Das noites a dormir sem abrigo à parceria com Dr. Dre: como Anderson .Paak chegou à realeza do hip hop

Os primeiros anos foram um tormento: o pai agredia a mãe, a mãe veio a ser presa e ele, já pai, viveu sem abrigo, a dormir pelos sofás de Los Angeles. Oxnard, o novo álbum, tem a "bênção" de Dr. Dre.

i

O baterista e cantor norte-americano tem atualmente 32 anos e editou na sexta-feira passada o seu terceiro álbum, 'Oxnard'

Nicholas Hunt/Getty Images for TIDAL

O baterista e cantor norte-americano tem atualmente 32 anos e editou na sexta-feira passada o seu terceiro álbum, 'Oxnard'

Nicholas Hunt/Getty Images for TIDAL

A entrada na realeza nem sempre é fácil. Na dúvida, é perguntar a Letizia Ortiz como foi passar de jornalista divorciada (e relativamente incógnita, pelo menos por comparação) a futura rainha de Espanha. A coroa pela qual Anderson .Paak luta é outra, mas a ascensão à realeza do hip hop é inegável e os primeiros sinais de percalços também são já notórios.

Não são muitos os rappers e cantores que podem afirmar alto e bom som que têm uma das referências maiores das rimas e das batidas como mentor e padrinho, por mérito e não por familiaridade. Também não há grandes dúvidas de que Dr. Dre é essa referência. Não é preciso sequer revisitar o seu percurso nos N. W. A. e a solo (quantos fãs de hip hop não ouviram The Chronic?). Como produtor, executivo e olheiro, não lhe faltam créditos. Olha-se para o catálogo da sua editora Aftermath Entertainment (subsidiária do grupo Universal Music) e o critério é evidente. O rádio de discos de platina é superior a 50%, estão lá estrelas do hip hop como Eminem, The Game e 50 Cent. Estão também alguns dos álbuns mais marcantes deste género musical nos últimos anos, em parte graças a Kendrick Lamar e aos seus discos DAMN., To Pimp a Butterfly e good kid m.A.A.d city.

Se lançar um disco com o selo Aftermath não é conquista menor e ter Dr. Dre como produtor executivo é tudo menos comum, aliar as duas coisas neste século estava reservado até agora a seis pessoas: Busta Rhymes, Truth Hurts e os já citados 50 Cent, Eminem, Kendrick Lamar e The Game. Até agora. Até Brandon Paak Anderson, conhecido na música como Anderson .Paak (isso mesmo, com o ponto final antes do apelido), editar o seu novo disco Oxnard.

A capa do novo disco de Anderson .Paak

Uma infância difícil e o trabalho numa plantação de canábis

Nascido em Oxnard, pequena cidade da Califórnia situada a perto de 100 quilómetros a oeste de Los Angeles, Anderson .Paak teve uma infância, uma adolescência e um início de idade adulta para as quais é difícil encontrar adjetivos. Não é fácil imaginar tudo aquilo por que passou vendo-o em entrevistas e em palco, quase sempre de sorriso aberto quando não a rir, a saltar e a celebrar como se a música fosse uma festa terapêutica e o passado coisa bem arrumada.

Não é fácil imaginar que o músico tinha sete anos quando viu pela primeira vez a mãe ser barbaramente agredida pelo pai, que foi condenado a 14 anos de prisão e que morreu antes de Paak o rever. A última memória é traumática o suficiente, a do pai “em cima da minha mãe, com sangue por toda a rua e ele a dizer-nos [a Paak e às duas meias-irmãs] para voltarmos para dentro de casa”. Não é fácil imaginar, também como terá sido ver a mãe passar de pobre a rica, fruto de um negócio de cultivo de morangos que cresceu exponencialmente, para depois a ver detida por evasão fiscal juntamente com o padrasto (não declaravam os ganhos chorudos que tinham com o jogo).

Também não é fácil imaginar o que é estar casado pela segunda vez, engravidar a mulher, ir trabalhar para uma enorme plantação de erva (legal, porque na Califórnia o consumo de canábis medicinal foi legalizado nos anos 1990), ser dispensado alegadamente por contenção de custos e ficar de repente sem dinheiro para a renda, com mulher e filho, sem teto, a dormir de sofá em sofá de Los Angeles. Acabou por beneficiar da solidariedade de um tipo chamado Shafiq Husayn, que “nem sequer conhecia assim tão bem” mas que lhe deu sofá e trabalhos.

Vocalista e baterista, Anderson .Paak passou pelo rock, pela música de igreja e pelo hip hop. O novo álbum soa a rap festiva, mais até do que o anterior, que misturava hip hop com soul, R&B e jazz (@ Ari Perilstein/Getty Images for Soho House & Co)

Não foram 32 anos tranquilos nem monótonos. A história de Anderson .Paak, contudo, também não é a de um santo nem de um mártir. Seria simplista retratá-lo assim. O próprio é o primeiro a admitir que só ficou sem teto por levar um modo de vida sui generis: o dinheiro que ganhava na plantação de canábis era muito, mas escapava-se todo entre comida, roupa e “lazer”. “Estourei-o todo. Mal o recebia, gastava-o”, como admitiu sem problemas. A meia-irmã exigia-lhe renda em troca de um quarto, porque via-o esbanjar dinheiro. Quando Paak ficou sem dinheiro, pô-lo na rua.

