Uma equipa portuguesa de investigadores descobriu um conjunto de antibióticos derivados de açúcar que permitem combater a bactéria Bacillus anthracis, que provoca a doença do “anthrax” (ou antraz, em português). Os esporos desta bactéria podem ser usados como arma biológica em atos de bioterrorismo, como aconteceu nas cartas enviadas a dois senadores e alguns meios de comunicação nos Estados Unidos, em 2001.

Os químicos da equipa partiram de moléculas de açúcar, como a glicose, que modificaram para que pudessem interferir na membrana das bactérias (destruindo-a) e na capacidade de germinação dos esporos, que depois dão origem à bactéria. Os resultados da investigação foram publicados a 19 de novembro na revista científica Nature.

Matar as bactérias, pela destruição da sua membrana, evita que as bactérias desenvolvam resistência contra os antibióticos como acontece com as terapias atualmente disponíveis, disse, em comunicado, Amélia Pilar Rauter, líder do grupo de Química dos Glúcidos da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa.

Neste momento, as moléculas e o mecanismo proposto são apenas uma possibilidade apresentada para um antibiótico. Para que possa chegar ao mercado é preciso que uma empresa tenha interesse no trabalho desta equipa e que faça ensaios, primeiro com animais em laboratório e, depois, com humanos. Além de tratar pessoas que tenham sido infetadas pontualmente com a bactéria, pode ser usada como solução nas situações de bioterrorismo. “Havendo formas de combater a doença, torna-se mais fácil o combate ao terrorismo”, afirmou a investigadora.

Em declarações à Antena 1, Amélia Pilar Rauter, que liderou a investigação, explicou que os antibióticos “são derivados de açúcares e são biodegradáveis”. Este fator também é relevante na medida em que pode reduzir o impacto ambiental, uma vez que as estações de tratamento de águas residuais não têm, normalmente, capacidade para eliminar antibióticos e outros medicamentos da água.

A bactéria que causa antraz encontra-se no solo e, por essa razão, o primeiro contacto é feito pelos animais que se alimentam junto ao solo, como os herbívoros, que inalam ou ingerem os esporos. Os humanos que trabalham a terra ou que manuseia os animais contaminados também podem ficar infetados, sobretudo por via cutânea. O maior perigo para a saúde acontece quando as pessoas inalam os esporos, como acontece nos casos de bioterrorismo em que os esporos vêm misturados com um pó facilmente inalável. Nestes casos, pode provocar a morte.

A bactéria existe naturalmente em solos de vários locais do mundo, incluindo na Europa. Como pode afetar tanto animais domésticos como selvagens, é difícil de erradicar.