O presidente executivo da Galp Energia alertou para a falta de consistência e de uma visão global e de longo prazo nas políticas fiscais na Europa ao nível da energia. Carlos Gomes da Silva avisa que “enquanto não tivermos uma visão consistente e global e de longo prazo vai ser muito difícil tomar decisões de investimento. Isto pode levar a uma disrupção do sistema e uma perturbação na segurança de abastecimento”.

O presidente da Galp falava à margem da um evento de empresas de gás natural liquefeito (GNL) que se realiza entre 27 e 30 de novembro em Lisboa e que reúne as maiores empresas mundiais do setor. Carlos Gomes da Silva foi questionado sobre a intenção do Governo de estender o imposto petrolífero ao gás natural usado para produzir eletricidade, isto depois de durante a sessão da manhã ter sido defendido este combustível como parte do mix energético do futuro. “Mais uma vez é a demonstração de que a política fiscal tende normalmente a contradizer aquilo que é o mérito tecnológico e o mérito ambiental”, lembrando a situação nos anos 80 quando as políticas fiscais favorecem o gasóleo em detrimento da gasolina.

Gomes da Silva diz que este não é um tema de Portugal, mas sim global, e que no caso concreto até não afeta a Galp porque tem uma operação muito internacionalizada. Mas deixa o aviso:

 Acho que os governos e a Europa ainda não têm consolidada uma visão global e transversal e tem de o fazer. Isto não pode ser uma política para três anos, cinco anos ou dez anos. Tem de ser uma política de longo prazo em que continuo a acreditar que a tecnologia vai liderar essa transição”.

O papel do gás natural no novo mundo da descarbonização foi um tema incontornável na World LNG Summit e Awards Evening, com os participantes a defender que este combustível, ainda que de origem fóssil, tem futuro assegurado na transição para as energias renováveis e para o carbono zero. Para Gomes da Silva, o gás natural “é um dos melhores parceiros para um mundo mais sustentável. Isto porque com energia de base renovável o tema que temos pela frente é da armazenagem”. Ou seja, enquanto não for resolvida a intermitência das renováveis — imprevisibilidade da produção elétrica a partir de fontes como água, vento e sol — o gás natural tem o seu lugar assegurado porque é necessário como backup para garantir a segurança no abastecimento de sistemas elétricos com grande exposição a fontes renováveis, como é o português. E isto vai durar algumas décadas, acredita o presidente da Galp.

Por outro lado, destaca Gomes da Silva, ainda temos uma matriz de energia primária muito suportada no carvão, que é usado para produzir a eletricidade.” O carvão e o nuclear têm pesos muito relevantes com desafios que são enormes para a humanidade”. O carvão pesa 45% na geração elétrica.

“Se substituíssemos todos os carros do mundo por elétricos só reduziríamos em 3,4% as emissões. Mas se cortarmos o carvão ao limite zero e o substituirmos completamente por gás natural, a redução seria de 15%. Temos de olhar para o mundo e para a transição energética numa perspetiva muito mais aberta. Sendo muito cuidadosos na maneira como olhamos para a neutralidade tecnológica de cada tipo de energia. E não olhar só para o momento do consumo.”

É na linha dessa transição que a Galp tem vindo a trabalhar com a deslocação para as áreas de negócio e novas soluções sobretudo ao nível da energia primária. Gomes da Silva refere o projeto de Moçambique onde a produção vai arrancar na próxima década, mas também o Brasil.

Quanto à transição no setor dos combustíveis rodoviários, o presidente executivo da Galp desvalorizou o impacto da fuga dos carros a gasóleo para a gasolina. E afirmou que a refinaria de Sines não terá de fazer uma transição no seu processo produtivo depois de ter feito um investimento de reconfiguração para produzir mais gasóleo. Mas voltou a sublinhar “que qualquer decisão de investimento tem de ter uma previsibilidade e estabilidade do quadro regulatório sem a qual não haverá investimentos”.

Questionado sobre uma eventual saída da Sonangol do capital Galp, onde é um investidor indireto através da Amorim Energia, lembrou que o caso da Galp é diferente do BCP porque o que estará em discussão “não envolve ações da Galp“. E não fez mais comentários sobre uma eventual transição ao nível da Amorim Energia, onde a Sonangol é parceria do grupo Amorim, juntamente com Isabel dos Santos. A venda desta posição da petrolífera angolana estará a ser equacionada no quadro da reestruturação da Sonangol, mas na recente visita do presidente angolano a Portugal, João Lourenço não confirmou o negócio.

No que diz respeito aos contratos de abastecimento de gás natural liquefeito com a Nigéria, que terminam entre 2021 e 2025, Gomes da Silva reconheceu que não serão renovados nas mesmas condições, nomeadamente de prazo. Ainda que não tenha afastado o cenário de manter este fornecedor. A partir dessa data deverá chegar o gás de Moçambique explorado por um consórcio onde participa a empresa portuguesa.

Esse gás e o contrato com um fornecedor americano fazem “parte de um puzzle que passa por ter diferentes tipologias de contratos, com durações e volumes menores e clausulas de destino mais flexíveis e partilha de risco entre consumidor e produtor. Ter um contrato novo com a Nigéria é uma possibilidade, mas há muito projeto que está em pipeline a sair para o sistema. Não estamos constrangidos a um ou outro fornecedor”.