O responsável da associação turística de Moçambique considera que os ataques ocorridos nos últimos meses em Cabo Delgado (norte) podem “beliscar o bom nome do país” como destino e ameaçar o turismo. Para já, porém, não há registo de cancelamentos.

Segundo o presidente da Associação de Agentes de Viagens e Operadores Turísticos de Moçambique (AVITUM), Noor-Momade, o problema “é localizado” em zonas com pouca expressão turística, pelo que “não afetam diretamente a atividade”, mas podem prejudicar a reputação do país.

“Os ataques contra pessoas e bens em locais localizados na província de Cabo Delgado, sem estar propriamente a afetar o turismo, é uma ameaça contra esta atividade que certamente as autoridades moçambicanas estão a levar a sério, considerando todo um trabalho político [mobilização da população] e ações das forças de defesa e segurança que têm sido levadas a cabo”, destacou o presidente da Avitum, numa resposta escrita enviada à agência Lusa.

Noor-Momade acrescenta que as questões de segurança “têm merecido o devido tratamento e a devida atenção pelas autoridades competentes”, com quem o setor do turismo “mantém contacto permanente” e salienta que existem sempre “alternativas para oferecer uma vez que o país é vasto e com quase três mil quilómetros de costa”.

Entre as regiões de Moçambique mais visitadas estão Maputo, Ponta de Ouro, praias da província de Inhambane, Vilanculos e ilhas circundantes (sul), Parque Nacional de Gorongosa (centro) e Pemba e Ilha de Moçambique (norte).

Os turistas são, na sua maioria, provenientes da África do Sul “por uma questão geográfica”, mas também do Brasil, Portugal, Alemanha, Reino Unido, Espanha e Médio Oriente e Noor-Momade está otimista quanto à expansão do setor.

“Tivemos um revés muito grande, aquando do conflito político-militar, mas agora a tendência é melhorar”, frisou, apontado vários fatores que ajudaram a alavancar o turismo: a sua escolha como área prioritária de governação pelo atual executivo, que reintroduziu para esse efeito o visto de fronteira; a capacitação da polícia e agentes de alfândega para o atendimento aos turistas; e a decisão de o Governo abrir o espaço aéreo e autorizar a entrada de uma nova companhia aérea para voos domésticos, que fez baixar os preços das viagens.

“As perspetivas para o próximo ano são de cada vez mais trabalho e de uma melhor forma de ser e de estar de todos os atores relevantes para o funcionamento do setor do turismo”, desde os agentes económicos ao Governo, passando pela administração pública e pelo povo moçambicano que Noor-Momade descreve como “povo hospitaleiro”.

Segundo o relatório anual de impacto económico do Conselho Mundial de Viagens e Turismo (WTTC, na sigla inglesa), divulgado em março de 2018, o contributo direto deste setor para a economia foi de 3,4% em 2107 (455,9 milhões de dólares) e deverá aumentar 7,3% em 2018 para 803 milhões de dólares.

O setor foi responsável por 271.500 postos de trabalho em 2017 (2,8% do emprego total) e deve crescer 6,2% em 2018 para 288.000 empregos, incluindo trabalhadores de hotéis, agências de viagens, companhias aéreas e outros serviços de transporte de passageiros, bem como restauração e lazer.

Num conjunto de 185 países analisados pelo WTTC, Moçambique ocupava o 108.º lugar em termos de contributo relativo do setor turismo e viagens para o PIB, esperando-se que suba 15 posições em 2018 e 54 até 2028. Desde há um ano, segundo números oficiais, já terão morrido cerca de 100 pessoas, entre residentes, supostos agressores e elementos das forças de segurança.

Esta onda de violência em Cabo Delgado (2.000 quilómetros a norte de Maputo, no extremo norte de Moçambique, junto à Tanzânia) eclodiu após um ataque armado a postos de polícia de Mocímboa da Praia, em outubro de 2017. Na altura, dois agentes foram abatidos por um grupo com origem numa mesquita local que pregava a insurgência contra o Estado e cujos hábitos motivavam atritos com os residentes, pelo menos desde há dois anos.

Depois de Mocímboa da Praia, têm ocorrido vários ataques que se suspeita estarem relacionados com o mesmo tipo de grupo, sempre longe do asfalto e fora da zona de implantação da fábrica e outras infraestruturas das empresas petrolíferas que vão explorar gás natural, na península de Afungi, distrito de Palma, no norte do país.