O vidro fosco da garrafa foi difícil de conseguir — Lígia Santos, da Caminhos Cruzados, recorreu a vários contactos até descobrir uma fábrica na Marinha Grande capaz de satisfazer a sua ambição. O mesmo não se pode dizer do nome do vinho, #FilhasdaMãe, que andava na cabeça de Isabel Saldanha, fotógrafa e escritora, desde 2015. Três anos volvidos, as duas mulheres juntaram-se para criar um vinho que não é para toda as bocas: “Produzimos a pensar nas pessoas descomplicadas, densas, sarcásticas, aventureiras, resolvidas, praticantes do desapego e dos sonhos, crentes no amor e viciadas nos sentidos da vida”, escreve Saldanha na página que destinou ao rótulo inusitado.

Nos tempos que correm, com o movimento #Metoo ainda a pairar sobre as nossas cabeças, seria de esperar que o vinho fosse uma ode ao feminismo, mas não. Isabel Saldanha, que se diz “veterana na prova”, não tem problemas em associar o vinho à causa desde que tal associação “seja bem feita” e depressa garante que o interesse dos consumidores tem-se revelado diversificado. Não estando profissionalmente ligada ao sector, Isabel sempre quis fazer um vinho que fosse “arriscado sem ser arrogante, ousado sem ser empertigado, leve mas com corpo e memorável”, isto é, que não se perdesse logo da boca. Queria uma “versão líquida” de si própria, brinca.

Da uva que se faz vinho e da filha que se faz mãe”, diz Isabel Saldanha ao justificar o nome escolhido para o vinho, uma marca anos antes por ela registada e que no blogue em nome próprio usa repetidas vezes.

O vinho em causa é um blend de Touriga Nacional, Alfrocheiro e Tinta Roriz, colheita de 2017 — foi engarrafado há coisa de um mês. Quando nasceu, o projeto esteve para se ligar a outra região e a outro produtor, mas foi no Dão e com a Caminhos Cruzados que se concretizou. A parceria surgiu no final do verão e a primeira reunião, em outubro, durou apenas 30 minutos. O facto de “falarem a mesma língua” ajudou e Lígia aceitou o desafio na hora, sem recorrer a segundas opiniões.

Lígia Santos, CEO da Caminhos Cruzados, e Isabel Saldanha, mentora do projeto. @DR

Descrever um vinho como se descreve uma pessoa é exercício raro. Mas foi requisito para a construção deste em particular, que não seria possível sem o contributo profissional de uma terceira mulher — Carla Rodrigues, enóloga residente na Caminhos Cruzados. Foi ela quem selecionou nove amostras, a partir das quais Lígia e Isabel criaram seis lotes diferentes. No final, dois lotes foram a disputa à mesa do restaurante Zé Pataco, em Nelas. “O #FilhasdaMãe é muito dado a harmonizações”, diz a dupla, que garante que casou o vinho com carne e com bacalhau. “Associo-o a comida de forno, mas também vai muito bem a solo”, diz Isabel Saldanha. “É a elasticidade do Dão”, atira Lígia Santos.

E uma filha da mãe combina com o quê? Com o que se quiser. Uma boa filha da mãe não complica. Avia com chouriço, avia com bacalhau, avia com pudim, avia-se a sós, avia-se a nós e avia-se a vós”, lê-se na página de Isabel Saldanha.

Desde meio de novembro que o vinho está disponível online, embora haja alguns pontos de venda espalhados por Portugal — na Garage Wines, no Porto, e nas Estado D’Alma, em Lisboa; nos restaurantes Aromático 54, em Viseu, no Bar da Odete, na capital, na Tasca do Celso, em Vila Nova de Mil Fontes, e no novíssimo O Filho da Mãe, em Braga. Talvez por ser criação de uma parceria, o vinho é vendido aos pares (35 euros o pack).

O Filhas da Mãe vende-se aos pares por 35 euros

Além do vidro fosco e do nome de batismo chamativo, há outros detalhes interessantes no vinho: a garrafa é lacrada e o rótulo é da responsabilidade da Catita Illustrations — o nome parece pintado e surge na forma de uma hashtag. A edição é limitada e ao mercado vão chegar apenas 1.200 garrafas.