“Descobri esta menina no fundo do porta-bagagens, nua, ao lado de uma alcofa podre, nojenta. Dei um salto para trás tal era o cheiro”. A “menina” tinha dois anos e chamava-se Serena. Pesava menos de oito quilos e tinha cerca de 70 centímetros. Estava rodeada de sacos do lixo e fezes quando foi encontrada, em outubro de 2013, por Denis Latour, funcionário da garagem de mecânica, onde Rosa Maria da Cruz levou o carro, um Peugeot 307, que estava com problemas.

A mulher, uma portuguesa natural de Póvoa de Lanhoso, mas emigrada em França, recusou abrir o porta-bagagens alegando que estava muito cheio. Mas os gemidos de Serena foram ouvidos pelo funcionário, que acabaria por encontrar a criança, na altura com dois anos. Rosa Maria da Cruz, mãe de outros três filhos, confessou de imediato o que fizera: teve aquela “coisa”, como descreveu à polícia, sem ninguém saber e escondeu-a de todos desde que a menina nasceu.

“Na mala do carro havia larvas, moscas, minhocas, fezes e fraldas sujas. O cheiro era nauseabundo. Ela viveu longos meses naquele estado de negligência”. O relato é de um polícia que foi chamado ao local, ouvido como testemunha no tribunal em Tulle, onde, esta segunda-feira, Rosa Maria da Cruz, de 50 anos, começou a ser julgada por suspeitas de maus tratos agravados, abandono e ocultação.

É muito duro ser confrontada com esta realidade, com o mal que lhe fiz. Não li a acusação, não queria saber o mal que lhe tinha feito. Lamento imenso”, disse Rosa Maria Cruz, em tribunal, esta segunda-feira.

Também o pediatra que examinou Serena, após ser descoberta, foi ouvido como testemunha e revelou que Rosa Maria da Cruz terá medicado a filha com substâncias químicas presentes em medicamentos analgésicos e anestesiantes. “Nenhuma dessas substâncias é indicada para crianças com menos de seis anos e é discutível o uso em menores. E quando ela foi encontrada tinha 23 meses”, explicou durante o julgamento.

Serena tem agora sete anos e ficou com graves deficiências físicas. Algumas das lesões que sofreu são irreversíveis. A menina está numa família de acolhimento francesa. Os restantes três filhos do casal continuam com os pais.

Na altura em que a criança foi descoberta, o pai da criança, também português, foi indiciado por suspeitas de cumplicidade com Rosa da Cruz. Mas o Ministério Público acabaria por arquivar a acusação por falta de provas. Ainda assim, o pai da criança vai ser ouvido como testemunha. Aliás, já deveria ter sido ouvido, mas faltou à sessão, alegando que caiu e teve de ser hospitalizado. Ainda assim, não está dispensado de ser ouvido — o que deverá acontecer esta semana. O julgamento deve estar concluído até sexta-feira.