Olhando para Samuel Little hoje, dificilmente se conseguiria adivinhar que este homem de 79 anos, com diabetes, problemas de coração e que se desloca de cadeira-de-rodas fosse o autor confesso de 90 homicídios. Nos últimos dias, como relata o The New York Times, o estado do Texas — os EUA num todo e o mundo inteiro — têm testemunhado com horror os relatos que este homem de cabelo grisalho tem contado às autoridades sobre os crimes que terá cometido ao longo de várias décadas.

Descrições de sítios, caras, ruas de cidades pequenas: é com este nível de pormenor que Little tem falado sobre como, muito provavelmente, se tornou no maior assassino em série da história dos EUA. “Estamos convencidos de que quando isto tudo terminar, Samuel Little será certamente confirmado como o maior serial killer da história norte-americana”, afirma ao jornal norte-americano Bobby Bland, o procurador-geral de Ector County, no estado do Texas. O Green River Killer (Gary Ridgway), por exemplo, é o macabro detentor deste recorde, somando no total 49 condenações por homicídios realizados no estado de Washington, entre os nos 90 e 80.

Como é possível alguém ter matado tanta gente e só vários anos depois se saber disso? Essa é a grande questão que tem intrigado tanto as autoridades como toda a gente que tem vindo a conhecer a forma como este ex-pugilista matou e violou mulheres pobres, algumas vezes prostitutas, quase sempre toxicodependentes, em pelo menos 14 estados norte-americanos.

“Eu posso enfiar-me no meu mundo e fazer o que me apetece”, disse Samuel ao detetive Michael Mongeluzzo no passado mês de outubro. Foi a Mongeluzzo que Little confessou ter matado Rosie Hill (uma jovem de 20 anos) em 1982. Com esta afirmação, o homicida condenado — apesar de só agora começarem a ser conhecidos os inúmeros homicídios que terá levado a cabo, Samuel Little está a cumprir três sentenças de morte na prisão por ter sido provado que matou três mulheres em Los Angeles, nos anos 80 — refere-se ao mundo da pobreza extrema, o sem fim de bairros problemáticos que ainda hoje existem espalhados pelos EUA onde são várias as mortes que passam despercebidas e nunca chegam a ser investigadas. “Eu não vou para o vosso mundo…”, acrescentou.

Como a polícia o apanhou e como ele começou a contar tudo

O mesmo polícia Mongeluzzo fez questão de afirmar o facto de ser “assustadora, a clareza que ele tem em relação a determinadas coisas que se passaram há anos”. Little é descrito como sendo um psicopata carismático que espancava brutalmente as suas vítimas antes de as estrangular — chegou a dar um soco na barriga de uma das suas vítimas com tanta força que acabou por lhe partir a coluna — e que, apesar de refutar completamente a ideia, alegando sofrer de problemas de disfunção erétil, violava algumas das suas vítimas (amostras de sémen recolhidas comprovam-no).

O cerco fechou-se sobre Little pela primeira vez em 2012, quando os detetives Marcia e Mitzi Roberts, que estavam a investigar o assassinato de duas das mulheres em Los Angeles, seguiram-no até um centro de sem-abrigos no Kentucky. Vestígios de ADN deixados nas vítimas indicaram-lhes o caminho. Quando o encontraram, Samuel já contabilizava 10 anos de cadeia, “graças” a crimes como assalto à mão armada, rapto e violação. Ao longo de 50 anos foi preso mais de 100 vezes mas, conta Beth Silverman (a procuradora-geral do condado de Los Angeles que acabou por condená-lo), “foi-se safando vezes e vezes sem conta”.

Confinado já à cadeia do condado de Los Angeles, Little ia passando despercebido até que uma série de amostras de ADN masculino começaram a colá-lo a casos não resolvidos de outras mulheres assassinadas. Em 2018, o ranger do Texas James Holland decidiu ir mais fundo entrar na cabeça de Little, de quem já se suspeitava. Acabou por conseguir conquistar a confiança do serial killer e isso abriu a torneira para os relatos que começaram a jorrar. Em pouco tempo tudo isso motivou uma transferência para a cadeia de Ector County, no Texas, e fez com que a mesma se tornasse motivo de romaria para uma série de investigadores que, com as novas informações, os levavam a desenvolvimentos de casos que tinham como não resolvidos.

