Comida

Antonio é louco por pizza e vinho e fez um prémio para juntar os dois amores

Na primeira edição do All Stars Pizza Antonio Mezzero Trophy, Tony Gemignani e Radostin Kiryazov foram os grandes vencedores de uma prova que juntou a pizza napolitana com vinhos do Porto e do Douro.

O criador do concurso com todos os participantes

Miguel Oliveira

Autor
  • Filipa Teixeira

Um português, um espanhol, um italiano, um francês, um búlgaro, um polaco, um sueco, um brasileiro, um argentino e um americano entram no Pátio das Nações, no Palácio da Bolsa do Porto. Poderíamos dizer que estariam a fazer realpolitik, numa reunião da mais alta diplomacia mundial, e em certa medida até foi isso que se passou. Esta segunda-feira, o Porto foi a cidade anfitriã da primeira edição do All Stars Pizza Antonio Mezzero Trophy, um troféu que apadrinhou internacionalmente o casamento entre dois patrimónios da UNESCO: a arte da pizza napolitana e o Douro.

A ideia partiu de Antonio Mezzero, atual campeão do mundo de Pizza Napolitana e embaixador da tradição em Portugal. Quem o conhece não estranha a ousadia nem a excentricidade própria dos apaixonados. “A paixão é também um património”, afirma com vigor, e foi essa sua característica tão vincada que o levou a formalizar em 2017, junto do Instituto do Vinho do Douro e do Porto (IVDP) e da Associazione Pizzaiuoli Napoletani (APN), a união entre a pizza e o Vinho Porto. “As melhores pizzas que fiz na minha vida foram as que harmonizei com Vinho do Porto e Douro”, conta a propósito da Passione, Arte, Qualità e Peperoncina que tem no seu restaurante em Matosinhos.

Consumada a boda de água, havia que dar o passo seguinte: espalhar a palavra pelo mundo. Para isso, Mezzero criou um troféu que “é uma espécie de Champions League onde só estão os melhores dos melhores”. Isto é, dez pizzaiolos internacionais escolhidos a dedo pelo campeão do mundo e pela APN. “Não podia ser qualquer pizzaiolo a harmonizar pizza com Vinho do Porto e do Douro. Estas pizzas são pizzas gourmet, pensadas e degustadas várias vezes, obras de arte como os quadros de Picasso.” Antonio fala com o coração na boca, “é muito difícil emocionar uma pessoa como eu, mas hoje sinto-me emocionado e honrado” diz sem rodeios, “isto não é pizza de business, é paixão, emoção e amor pelo que se faz.”

O rei português e a rainha italiana coroados no Porto

Dois balcões posicionados lado-a-lado, um forno Stefano Ferrara ao centro, revestido a mosaicos dourados e com chama alta, massa esvoaçante no ar e ingredientes que atravessam tradições tão díspares como a salsicha de sangue da Polónia, o bacalhau, a broa e a alheira portuguesa, as carnes argentinas, o rabo de touro andaluz, a trufa italiana de Alba ou o green cheese da região de Cherni Vit, no norte da Bulgária, fizeram do Palácio da Bolsa, envolto em ritmo de tarantella, uma babilónia de sabores invulgares e surpreendentes.

Antonio Mezzero e os dois vencedores

Ao lado dos dez pizzaiolos estiveram representadas cinco casas conceituadas do Douro, cada qual acompanhando dois artistas, assim chamados por Mezzero. O sorteio ditou que a Symington, com a Graham’s e a Altano, faria equipa com Jaqueson Dichoff (Brasil) e Luis Garcés Maldonado (Espanha); a Croft concorreria com o doze vezes campeão mundial Tony Gemignani (EUA) e com o embaixador da pizza napolitana na Suécia, Ali Chahrour; a Quinta do Crasto posicionar-se-ia ao lado de Vincenzo Capuano, italiano e napolitano de gema, e de Oskar Matysik (Polónia), o mais jovem pizzaiolo a concurso com 22 anos; a Quinta da Pacheca com o francês Albert Facciolo e com Radostin Kiryazov, jurado do Master Chef Bulgária e autor do livro “Panne, Pizza e Passione”; e finalmente a Sogrape, com a Casa Ferreirinha e a Porto Ferreira, estaria com Pablo Gil (Argentina) e com o actual campeão nacional de Pizza Napolitana STG, o português Fernando Almeida.

