Cultura

Ben Stiller realizou “Escape At Dannemora”: é o “Prison Break” que vai querer ver

Esqueça o Ben Stiller das comédias. Em 2018 ele tornou-se no realizador de um dos melhores dramas televisivos da atualidade. “Escape At Dannemora” estreia-se este domingo no TVSéries.

Autor
  • André Almeida Santos
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Leu bem. “Escape At Dannemora” é um drama realizado por Ben Stiller. Faz parte de uma nova estratégia do canal/produtora Showtime e conta a história de uma das fugas de prisão mais icónicas dos últimos anos. Dividido em sete partes, “Escape At Dannemora” estreou-se na semana passada nos Estados Unidos e chega agora à televisão portuguesa pelas 23h00 no TVSéries. O Observador já viu todos os episódios e pode garantir que a estreia de Ben Stiller no drama é um deleite. Ou, pelo menos, um “deleite” até onde uma série como esta pode ser.

Primeiro, os factos. A 6 de Junho de 2015 dois condenados fugiram da prisão Clinton Correctional Facility, em Dannemora, uma pequena vila no estado de Nova Iorque. Richard Matt (Benicio Del Toro) tinha uma pena de 25 anos de prisão e David Sweat (Paul Dano) prisão perpétua. Ambos acusados de homicídio, fugiram da prisão com um plano que muitas vezes é comparado à história de “Os Condenados de Shawshank”, a história de Stephen King que se tornou muito popular graças ao filme de Frank Darabont em 1994.

A história de Richard e David foi muito falada por várias razões. Primeiro, a fuga foi elaboradíssima – daí a comparação com a história de King –, uma espécie de tempestade perfeita que permitiu a ambos terem acesso a condições que lhes permitiram serrar a sua saída; segundo, tiveram a ajuda de uma mulher, Joyce “Tilly” Mitchell (Patricia Arquette), que trabalhava na prisão e que facilitou a saída de ambos; e, terceiro, demoraram três semanas até serem apanhados, numa operação que custou mais de 23 milhões de dólares. Richard foi morto, David capturado.

Salto da realidade para a série de Ben Stiller. O homem conhece os cantos à casa. Sabe o que os atores gostam, sabe dirigi-los, parte do sucesso das suas comédias no passado deve-se a isso, e ao que parece sabe conduzir um drama. Nos sete episódios de “Escape At Dannemora” há um contínuo que raramente provoca tensão ou pressão para ver o episódio seguinte, suscita a curiosidade natural de uma história que necessita de ser vista até ao fim. Isto é, Stiller encontrou um balanço entre a tarefa do binge-watching e a paciência para se aguentar uma semana para ver o episódio seguinte numa época em que tudo parece ser feito de enfiada. “Escape At Dannemora” é melhor digerido suavemente.

As personagens oferecem-se a isso. Necessitam de repouso na cabeça do espectador. “Escape At Dannemora” é mais do que uma história de uma fuga de prisão. Quem liga isto tudo é a personagem de Patricia Arquette, que na série ganha mais importância do que realmente teve na vida real, mas é uma relevância que comporta todos os pontinhos que ligam a narrativa.

Tilly Mitchell não foi a única a ajudar, voluntária ou involuntariamente, os reclusos a escaparem da prisão. Contudo, ela ganha destaque porque manteve relações sexuais com ambos os prisioneiros durante algum tempo. Ela diz que eles se aproveitaram da sua vulnerabilidade (estava a passar por uma depressão na altura). Patricia Arquette encarna Tilly de uma forma magnífica. A mudança física é colossal, sim, mas o mais impressionante na interpretação de Arquette é a voz que dá à sua personagem, uma combinação perfeita entre debilidade, insegurança e mentira. À primeira vez que se faz ouvir percebe-se que há ali personagem. E que personagem.

Numa conversa com vários jornalistas por telefone, onde estiveram presentes Paul Dano, Benicio Del Toro e Patricia Arquette, a atriz confessa: “Não me preocupa que as pessoas gostem da minha personagem. Aliás, fiz um esforço para não me preocupar com isso. Porque isso limitaria a minha personagem e também estaria a manipular a audiência se o fizesse”.

A personagem de Arquette não causa simpatia. Não por ser má, perversa, embirrante ou parva. Nada disso. Simplesmente não causa. É um trabalho magnífico, que vai além da caracterização de “personagem boa” versus “personagem má”. Tilly é só alguém vulnerável que fez algo de muito errado. Moralmente e não só. É difícil encarnar isso.

Arquette foi a única das protagonistas que decidiu não conhecer a pessoa que iria interpretar:

Não quis conhecer a Tilly porque já a tinha visto numa entrevista e percebi como é que ela se comportava quando estava a mentir. Quando os prisioneiros escaparam, e começou a tornar-se evidente que ela os teria ajudado, ela fez uma declaração, com a ajuda dos seus advogados, em que exigia que o seu nome deixasse de estar associado aos prisioneiros. Ela ameaçou colegas de trabalho. Pela forma como se comportou penso que, se falasse com ela, não iria ter uma resposta franca. Ela iria apenas tentar manipular-me e puxar para a versão que ela queria que as pessoas vissem.”

Arquette também tirou as suas conclusões em relação ao comportamento sexual de Tilly: “Penso que ela se apaixonou pelo David, de uma forma muito adolescente, mas também muito maternal [David era o mais novo dos dois]. O Richard foi o primeiro alfa com quem alguma vez teve uma relação e penso que isso lhe causava algum medo mas também excitação. E foi nessa perspetiva que direcionei a minha personagem para a sua relação com os prisioneiros”.

Mas como se torna em ficção uma história real que, de facto, parece ficção? Paul Dano esclarece que “uma das grandes dificuldades é perceber a responsabilidade que se tem em mostrar a verdade, aquilo que se sabe, e torná-la num drama. Os argumentistas fizeram um excelente trabalho. Estas personagens, como foram construídas, nestes ecossistema, são realmente fascinantes. E a única forma de acreditar nesta história é aceitar de que é verdade.”

Uma das partes dessa verdade é de que Richard Matt gostava de pintar. A humanização das personagens foi essencial para “Escape At Dannemora” funcionar tão bem. Del Toro percebeu isso de imediato, quando confrontado com o facto de Richard ter esse hobby:

O facto dele ter esse talento só lhe acrescenta um fator humano. É uma contradição, claro, alguém que conseguem pegar num pincel, misturar cores e fazer algo bonito, ser também capaz de matar alguém. Mas é essa contradição que penso que a minha personagem tem, tal como o Richard tinha.”

Durante os sete episódios de “Escape At Dannemora” será muito complicado gostar das personagens. Não há nada de simpático nelas, fizeram algo de errado, estão a fazer algo de errado, a vincar frequentemente o imoral. Contudo, torna-se impossível de ignorar uma série assim, em que tanto o realizador como protagonistas se alhearam de julgamentos e vincaram as personagens e a história do que aconteceu em Clinton Correctional Facility com uma guerrilha de verdade, aquela que é possível nos domínios da ficção. A história de David, Richard e Tilly parece ficção, mas foi real, bem real, e em tudo melhor do que a ficção. O melhor que Stiller poderia fazer passaria por deixar isso a cru. E fê-lo.

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