O antigo presidente do Brasil Fernando Henrique Cardoso, que foi antecessor de Lula da Silva, considera que se manteve neutro durante a campanha presidencial do Brasil, garantindo que não apoiou nenhum dos dois candidatos (Fernando Haddad, do Partido Trabalhista, e Jair Bolsonaro, do Partido Social Liberal). Agora, em entrevista ao El País, afirma que “o Brasil tem instituições fortes” e, por isso, não acredita que “a eleição de Bolsonaro ponha em perigo [a democracia]”, embora veja no programa do presidente-eleito “um certo aroma a fascismo”.

A democracia está em perigo em todas as partes, mas o Brasil tem instituições fortes (…) a sociedade e os meios de comunicação social são livres, a justiça é independente e o povo gosta da liberdade”, afirmou Fernando Henrique Cardoso sobre a eleição de Bolsonaro.

“Não creio que a eleição de Bolsonaro ponha em perigo [a democracia], até porque ganhou pelo voto”, continuou o antigo líder do Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB).

Questionado sobre o facto de Bolsonaro, o presidente-eleito do Brasil, ter falado sobre a possibilidade de um golpe de estado e que podia suspender o Supremo Tribunal da federação, o antigo responsãvel diz que “entre falar e fazer há diferenças”. Fernando Henrique Cardoso, ou FHC, revelou ao periódico espanhol que tem confiança no sistema constitucional do país: “Temos forças democráticas que se vão contrapor a eventuais palavras e atos que sejam contrários à constituição, à democracia e às leis”.

Henrique Cardoso aproveitou, também, para tentar clarificar algumas das considerações que teceu sobre Bolsonaro durante a campanha: “o que disse foi que tinha um certo aroma a fascismo. O fascismo supõe uma doutrina, uma organização, uma visão autoritária da sociedade”.

Não creio que eles [PSL] tenham isso. Têm expressões autoritárias, mas o fascismo é uma coisa orgânica e não creio que o Brasil tenha algum partido com uma doutrina propriamente fascista. E se tivesse, eu estaria contra”, garantiu Henrique Cardoso.

O antigo líder brasileiro referiu, também, que “a democracia é uma planta delicada que precisa de ser regada todos os dias” e que não dura para sempre. Defendendo que o papel mais individualista da sociedade tem levado ao perigo das democracias, explicou que o atual estado do país deve-se à história económica recente do país: “no Brasil estamos a sair de uma recessão que demorou muito tempo”.

Sobre o Brasil ter votado maioritariamente em Bolsonaro, na segunda volta das presidenciais, Henrique Cardoso foi muito direto com o jornalista e comparou a eleição com a que aconteceu nos Estado Unidos da América em 2016. “Oiça, como foi possível alguém votar no Presidente Trump?”, referiu. “Tivemos até agora uma política de definição de nós contra eles, que foi promovida pelo PT”, justificou também.

O antigo líder, agora com 87 anos, assume que estas mudanças foram causadas pelos representantes eleitos pelo povo: “temos o crime organizado e as investigações contra a corrupção que revelaram que as bases do poder estão podres e quebraram a confiança das pessoas”.

O voto em Bolsonaro não expressa diretamente um sentimento antidemocrático, mas sim outro sentimento, a ilusão de acreditar que alguém que vem impor a ordem melhorará a situação”, referiu Henrique Cardoso sobre a eleição do atual presidente eleito brasileiro.

Por fim, Henrique Cardoso voltou a falar da posição de neutralidade que adotou durante a eleição: “porque é que estava obrigado a escolher entre dois caminhos sobre os quais não estou de acordo se não creio que um deles, o de Bolsonaro, não nos vai necessariamente levar a um regime não democrático?”, justificou. Não ter dado apoio a Haddad é irrelevante, disse ainda, porque “as pessoas agora decidem por elas próprias e as palavras dos líderes valem pouco”.

Bolsonaro não tem um partido e, neste momento, isso impede que se possa transformar num autoritarismo organizado”, justifica Henrique Cardoso.

O político falou também do poder que o seu partido tem atualmente após as últimas eleições. “O que são 52 deputados? 11% do congresso não é nada. Esse é um dos nossos problemas mais dramáticos. Temos 30 partidos! Pobre de quem seja presidente. Não há 30 posições políticas e ideológicas no mundo, são meras corporações para ter acesso a fundos públicos e negociar posições de poder”, afirmou.