O pai e um dos filhos de Luís Filipe Menezes receberam dois milhões de euros em offshore quando ele era presidente da Câmara Municipal de Vila Nova de Gaia, está a noticiar o Público. O dinheiro foi enviado em duas transferências bancárias a partir de uma sociedade chamada Longe Company LLC, sediada nos Estados Unidos, para uma conta BCP aberta poucos dias antes numa sucursal offshore em Macau. O dinheiro acabou por ser enviado para Portugal e usado para comprar o apartamento na Foz, no Porto, onde agora vive Luís Filipe Menezes.

O antigo presidente do PSD reagiu ao caso num texto publicado no Facebook, ilustrado com o desenho de uma rapariga a vomitar, a dizer que esta foi uma “bela manhã de outono para sentir o estertor da maldade e da mentira”:

“Após ter anunciado ontem que todos os inquéritos que dezenas de denúncias anónimas haviam gerado contra mim haviam sido arquivados liminarmente, após ficar provado que não foi detetado um único caso em que uma decisão por mim tomada enquanto decisor público estivesse eivada de ilegalidade, é descarregado um último vómito de perfídia. Após quatro arquivamentos, sem ser sequer arguido, num único, já havia sido avisado que a azia ia dar vómito. Ainda bem, assim, com um copos de Alka Seltzer essa mucosa revolvida volta a poder vomitar por outrem”.

Se estiver a ler este artigo na aplicação do Observador, leia o texto de Luís Filipe Menezes na íntegra no final do artigo.

Bela manhã de Outono para sentir o estertor da maldade e da mentira.Após ter anunciado ontem que todos os inquéritos…

Posted by Luis Filipe Menezes on Sunday, 11 November 2018

A história está contada num processo do Departamento de Investigação e Ação Penal do Porto, em que Luís Filipe Menezes era suspeitos de vários crimes, incluindo corrupção. O processo foi arquivado em julho por falta de provas. Mas as autoridades conseguiram descobrir que o dinheiro, que saiu dessa empresa norte-americana em novembro de 2008, deu várias voltas até ter entrado no país numa conta do pai de Luís Filipe Menezes do Banco Espírito Santo, conta o Público. Antes, os dois milhões de euros ainda passaram por uma conta do advogado Amorim Pereira (diretor financeiro da campanha de Menezes à câmara do Porto em 2013) e depois foi transferido várias vezes entre duas contas no Luxemburgo pertencentes ao pai e ao filho de Menezes.

Dos dois milhões de euros originários da sociedade offshore nos Estados Unidos, quase 1,44 milhões de euros chegaram a Portugal e foram regularizados com o terceiro Regime Excepcional de Regularização Tributária. A Polícia Judiciária suspeitava que a conta do Banco Espírito Santo e as contas de Luxemburgo, embora estivessem em nome de familiares de Menezes, na verdade eram controladas pelo então autarca, revela o Público: “Luís Filipe Menezes [deve ser] o detentor do respetivo controlo por intermédio de Amorim Pereira, procurador da conta com plenos poderes no que respeita a operações bancárias”, indica uma informação da PJ redigida em fevereiro de 2016.

Esse dinheiro não terá sido realmente utilizado pelo pai ou pelo filho Pedro de Luís Filipe Menezes. O Ministério Público diz que, pelo menos, não é isso que indicam as declarações de rendimentos dos dois familiares de Luís Filipe Menezes. Na carta rogatória que Maria Adelaide Morais enviou aos Estados Unidos em novembro de 2016, a procuradora titular do inquérito diz que “se encontra demonstrada a impossibilidade absoluta” do dinheiro estar com os familiares de Menezes porque “os mesmos não apresentam proveitos que, minimamente, o sustentem”.