No final, todos levaram para casa um certificado da UNESCO a atestar que foram os primeiros pizzaiolos no mundo a fazer parte de um troféu internacional que une duas tradições, dois patrimónios. “Aqui quis juntar o Rei e a Rainha, que é o vinho do Douro e a pizza napolitana” refere Mezzero, ele que é “Antonio português e Antonio italiano”, duas almas do mesmo homem.

Os melhores pizzaiolos do mundo nem sempre são italianos

Antes de serem anunciados os três finalistas, cruzamo-nos com Radostin Kiryazov, alegremente a confraternizar com Maria Serpa Pimentel, enóloga da Quinta da Pacheca e parceira de equipa do pizzaiolo búlgaro neste concurso. “Esta é uma ideia muito bela”, dizia-nos com o seu anel em forma de pizza no dedo médio e um italiano polido em sotaque búlgaro: “Mostrar os produtos da Bulgária combinados com o vinho português e a tradição da pizza napolitana é muito bonito”.

Kiryazov foi dos mais originais nas suas apresentações, com lenços e bases tradicionais búlgaras, de padrões florais, a enfeitar os tabuleiros das suas pizzas que brilharam com o queijo trufado, chalotas, cogumelos porcini e o Elenski but, um presunto seco curado tradicional da cidade de Elena, no norte da Bulgária. O toque mais pessoal esteve na água de rosas que o pizzaiolo búlgaro inclui sempre na massa, assinatura pessoal de mestre. Na harmonização brilhou um Pacheca Tinto Grande Reserva Touriga Nacional 2015, “bastante estruturado e elegante”, combinação que conquistou o júri presidido por Sérgio Miccú, da APN, e que elegeu Radostin Kiryazov e a Quinta da Pacheca como vencedores na categoria Melhor Harmonização Pizza com Vinho do Douro DOC.

O outro premiado da noite foi Tony Gemignani. Para o pizzaiolo natural de São Francisco, com família italiana, espanhola e também portuguesa, o talento está na forma como o pizzaiolo escolhe os ingredientes para que a harmonização resulte perfeita. “Quando fui convidado para competir neste troféu sabia que ia competir contra os melhores pizzaiolos do mundo. Preparei-me durante bastante tempo, sentei-me calmamente a apreciar os vinhos da Croft, a complexidade dos seus aromas, e decidi que a minha pizza ia ter muito sabor.” Assim, para acompanhar o Croft 20 Years Old Tawny, Gemignani utilizou na sua criação vencedora na categoria Melhor Harmonização Pizza com Vinho do Porto, sal marinho fumado em madeira de pipas de Vinho do Porto, chouriço local e Nduja da Calábria, micro vegetais, e uma redução de vinho do Porto para dar um toque adocicado à pizza. “Existe tanto respeito nesta sala, é uma honra estar aqui com todos estes grandes pizzaiolos” desabafou depois de um dia intenso, mas cheio de boa disposição. “Diverti-me muito”.

O pódio ficou completo com Vicenzo Capuano e Fernando Almeida na categoria Douro DOC, e Luis Garcés Maldonado e Pablo Gil na vertente Vinho do Porto. Terminada a primeira edição, Mezzero, que disse ter vivido o dia mais feliz do seu percurso profissional, assumiu que quer mais. Os olhos estão já postos em Milão e Madrid, cidades anfitriãs das duas próximas edições do All Stars Pizza Antonio Mezzero Trophy: “Vou lutar por representar lá fora a tradição portuguesa e italiana sempre ao mais alto nível. Só preciso que os portugueses acreditem em mim e no património único que têm.” Até ver, não há razões para duvidar.

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