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Foi um discurso de derrota já a olhar para os próximos quatro anos até às eleições. No hotel onde acompanhou os resultados oficiais e rodeado de apoiantes, Fernando Haddad começou por agradecer aos antepassados para, de imediato, falar no valor da coragem — a mesma que pediria, no final, aos 45 milhões de eleitores que votaram nele: “Não tenham medo, nós estaremos aqui. Estamos juntos, abraçaremos a causa de vocês. Contem connosco. A vida é feita de coragem”.

Falou durante cerca de 10 minutos, sem esboçar qualquer tentativa de apelo à união. Pelo contrário: além de ter começado com um minuto de silêncio pela democracia, Haddad não deu os parabéns ao adversário, pediu respeito para os próprios eleitores, prometeu lutar pela democracia, garantiu que vai lutar pela liberdade dos que votaram nele e avisou que não aceita provocações nem ameaças. Já depois, a candidatura fez saber que aceita os resultados e, assim, não os vai contestar na justiça eleitoral.

[Veja neste vídeo o discurso de Fernando Haddad na íntegra]

Lula, Dilma e as ameaças à democracia

O apelo à coragem seria a conclusão evidente de um discurso em que elencou todos os desafios que, diz, o Brasil enfrenta agora — os novos e os que já vêm do passado. E, a esse propósito, fez o que já não fazia há quase três semanas: voltou a falar de Lula da Silva e de Dilma Rousseff, símbolos de um passado a que Haddad tentou fugir na campanha para a segunda volta. O candidato do Partido dos Trabalhadores (PT) diz que é já longo o período “em que as instituições foram colocadas à prova, a todo o instante”, a começar com o impeachment de Dilma Rousseff e, depois, “com a prisão injusta do Presidente Lula, a cassação do registo da sua candidatura, desrespeitando uma recomendação das Nações Unidas”.

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Nada que o faça desistir, garante. Sempre muito aplaudido e rodeado por família e figuras da sua campanha, o antigo prefeito de São Paulo, apesar da derrota, fez um balanço positivo da candidatura, destacando o terreno que foi possível ganhar ao adversário na segunda volta (chegou a estar a 18 pontos percentuais de Jair Bolsonaro, acabou a 10), “devido à consciencialização de uma boa parte dos brasileiros acerca do que estava em jogo”.

Agora, diz, é preciso continuar a defender “os direitos civis, políticos, trabalhistas e os direitos sociais”. “Não vamos deixar este país para trás”, prometeu: “Respeitando a democracia e as instituições, mas sem deixar de colocar o nosso ponto de vista sobre tudo o que esta em jogo no Brasil”.

Admissão de erros, só de forma indireta e sobre o que falhou na ligação com os que, no passado, sempre escolheram o partido. Lembrando que faltam quatro anos para as próximas eleições, Fernando Haddad disse que era preciso fazer “uma profissão de fé”, “reconectando com as bases, com os pobres deste país”.

Olhos postos nas próximas eleições

Nesse percurso até 2022, Haddad assume, de imediato, o papel de oposição. Diz que cabe a todos os apoiantes garantir que as instituições continuam a funcionar, mas sem deixar de resistir a quem põe em causa a democracia e quer “destruir o património brasileiro”: “Não vamos sair dos nossos ofícios, mas não vamos deixar de exercer a nossa cidadania”, assegurou. Uma “tarefa enorme”, admite, porque passa por defender “o pensamento e as liberdades dos 45 milhões de brasileiros”, mas obrigatória pelo “compromisso com a prosperidade” — uma forma de acentuar, de novo, o que o afasta do adversário que o derrotou: “Nós que andamos a construir a democracia”, disse, em oposição a quem não o faz.

Da declaração de derrota sobra ainda uma dramatização do discurso. Fernando Haddad diz que o compromisso que têm agora é “um compromissos de vida”, que estava disposto a pôr a própria vida em função do Brasil e que é preciso determinação para isso, porque “tem muita coisa em jogo”. E isso não é nada difícil, garante, citando o hino nacional: “Nem teme quem adora a liberdade a própria morte”.

[Veja o vídeo: #EleConseguiu. A noite em que o Brasil virou]