O documento ainda acrescenta: “Do confronto de todos os elementos resultam indícios de que Luís Filipe Menezes, em razão do cargo desempenhado ou por causa dele, terá auferido vantagens indevidas que escamoteou, canalizando-as, através de seu pai e filho, pelo menos em parte, para conta bancária no exterior.” E prossegue: “As sucessivas transferências entre contas bancárias provenientes e com destino a terceiros relacionados diretamente com Luís Filipe Menezes apontam para que todos eles tenham atuado em nome e benefício deste, procurando, através do número de intervenientes e das operações já detetadas, obstar à reconstituição dos movimentos financeiros, entretanto, efetuados e proceder à circulação e integração dos ativos em causa, de modo a impedirem a descoberta da sua verdadeira proveniência.”

Não se sabe quem é o dono da sociedade offshore de onde veio o dinheiro. As autoridades norte-americanas só disseram a Portugal que “os agentes, quando registados, tinham morada em Gibraltar” e que a empresa tinha sido cancelada “por não existência de agente registado e por não pagamento de impostos/taxas”. O Ministério Público ainda contactou outros dois bancos envolvidos nas transferências de dinheiro, mas não encontrou mais dados e arquivou o processo, explica o Público.

Luís Filipe Menezes nega todas as acusações. Contactado pelo Público, o ex-autarca afirma que nunca teve “um tostão no estrangeiro”: “O dinheiro é do meu pai. Se tinham alguma dúvida deviam ter chamado o meu pai e a mim e nunca o fizeram”, declara. Segundo ele, a origem do dinheiro é a venda de um colégio fundado em Ovar pelo Estado que a mãe de Menezes vendeu por oito mil contos em 1971: “Hoje seria o equivalente a dois ou três milhões de euros”, justifica, sem explicar porque é que esse dinheiro estaria no estrangeiro.

Leia aqui a publicação de Luís Filipe Menezes na íntegra:

Bela manhã de Outono para sentir o estertor da maldade e da mentira.

Após ter anunciado ontem que todos os inquéritos que dezenas de denúncias anónimas haviam gerado contra mim haviam sido arquivados liminarmente, após ficar provado que não foi detectado um único caso em que uma decisão por mim tomada enquanto decisor público estivesse eivada de ilegalidade, é descarregado um último vómito de perfídia. Após quatro arquivamentos, sem ser sequer arguido num único, já havia sido avisado que a azia ia dar vómito. Ainda bem, assim, com um copos de Alka Seltzer essa mucosa revolvida volta a poder vomitar por outrém.

Numa notícia que ignora malévolamente três inquéritos sobre actividade municipal arquivados, que fala de um quarto também arquivado, em que nem eu nem nenhum meu familiar foi sequer ouvido, e muito menos arguido, procura, com estratos truncados, com meias mentiras e insinuações pobres de imaginação emporcalhar os resultados inequívocos dessas quatro longas averiguações.

Nem sequer vou referir os dictates anormais que ouvi por parte dos autores. Cinjo-me à realidade: fui investigado dos pés cabeça sendo considerado inocente de todas as denúncias, aliás é curioso escamotearem o arquivamento de uma palete de inquéritos, e o que sobrou foi procurar denegrir, com contas do século passado, de quando eu nem sequer era titular de qualquer cargo público, a imagem de 50 anos de trabalho dos meus pais, de quem sou o único filho!!

Numa conversa telefónica, para apimentar a tentativa de ignomínia, chegaram ao cúmulo de afirmar que a minha falecida mãe tinha doado ao Estado, em vez de vender por milhares de contos, um dos maiores colégios do País, construído com o seu talento e esforço! Era uma espécie de Santa Casa da Misericórdia!

No meio da tentativa desesperada esquecem-se de referir com verdade que se tratam de negócios dos meus pais, que vêm do século passado e que não há nesse inquérito uma única referência ao meu comportamento enquanto autarca ou governante. ZERO.

Last attempt, failed attempt.

Vou dar o leite da manhã ao meu bebé e esperar que a haver ainda mais estertores post mortem, sejam mais motores e menos orgânicos, porque o vómito pestilento cheira mal.

Seria magnífico que todos os detentores de responsabilidades em Portugal pudessem ser sujeitos a tais escrutínios com iguais resultados. Um dia talvez.