Música

Os Mouse On Mars trazem a Lisboa o álbum que reuniu Bon Iver, The National e Spank Rock

Robôs, inteligência artificial e convidados de luxo. Os Mouse On Mars trazem "Dimensional People" à Culturgest, aventura sem igual na discografia do duo alemão. Jan St. Werner falou com o Observador.

Os Mouse on Mars cumpriram em 2018 25 anos de trabalho conjunto

Autor
  • André Almeida Santos
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Os Mouse On Mars já têm um quarto de século de história. A tecnologia esteve sempre associada à música do duo formado por Jan St. Werner e Andi Toma. Continuam a surpreender com a sua vontade em quebrar barreiras e encontrar linguagens que sejam subsistentes e autos suficientes na eletrónica. Ao longo dos últimos anos desenvolveram aplicações para telemóveis, no seu último álbum trabalham com robôs MIDI na percussão. Tal como Jan St. Werner conta ao Observador, mais abaixo, os Mouse On Mars gostam “de estar perto da tecnologia, observá-la, sabotá-la, manipulá-la, alterar, customizá-la. Pensamos que a tecnologia é uma extensão da mente humana e por isso é interessante para nós”.

Esta quarta à noite, dia 5, apresentam no Grande Auditório da Culturgest, em Lisboa, pelas 21h00 The Dimensional People, álbum colaborativo editado este ano pela Thrill Jockey. Em The Dimensional People há os robôs MIDI mas também há uma série de humanos que os Mouse On Mars deixaram infiltrar-se na sua música, como Justin Vernon (Bon Iver), Aaron e Bryce Dressner (The National), Zach Condon (Beirut), Spank Rock, Swamp Dogg, Sam Amidon ou Eric D. Clark. É um álbum imenso que estende a linguagem dos Mouse On Mars para territórios novos. Em palco estarão Jan St. Werner, Andi Toma, Dodo NKishi (que já é uma espécie de terceiro Mouse On Mars), Andrea Belfi, Hilary Jeffery e, claro, os robôs. Não vamos estar entregues às máquinas, mas ao melting pot criativo que é The Dimensional People.

A capa de “Dimensional People” dos Mouse on Mars

The Dimensional People é um projeto com uma natureza muito colaborativa. O que esteve na génese de tudo?
Não foi algo que tenhamos pensado muito, surgiu tudo naturalmente. Estávamos a trabalhar em Berlim, a juntar ideias para um novo álbum e um dia uma série de músicos entraram no nosso estúdio, o Justin Vernon [Bon Iver], Aaron Dressner [The National], Ryan Olson e André de Ridder, um compositor amigo nosso, com quem já trabalhámos em inúmeros projetos. O André trouxe-os ao estúdio porque eles queriam organizar um festival no Funkhaus, que era uma estação de rádio nos tempos da RDA e é onde temos o nosso estúdio. Mostrámos o nosso estúdio, nunca tínhamos ouvido falar deles. Eles queriam conhecer-nos, já tinham ouvido a nossa música, mas não sabiam que tipo de pessoas éramos. Depois disso nasceram as colaborações e decidimos inclui-las neste álbum. O que fazemos quando estamos a trabalhar num álbum é incluir tudo o que nos surge pela frente durante a experiência que é gravá-lo. E The Dimensional People foi uma experiência de conhecer diversas pessoas e de estar com aqueles músicos. Para nós foi uma experiência intensa. Os músicos produziram sons e nós utilizámos esses sons como à medida que os íamos conhecendo, não tivemos qualquer preconceito. Tratámos como se fossem sons sintéticos, como tínhamos feito no passado, e criámos a estrutura do álbum assim, a partir de todo o material que recolhemos.

Mas é um álbum muito estruturado e conceptual. Não conhecendo o trabalho prévio dos músicos e o que iriam criar tornou tudo mais difícil, não? Foi um desafio?
Nessa altura tínhamos acabado de editar um 10 polegadas, numa editora pequena, chamado Lichter [Infinite Greyscale, 2016]. Esse álbum foi praticamente feito por nós, com uma pequena colaboração do Dodo NKishi. Quando entrámos neste espírito de colaboração, assumimos o Lichter como uma plataforma para improvisar por cima, ouvir e trabalhá-la. E aos poucos essa peça foi sendo desconstruída. Fizemos a coisa de ponto A para o B, sempre que um músico entrava em estúdio, trabalhava um certo ponto dessa peça. Alguns músicos voltavam e tocariam em partes diferentes da peça. Mas foi uma espécie de viagem, as pessoas entravam na viagem, saiam num ponto da viagem e deixavam as suas ideias. Não foi assim tão complicado, foi muito simples. As coisas foram sucedendo-se. Mantivemos alguns princípios, como o mesmo tempo, para irmos trabalhando ritmos, mantivemos o mesmo tipo de harmonia, para conseguirmos trabalhar sempre com os elementos que já tínhamos gravado. Mas o álbum capta a história do ponto A ao ponto B. O álbum começa com percussão feita por robôs. Foi o primeiro álbum em que os robôs da Sonic Robots criados pelo Moritz Simon Geist participaram. Estes robôs percussão MIDI vão estar em palco no nosso concerto de Lisboa. The Dimensional People começa com esses robôs e as pessoas tocam em volta disso. O lado conceptual do álbum foi muito simples.