No início era Breezy Lovejoy (e fazia versões dos Coldplay)

Enquanto se mudava de sofá para sofá de Los Angeles, Brandon Paak Anderson ainda não era Anderson .Paak. Nos clubes e bares onde tocava, era apresentado como Breezy Lovejoy. Juntou-se a músicos dos Free Nationals (banda que o acompanha ainda hoje e que já ganhou vida própria) e deu um número de concertos impossível de precisar. Gravou uma coleção de versões dos Coldplay (é verdade). Chegou a tocar rock e punk. E foi ganhando nome, como baterista dos Free Nationals, acompanhando cantores e rappers da “fauna” do hip hop e R&B de Los Angeles. Curiosamente, só começou a pegar no microfone porque o coletivo não encontrou um vocalista à altura — e ninguém estava entusiasmada com ter de dividir cachê com mais uma pessoa.

Aaron Paar, ou DJ Destroyer, como era conhecido, ouviu muitas vezes a banda numa espécie de discoteca chamada Little Temple, onde os Free Nationals tinham residência mensal. Paar lembra-se especialmente de Anderson .Paak, como recordou há dois anos ao LA Weekly: “Tinha aquele carisma típico do Barry White, do Tom Jones. Quando olhava à volta da sala, via as mulheres completamente petrificadas”. Um dos fundadores da discoteca Low End Theory ‘Nocando’ (James McCall) também teve algo a dizer, a essa publicação da Califórnia:

Era a pessoa mais trabalhadora, humilde, talentosa e positiva que conheci no meio musical de Los Angeles. Hoje, é para mim uma fonte de inspiração e orgulho”, referiu ‘Nocando’.

A aproximação a Dre e um grande disco chamado Malibu

Quando em 2013 se juntou a Adrian Miller, manager que já tinha trabalhado no passado com os The Pharcyde e com Flo Rida, o músico já respondia pelo nome de Anderson .Paak e “estava pronto” para se lançar. Em 2014, um disco chamado Venice apresentou-o ao público — mas poucos o ouviram. No ano seguinte, o single “Suede”, que .Paak lançou com o produtor musical de hip hop Knxwledge no projeto que tem com este (NxWorries), chamou a atenção de Dr. Dre.

O primeiro encontro de .Paak com um dos gigantes do hip hop norte-americano foi uma espécie de casting. Dr. Dre chamou-o, ele apareceu em estúdio, pediu para “pegar no microfone e tentar alguma coisa”, fechou os olhos, cantou, abriu os olhos, cantou mais um bocadinho. Rezam as crónicas que do lado oposto Dr. Dre ergueu as mãos, conquistado.

Não é difícil perceber o que convenceu o fundador da Aftermath e da subsidiária da Apple Beats Electronics a levantar os braços. A voz sensual de Anderson .Paak, ligeiramente rouca, conhecedora da tradição da música afro-americana e da celebração espiritual musical via igreja (não é quase sempre assim?), contagiante também pelas interjeições, tem os seus efeitos. Teve-os em Dr. Dre, que o convidou para cantar em seis das 16 faixas de Compton, álbum que lançou em 2015, o primeiro em 16 anos.

Compton foi a rampa de lançamento de Anderson .Paak para o sucesso, mas foi Malibu, o segundo álbum de estúdio de originais, que confirmou que o cantor-baterista merecia atenção máxima, juntamente com a sua banda de fusão (demasiadas vezes esquecida, injustamente esquecida), brilhante na maneira como mistura funk com soul, hip hop e jazz. Afinal, quem mais faz ao vivo um medley de “Contaloupe Island” de Herbie Hancock com “Niggas in Paris” de Jay-Z e Kanye West e “Pony” de Ginuwine? Quem mais faz do jazz e R&B viagens espaciais com auto-tune, meio caminho entre o som robotizado de uns Daft Punk e o groove do soul e jazz norte-americanos?

Apesar de não ter convencido inteiramente a crítica, espera-se que o novo álbum de Anderson .Paak o aproxime ainda mais do estrelato e da notoriedade pop (@ Alexandre Schneider/Getty Images)

Malibu não é um disco perfeito mas quase. Não é histriónico, tem groove que nunca mais acaba, vai acelerando e desacelerando sem nunca se tornar monótono, deixando espaço para que a voz soul e R&B de Anderson .Paak brilhe mas também para que se oiça com clareza a banda, os arranjos elegantes, os instrumentos (a guitarra, o baixo, as teclas, os sopros, as cordas) tocados com precisão.

Conseguir misturar o arranque espreguiçado e jazzístico de “The Bird” com o tom meio gospel meio rock baladeiro de “Put Me Thrue” com a energia de “Am I Wrong” (com Schoolboy Q), “Without You” (a melhor canção ostensivamente rap do disco, em que Anderson .Paak arranca em grande para a rapper Rapsody prosseguir ainda melhor) e “The Dreamer”, esta mais uma ótima colaboração com Talib Kweli? Tudo isto sem que nada soe deslocado? Não é para todos.

