Brasil

Investigadores franceses e brasileiros alertam para perigos da eleição de Bolsonaro

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Com o tema "Eleições brasileiras: uma catástrofe anunciada", a conferência organizada pela APEB juntou dezenas de pessoas para discutir o futuro político e social do Brasil.

Joedson Alves/EPA

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  • Agência Lusa
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Duas associações de investigadores brasileiros em França alertaram, esta quinta-feira, para os perigos que a eleição do futuro Presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, representa no âmbito dos Direitos Humanos e em relação à “nostalgia da ditadura”.

“Considero que a eleição de Bolsonaro veio depois de pequenas catástrofes às quais temos assistido desde a destituição de Dilma [Rousseff, ex-chefe de Estado], ou mesmo as manifestações de 2013”, afirmou Luciana Araújo de Paula, investigadora brasileira no Instituto de Altos Estudos da América Latina, da Universidade de Sorbonne.

Para Luciana Araújo de Paula, “a eleição de Bolsonaro, um deputado que até há quatro meses era desconhecido, nostálgico da ditadura e gozado pelas outras bancadas parlamentares, é só a catástrofe maior”.

Com o tema “Eleições brasileiras: uma catástrofe anunciada”, a conferência, organizada pela Associação para a Pesquisa sobre o Brasil na Europa e pela Associação dos Pesquisadores e Estudantes Brasileiros na França (APEB), juntou dezenas de pessoas esta quinta-feira no Instituto de Altos Estudos da América Latina, em Paris, França, para discutir o futuro político e social do Brasil.

Para Marion Aubrée, antropóloga francesa especializada em religião e que foca os seus estudos na América do Sul, a influência das forças políticas evangélicas foi essencial para a eleição de Jair Bolsonaro, mas também uma soma de medos que assolam a sociedade brasileira.

“Desde logo, o medo da mobilidade social, porque a classe média brasileira nunca aceitou a ascensão dos pobres no Brasil, incluindo a sua entrada na universidade. Mas, também, o medo do outro. Não nos esqueçamos que os negros continuam a ser estigmatizados. E, por último, o medo do futuro que acaba por se cristalizar à volta da dimensão económica”, observou a antropóloga.

Segundo Marina Duarte, vice-presidente da APEB e historiadora que foca a sua investigação nos movimentos LGBT (Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis, Transexuais ou Transgénero), o medo é cada vez mais real para as minorias sexuais no Brasil.

“O efeito desta eleição ainda não é conhecido em termos das instituições, mas há já ações reais dos apoiantes de Bolsonaro contra a comunidade LGBT. O impacto já está nas ruas e no aumento da violência contra as minorias sexuais”, salientou a investigadora, repetindo várias frases que o futuro chefe de Estado brasileiro proferiu publicamente contra os homossexuais.

Outro ponto que preocupa estes investigadores brasileiros e franceses é a recusa de um futuro Governo de Bolsonaro face ao multilateralismo e a rejeição dos tratados que promovem os direitos humanos.

“Para o próximo ministro dos Negócios Estrangeiros, Ernesto Araújo, o multilateralismo não tem valor e devia acabar. Araújo disse que as Nações Unidas são apenas uma plataforma de difusão para o marxismo cultural. Mesmo se agora estas posições estão mais moderadas, a inovação é que o Brasil pode sair de todos os órgãos das Nações Unidas ligados aos direitos humanos”, mencionou Bruno Gomes Guimarães, investigador da Universidade Federal do Rio Grande do Sul.

A conferência tentou também enquadrar o quadro político brasileiro antes das eleições, as escolhas de Bolsonaro para as diferentes pastas e ainda de onde pode surgir uma oposição ao novo Presidente.

“Há uma reconfiguração à esquerda, que se está a confrontar com esta nova realidade. Há a reaproximação do Partido dos Trabalhadores (PT) aos partidos mais à esquerda, criando, possivelmente, uma frente de esquerda contra o autoritarismo do novo Governo”, concluiu Luciana Araújo de Paula.

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