Fórmula 1

A história do príncipe Bira, o único tailandês da Fórmula 1 que também foi instrutor de aviação e atleta olímpico

Bira era príncipe da Tailândia, piloto de Fórmula 1, instrutor de aviação, atleta olímpico e estudante de escultura. Em 2019, Alexander Albon será apenas o segundo tailandês de sempre a correr na F1.

O príncipe Bira correu nas primeiras quatro edições do Campeonato do Mundo de Fórmula 1

Getty Images

A grelha da Fórmula 1 sofreu uma autêntica revolução. Os rumores e as confirmações de entradas, saídas e transferências começaram bem antes do fim da temporada — que voltou a consagrar Lewis Hamilton como campeão do mundo — e arrastaram-se até à última semana, quando Lance Stroll foi confirmado como o segundo piloto da Force India, ocupando assim o último lugar vago. Entre o regresso de Robert Kubica e a retirada de Fernando Alonso, a grelha do próximo ano terá mesmo a média de idades mais baixa da história: 26,4 anos. E um dos pilotos que mais contribui para essa marca recorde é Alexander Albon, estreante na prova rainha do automobilismo, que com 22 anos vai conduzir o segundo Toro Rosso ao lado de Daniil Kvyat. Filho de mãe tailandesa e pai inglês, nascido em Londres mas de nacionalidade tailandesa, será apenas o segundo tailandês da história a correr na Fórmula 1.

O primeiro e único até Alexander Albon acelerar pela primeira vez depois de os semáforos se apagarem chamava-se Birabongse Bhanudej Bhanubandh — ou Bira, como todos o conheciam. O tailandês integrou a grelha da Fórmula 1 de 1950 a 1954, mas essa até é quase uma nota de rodapé na vida quase inacreditável que levou. Nascido em 1914 no Sião, atual Tailândia, era filho do irmão mais novo do Rei Chulalongkorn: ou seja, era príncipe e pertencia à família real do país. O pai desempenhava vários cargos nas forças armadas nacionais e era uma das figuras mais importantes da governação do Sião. Já o avô, o rei Mongkut, tornou-se uma personagem da cultura pop ao servir de inspiração ao livro “Anna e o Rei do Sião”, de 1944, que mais tarde deu origem ao musical “The King and I”, de Richard Rodgers e Oscar Hammerstein II.

Foi Bira que escolheu o azul e amarelo que ainda hoje representa a Tailândia no automobilismo

Nascido no seio da família real tailandesa, Bira estava destinado a viajar para Inglaterra e estudar em Cambridge, mas desistiu antes de terminar o curso para realizar o sonho de ser escultor. Estudou as artes da escultura com Charles Wheeler, o responsável pela fachada do Banco de Inglaterra, mas rapidamente descobriu uma nova e bastante diferente paixão. Em 1935, o primo, o príncipe Chula, convidou-o para conduzir um Riley Imp em Brooklands. A equipa de Chula chamava-se White Mouse Racing e, naquela altura, os carros tinham as cores que representavam as nacionalidades: azul para França, prateado para a Alemanha, vermelho para Itália, etc. Mas Bira não gostava de cores simples. Segundo conta a lenda, terá ficado inspirado pelas cores do vestido de uma mulher escandinava com quem vivia um romance, Barbara Grut, e decidiu pintar o Riley Imp de azul e amarelo. De um momento para o outro, devido ao convite de um primo e ao vestido da namorada, descobriu a nova paixão que o levaria para a Fórmula 1 e estabeleceu as cores de corrida da Tailândia que se mantêm até aos dias de hoje.

Com grande parte das provas de automobilismo interrompidas devido à Segunda Guerra Mundial, Bira tirou a licença de piloto e tornou-se professor de pilotos da Royal Air Force do Reino Unido que estavam a formar-se para ir combater no conflito. A BBC conta que se tornou instrutor-chefe na estação aérea e naval de Saint Merryn e que se especializou nos planadores. Em 1950, cinco anos após o final da guerra, integrou o primeiro campeonato do mundo de Fórmula 1: não era um prodígio, mas foi um dos melhores da sua geração, a primeira da modalidade, e pontuou em duas das seis corridas que integraram o Mundial inaugural (na altura, só os cinco primeiros conquistavam pontos).

Com pilotos da British Royal Air Force, a quem deu formação durante os anos da Segunda Guerra Mundial

Sofreu um grave acidente de esqui no ano seguinte e esteve durante algum tempo afastado das pistas. Correu pela Gordini, Connaught e Maserati até fundar a própria equipa e acabar por se retirar em 1954. Daí para cá, de Bira até Alexander Albon, mais nenhum tailandês voltou a integrar a grelha do campeonato do mundo de Fórmula 1. Depois de andar pelos ares e conduzir em terra, faltava-lhe o mar. Dedicou-se à vela e fez parte de quatro comitivas olímpicas tailandesas: Melbourne 1956, Roma 1960, Tóquio 1964 e Munique 1972.

A dois dias do Natal de 1985, um homem com cerca de 70 anos foi encontrado morto na estação de metro de Barons Court, em Londres. Tinha sofrido um ataque cardíaco fulminante, tinha aparência asiática mas não tinha qualquer identificação consigo. A polícia da capital inglesa descobriu, contudo, uma carta escrita à mão no bolso do casaco — escrita numa língua desconhecida, não conseguiram decifrá-la e entregaram o caso a especialistas da Universidade de Londres. A carta estava escrita em tailandês e endereçada ao príncipe Bira. Com pouco mais de 70 anos e depois de uma vida cheia, Birabongse Bhanudej Bhanubandh tinha morrido sozinho numa estação de metro de Londres: a cidade onde, 11 anos depois, nasceu Alexander Albon.

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