Espiritual e carnal, festivo e romântico, Malibu levou .Paak e os Free Nationals a viajarem por todo o mundo. Foi mais uma prova de que sem “êxitos radiofónicos” (como o próprio músico recentemente admitiu) é possível tocar um pouco por todo o lado e em grandes palcos. Portugal não escapou: ouvimo-lo primeiro a fazer um concerto de abertura de Bruno Mars no antigo Pavilhão Atlântico, ouvimo-lo depois com destaque próprio e inteiramente justo no Super Bock Super Rock, onde foi responsável por uma das melhores atuações do festival nos últimos anos. Só faltava saber o que se seguiria. Sabemo-lo agora.

Oxnard: é possível um salto ser um passo em falso?

“Bubblin”, canção mais próxima do hedonismo trap que Anderson .Paak revelou há seis meses, manteve as expetativas nos píncaros mas não permitia adivinhar o que agora se conhece. Oxnard, o terceiro  álbum de Anderson .Paak, editado na passada sexta-feira e o primeiro lançado com pompa e circunstância no interior de um grupo editorial de grande dimensão (“major”), teve a bênção do “padrinho” Dr. Dre. Além de misturar o álbum, esteve envolvido na produção das batidas, na escolha das faixas que entraram no disco e na mistura do disco. Foi uma espécie de “supervisor”, trabalhando intensamente com Anderson .Paak em estúdio.

Mas terá sido o trabalho a dois verdadeiramente uma parceria? A forma embevecida como Anderson .Paak tem falado nas últimas semanas de Dr. Dre e algumas frases que já proferiu sobre o assunto — “muitos artistas não gostam de ser dirigidos ou produzidos vocalmente”, “é preciso também saber se o que ele está a ouvir é o que ele quer” — denunciam que o peso de Dr. Dre na sonoridade de Oxnard é equivalente ao seu estatuto. Isto apesar do cantor e baterista da costa Oeste já ter dito que o veterano do hip hop o deixou “fazer a minha cena”, “manter-me firme na minha visão” e “não fazer nada que não quisesse”.

Ver esta publicação no Instagram

Just finished mixing the album. It’s a celebration bitches!!

Uma publicação partilhada por Dr. Dre (@drdre) a

Seja pela influência de Dr. Dre no som — há que reconhecer, por exemplo, que nem sempre é certeiro, sendo disso um bom exemplo o recente Revival, disco de Eminem no qual divide a produção executiva com Rick Rubin –, seja porque as expetativas já estavam elevadas por Malibu e mais altas ficaram quando se conheceu a lista de convidados de luxo do novo trabalho (J. Cole, Kendrick Lamar, Pusha T, Snoop Dogg, Q-Tip e mais uns quantos), o álbum tem vindo a ser recebido com alguma frieza pela imprensa e crítica musical.

A revista Pitchfork, que tinha elogiado muito o antecessor Malibu, diz que Oxnard “é um retrato com lente grande-anular da paisagem hedonista de Los Angeles” mas ao qual “falta simplesmente algum foco”. A revista Rolling Stone diz que o álbum “não alcança os seus sonhos de criar um épico soul do hip hop da Costa Oeste para esta era”. E o site The Ringer diz que Anderson .Paak “continua a ser fantástico, ainda que Oxnard seja apenas bom”.

Se o público partilha do ceticismo quanto ao disco está ainda por saber (começará a conhecer-se o seu impacto no final desta primeira semana de vendas e audições em streaming). Para já, apesar das participações e da boa forma evidenciada por rappers como Kendrick Lamar, J. Cole e Pusha T, as novas parcerias não conquistam imediatamente como “Am I Wrong”, “Without You” e “The Dreamer” conquistavam e às canções a solo parece faltar o traço distintivo que “The Bird”, “Heart Don’t Stand a Chance” e “Come Down” tinham face ao panorama generalista do hip hop. Não é que se trate de um disco mau — talvez seja só uma questão de expectativas.

Parecendo imune a dúvidas, o músico declara-se mais do que confortável com um disco produzido ao pormenor, com um andamento genericamente mais rápido (“Saviers Road” e “Smile/Petty” são das poucas que desaceleram o ritmo de festa insaciável) e um modo de produção aparentemente mais próprio do rap, visto que não se ouve em Oxnard as subtilezas e nuances que os Free Nationals mostram em palco quando tocam com Anderson .Paak.

“Este é o álbum que sonhava fazer no liceu, quando ouvia o The Blueprint [disco do rapper Jay-Z], o The Documentary [álbum do rapper The Game] e o The College Dropout [disco de Kanye West]. Pus tudo o que tinha dentro disto, meu. A minha mulher odeia-me como a porra, não consigo sequer estar sempre com os meus filhos a toda a hora porque estou no estúdio a toda a hora. É isto. Isto é tudo o que tenho”, disse recentemente o autor de Oxnard à Rolling Stone. Mantém-se a dúvida: pode um salto ser um passo em falso (e vice-versa)?

Recomendamos

Populares

Últimas

A página está a demorar muito tempo.