vida do país”, frisou Cavaco Silva.

Na mesma entrevista, Cavaco pronunciou-se também sobre as eleições no Brasil e até a política externa dos EUA de Donald Trump. Para Cavaco, “os populismos estão um pouco na moda” e, apesar de referir que não quer comentar as eleições de um país soberano, admite que não vê com bons olhos o caminho por onde o Brasil está a ir. “Não esperava que, mesmo alguns países europeus, tivessem estas inclinações populistas, nacionalistas, xenófobas. É qualquer coisa que não se praticava no tempo em que fui primeiro-ministro e participei em 29 Conselhos Europeus. A solidariedade está um pouco na mó de baixo, digamos assim, na União Europeia”, disse, sublinhando no entanto que “o Governo tem tido uma atitude muito sensata em relação às eleições que vão ocorrer no domingo no Brasil”.

A política externa dos EUA foi igualmente alvo das críticas do ex-chefe de Estado. “Eu não consigo entender o que se passa nos Estados Unidos neste momento. Em matéria de orientações de política externa, ultrapassa a minha capacidade de raciocínio, com alguma racionalidade, digamos assim. Eu interrogo-me – e continuo hoje a interrogar-me -, como é que foi possível eleger um Presidente que despacha o ministro dos Negócios Estrangeiros pelo Twitter”, afirma.