De entre todos os jogadores que vestiram tanto a camisola do River Plate como a do Boca Juniors, existem seis que provocaram especial polémica – seja pela forma como se transferiram, pela importância que tinham na equipa que deixaram ou por declarações que proferiram após o negócio. Gabriel Batistuta, Claudio Cannigia, Hugo Gatti, Abel Balbo e Oscar Ruggeri lideram, de forma inequívoca, o top das mudanças entre xeneizes e millonarios que mais deram que falar. Este último, defesa central que acabou por ainda jogar uma época no Real Madrid (1989/90), viveu na pele a insatisfação dos adeptos com a troca que protagonizou ao mudar de clube rival de Buenos Aires.

Em 1985, o Boca Juniors atravessava uma grave crise económica. Hugo Santilli, presidente do River Plate, aproveitou a situação débil em que se encontrava o rival e o bom período financeiro e desportivo em que estavam os millonarios (o mandato terminaria, dois anos depois, com a conquista da Taça Libertadores, da Taça Intercontinental e da Taça Inter-americana) para roubar dois jogadores ao Boca: Ricardo Gareca e Oscar Ruggeri. A primeira dupla transferência entre os dois rivais da capital argentina provocou espanto e indignação do lado dos adeptos xeneizes, que rapidamente ameaçaram ambos os jogadores com insultos e promessas de agressões.

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As histórias de Gareca e Ruggeri no Monumental foram bastante distintas: o primeiro saiu para um clube colombiano após apenas 12 jogos com a camisola do River Plate; o segundo foi uma das figuras de um período brilhante do millonarios e conquistou quatro troféus em três anos e meio de branco e vermelho. Mas o passar dos anos não esmoreceu a desilusão dos adeptos xeneizes, que escolheram uma noite após um jogo do River para mostrar a Ruggeri que a troca não estava esquecida. Esta terça-feira, a poucos dias da derradeira segunda mão da final da Libertadores em Madrid, o antigo defesa central recordou a noite em que elementos da claque do Boca Juniors lhe incendiaram a casa com os pais lá dentro.

“Joguei no River e no Boca e dei-me muito bem nas duas equipas. Quando mudei do Boca para o River, incendiaram-me a casa com os meus pais lá dentro. Fui falar com o chefe dos barra brava, porque sabia que era ele que controlava tudo, e disse-lhe que aquilo tinha sido a última coisa que iria suportar”, contou Oscar Ruggeri em entrevista ao programa “El Transistor”, da Onda Cero. O argentino contou ainda que, enquanto jogador, a claque do Boca Juniors lhe pediu “muitas coisas” e acabou por aceitar “devido a ameaças contra a família”.

Oscar Ruggeri na equipa campeã mundial em 1986 com Valdano, Burruchaga e o capitão Maradona (STAFF/AFP/Getty Images)

Naquela noite, quando chegou a casa por volta das 3h da manhã, Ruggeri viu a casa totalmente em chamas e bombeiros e polícia à porta. O fogo só não teve consequências mais trágicas porque um vizinho da família estava a passear o cão quando os incendiários ainda estavam a fugir, alertou a vizinhança e juntos conseguiram prestar os primeiros auxílios e retirar o casal da vivenda antes da chegada dos bombeiros. Há cerca de um mês, na antevisão da primeira mão da final, o jornal Marca recordava o episódio e contava que El Abuelo – o pseudónimo de José Barrita, líder dos barra brava do Boca –, garantiu ao antigo jogador argentino que o ataque tinha sido da responsabilidade de “dissidentes” da claque e não se tratava de uma ação organizada.

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Sobre a final da Libertadores, que tem lugar este domingo no Santiago Bernabéu depois de adiada por duas vezes, Oscar Ruggeri tem poucas previsões a fazer. “O River talvez jogue melhor mas o Boca é mais eficaz; do nada, fazem-te um golo”, disse o antigo jogador, que chegou a treinar o Independiente, o Elche e o San Lorenzo e foi campeão do mundo com a seleção argentina em 1986 ao lado de Burruchaga, Valdano ou Maradona, que marcou na final o célebre golo da “Mão de Deus”.