Os pormenores e os detalhes terríveis que o fazem rir

As autoridades suspeitam que terá sido a transferência de prisão a motivar a maior abertura em relação aos pormenores sórdidos dos crimes que terá cometido. Entretanto, todo a atenção mediática que o caso tem despertado alterou um pouco esse mindset: Samuel passou a gostar da atenção e isso tem-no feito falar ainda mais. 

É precisamente nestes momentos, quando o assassino fala dos seus feitos macabros, que a história ganha contornos ainda mais negros. Little não só não mostra qualquer tipo de remorso por aquilo que fez como, em alguns detalhes específicos como a descrição dos sítios onde deixou cadáveres, por exemplo (um contentor de lixo, perto de uma pocilga, debaixo de uma nogueira), mostra um entusiasmo assustador. Fala com convicção e sem hesitar dos pormenores mais gráficos e, por vezes, até solta umas gargalhadas. A excitação ao falar de sucedido chega a tornar impercetível o seu discurso, tal a rapidez com que fala. “Acredite-se ou não, só chegamos a ver maldade a sério nesta carreira umas poucas vezes”, relatou ao New York Times Tim Marcia, um detetive de Los Angeles que esteve envolvido na investigação inicial que atirou Samuel para a cadeia. “Olhando para os olhos dele, diria que se via maldade pura.”

Sabe-se pouco sobre a infância de Samuel Little — fase que muitas vezes acaba por justificar alguns comportamentos desviantes que se desenvolvem com o crescimento –, mas as autoridades norte-americanas acham que ele deve ter nascido na prisão, quando a sua mãe cumpria sentença por prostituição (o próprio já afirmou que a sua mãe era “uma senhora da noite”), sendo mais tarde criado pelos avós no Ohio. Nada justifica, porém, os crimes hediondos que terá cometido. Um deles é relatado no artigo do New York Times.

Um dos crimes descrito sem omissões e a sua obsessão

A cidade de Opelousas, em Los Angeles, tem 16 mil habitantes e alguns deles são Donald Thompson e a sua família, que, desde 1996, tem vivido assombrado por uma morte. O respeitado chefe da polícia local nunca esquecerá o mês de janeiro desse ano, quando o corpo nu de Melissa Thomas, 24 anos, foi encontrado debaixo de uma nogueira, num cemitério por trás de uma igreja Baptista. Melissa era a prima da mulher de Donald.

Há cerca de um mês o mesmo Donald Thompson recebeu um telefonema do Texas: Little tinha acabado de confessar que fôra ele o assassino de Melissa. O sargento Chrystal LeBlanc foi prontamente enviado à cadeia texana para confirmar a notícia e acabou por passar duas horas a interrogar Samuel: ele sabia todos os pormenores da pequena cidade de Opelousas, os nomes das ruas, dos bares e até do cemitério onde o cadáver foi encontrado. Samuel depois explicou como tinha matado Melissa Thompson.

Tudo terá começado numa rua, quando o assassino meteu conversa com Melissa e convenceu-a a ir com ele consumir droga para perto do cemitério. Quando passaram para o banco de trás, para terem relações sexuais, Samuel começou insistentemente a afagar-lhe o pescoço — as autoridades hoje acreditam que essa relação com o pescoço está na base da sua satisfação sexual. Melissa começou a achar estranha, a obsessão: “Ele disse que ela lhe disse: ‘Porque estás sempre a mexer no meu pescoço? És um serial killer?'”, contou a agente LeBlanc. A pergunta terá enfurecido Little de tal forma que a asfixiou no momento.

Artigo atualizado às 20h02 de dia 27 de novembro de 2018