[os Mouse on Mars ao vivo em Hamburgo:]

Como começaram a trabalhar com os robôs?
Conhecemos o Moritz através do Peter Kern, que é um expert em inovação musical, que tem blogs sobre inovação musical, um deles é o Create Digital Music. Ele é um conselheiro para várias companhias de software de música, como a Ableton e a Native Instruments e já nos tinha ajudado a criar a nossa primeira app, WretchUp, o software que lançámos para IOS. Estávamos a trabalhar com o Tyondai Braxton e ele sugeriu que nós devíamos ter robôs MIDI. E perguntámos ao Peter se ele conhecia alguém e ele recomendou-nos o Moritz. Escrevemos ao Moritz, ele disse-nos que não está habituado a colaborar, a usar os seus robôs noutros projetos, mas ficou entusiasmado em trabalhar connosco. Foi muito simpático. Mas nós não queríamos que ele apenas trouxesse os robôs. Queríamos que ele participasse no projeto e incluímos o Moritz no nosso trabalho. Quando começámos a tocar ao vivo com o Tyondai Braxton, o Moritz juntou-se a nós no palco.

Porque lhe interessa fazer música com inteligência artificial?
Estamos interessados em trabalhar som, de qualquer maneira que é produzido. No final produzimos, editamos e trabalhamos tudo manualmente que editamos. Não estamos a fazer música autogerada, como uma instalação sonora que é gerada sozinha. Nós estamos sempre a ser influenciados e a mudar as coisas. E gostamos do diálogo com a tecnologia. Por vezes é o mais desafiante. As conversas que tem com humanos, são produtivos, podem ser frustrantes, mas com a tecnologia, ser é um robô, inteligência artificial, ou software, é interessante, porque a tecnologia apenas reflete as nossas mentes. Não é algo em que encontremos a natureza, a tecnologia é feita pelo homem. Por isso estás a conduzir um diálogo num território muito abstrato. A tecnologia é uma manifestação de algo muito interessante. Gostamos desse diálogo e queremos continuar com ele. Se deixas a tecnologia sozinha, cria uma confusão, é muito contraprodutivo. Nós gostamos de estar perto da tecnologia, observá-la, sabotá-la, manipulá-la, alterar, customizá-la. Pensamos que a tecnologia é uma extensão da mente humana e por isso é interessante para nós.

E foi essa a razão para terem desenvolvido as aplicações para smartphones?
Exato.

Jan St. Werner e Andi Toma

Também usam os robôs quando só tocam os dois em palco ou apenas quando tocam neste formato alargado?
Usámos há uns meses num concerto no Japão. Mas é raro, usamos mais como parte deste coletivo.

Tentam recriar o álbum ao vivo ou de expandir as ideias que estão no álbum?
O álbum é a base. Há canções, estruturas que serão reconhecíveis. Poderão ser óbvias para algumas pessoas e completamente abstratas para outras. Estamos sempre a mudar de concerto para concerto. Mas tentamos contar uma narrativa semelhante à que contamos no álbum. Neste projeto queremos contar uma história, mesmo que seja abstrata, mas gostamos que tenha um início e um fim. Ao vivo tocamos o álbum do início ao fim, mas está sempre a mudar, há improvisação. No final do concerto tocamos uma versão mais longa de Lichter, que foi o início deste projeto colaborativo. Gostamos desta ideia, de apresentar o álbum com este lado conceptual.

E tem tocado com este coletivo ou costumam trabalhar com outros músicos?
Temos um núcleo duro, o Dodo NKishi, que trabalha connosco há imenso tempo, o Andrea Belfi e Hilary Jeffery. Este é o núcleo duro, que também vai estar em Lisboa. Em algumas situações podemos acrescentar músicos, tivemos um espectáculo no Wisconsin, com mais de 20 músicos. Mas isso é muito complicado, porque é muito difícil de conciliar todos os músicos. Podemos apresentar um formato mais pequeno ou maior, é sempre diferente, mas o material de The Dimensional People funciona sempre.

Acha que irão expandir a ideia de The Dimensional People no futuro?
Vamos fazendo as coisas à medida que vão acontecendo. Não fazemos um plano para o que iremos fazer a seguir. Iremos certamente continuar a colaborar, porque é algo que gostamos, é fantástico, mas iremos trabalhar novo material. Não consigo mesmo dizer como será o futuro. Neste momento não temos planos para ir mais além com The Dimensional People.

Mais info sobre o concerto dos Mouse on Mars aqui.

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