Cinema

“Suspiria”: ir às bruxas a Berlim e sair de lá enganado

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Luca Guadagnino pegou no latejante e intenso "Suspiria" realizado por Dario Argento em 1977, e fez uma "reinterpretação" plúmbea, arrastada e anémica de terror. Eurico de Barros dá-lhe duas estrelas.

Autor
  • Eurico de Barros

Há poucas coisas piores em cinema do que realizadores que não têm, nem nunca tiveram nada a ver com os géneros tradicionais, e se apropriam deles, ou de filmes emblemáticos dos mesmos, invocando estarem a fazer “homenagens”, “versões” ou “reinterpretações”, e acabam por os adulterar, esterilizar ou embalsamar. É o que sucede a Luca Guadagnino (que diz ser, em termos artísticos, um “‘stalker’ de grandes cineastas”) na sua apropriação de “Suspiria”, o clássico de terror realizado por Dario Argento em 1977. Neste, Jessica Harper interpreta uma jovem americana que vai estudar bailado para uma prestigiada academia  na Alemanha, e descobre que é a fachada para uma congregação de bruxas, liderada por uma poderosa e ancestral feiticeira, a Mater Suspiriorum. (A fita é a primeira de uma trilogia, que inclui “Inferno”, de 1980, e “Mãe das Lágrimas: A Terceira Mãe”, de 2007).

[Veja o “trailer” do “Suspiria” original de Dario Argento]

O “Suspiria” de Argento é um filme latejante, intenso e sensual, exuberante na paleta visual e nos efeitos de terror de choque, que se vê como um pesadelo de febre alta, acompanhado pela música “planante” dos Goblin. O “Suspira” de Guadagnino é mortiço, plúmbeo, amaneirado, pouco assustador e falho em atmosferas sobrenaturais, mais “pastiche” de Fassbinder com “gore” do que glosa de Argento. Passa-se em 1977, ano da estreia da original, em Berlim em vez de Friburgo, e tem o ambiente de um filme alemão engajado da época da “Terceira Geração”, com muita ganga política (o Muro de pé, o passado nazi ainda fresco, o fantasma do Holocausto, o terrorismo de extrema-esquerda nas ruas) a distrair e afastar do essencial: o terror. Guadagnino até sugere que as bruxas (onde surgem Ingrid Caven e Angela Winkler) têm antecedentes antifascistas, e uma das alunas anda metida com a Fracção do Exército Vermelho.

[Veja o “trailer” do novo “Suspiria”]

Dakota Johnson substitui Jessica Harper no papel principal, o de Susie Bannion, a jovem americana aspirante a bailarina que é aceite na academia dirigida pela altiva e carismática Madame Blanc (Tilda Swinton, a actriz favorita de Guadagnino), uma espécie de Pina Bausch com poderes mágicos, cujas coreografias espasmódico-brutalistas são objecto de grande consideração no meio cultural. Blanc descobre em Susie não só uma bailarina de excepção, como também a presa ideal para ser sacrificada e dar nova vida a Madame Markus, a decrépita bruxa-mor, que vive nos subterrâneos do edifício. (Numa das raras sequências de terror genuíno do filme, uma aluna que queria fugir é despedaçada por acção dos poderes de uma das bruxas, numa macabra coreografia de morte que reproduz os movimentos que Susie executa numa sala de ensaio noutro andar).

[Veja uma entrevista com Dakota Johnson]

Trabalhando sobre o argumento original de Dario Argento e da então sua namorada, e actriz de eleição, Daria Nicolodi, Guadagnino e o argumentista David Kajganich atravancam “Suspiria” de novas personagens, acontecimentos marginais e referências político-ideológicas ao desbarato. Susie provém de uma repressiva família menonita, as bruxas da escola estão divididas em duas facções, uma “radical” pró-Markus e outra “moderada”  pro-Blanc, e uma das figura principais desta versão é um velho professor e psicanalista, Josef Klemperer, que uma das alunas  desaparecidas consultava e ao qual confiou o seu diário, onde denunciava a verdadeira natureza da escola de bailado e do seu corpo docente. Klemperer começa a investigar o caso, enquanto suspira pela mulher, desaparecida na II Guerra Mundial. Mas Lenine, Jung e magia negra não vão bem juntos.

[Veja uma entrevista com Luca Guadagnino]

Esticando-se por duas horas e meia, contra a hora e meia enxuta do de Dario Argento, o filme culmina com um “sabbath” sacrificial que dá mais vontade de rir do que atemoriza, e que subverte o original de forma confusa e estapafúrdia, já que se neste Susie combatia e vencia o Mal, na versão de Luca Guadagnino ela afinal faz parte integrante dele. Há um ajuste de contas de facções mais extremo do que num congresso de partido trotskista, muitas cabeças a explodir como melancias alvejadas a tiro e soltando repuxos de sangue, a manifestação de uma criatura infernal feita com CGI manhoso, e a visão indigna do pobre professor Klemperer a assistir a tudo aterrorizado e em pelota.

[Veja uma entrevista com Tilda Swinton]

Desta “Suspiria” laboriosa, dispersa, pretensiosa e anémica de terror, aproveitam-se só Dakota Johnson, cuja denodada entrega à sua ingrata personagem merecia um papel num filme de horror sobrenatural a sério; o inesperado triplo papel de Tilda Swinton, e a fugaz participação de Jessica Harper, a Susie original de Dario Argento, num “cameo” fantasmagórico. Não acredito em bruxas na vida real, e no cinema, só mesmo nas do “Suspiria” de Dario Argento. As desta “releitura” de Luca Guadagnino têm a credibilidade da bruxa da Ladeira.

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