A ministra da Saúde, Marta Temido, apelou esta terça-feira às ordens profissionais para conterem algum “excesso verbal” na greve dos enfermeiros porque pode “transparecer uma sensação de insegurança” numa altura em que se impõe serenidade.

Marta Temido comentava desta forma aos jornalistas as declarações dos bastonários da Ordem dos Enfermeiros, Ana Rita Cavaco, e da Ordem dos Médicos, Miguel Guimarães, em que admitiam a possibilidade de doentes poderem morrer na sequência da greve cirúrgica dos enfermeiros que já adiou cerca de 5.000 cirurgias programadas.

“Às vezes, na forma como as pessoas se exprimem há um excesso verbal que pode transparecer uma sensação de insegurança que poderá não ser real e que muitas vezes se destina até a causar uma sensação de efeito que certamente não é aquele que as pessoas pretendem, porque ultrapassa aquilo que é o objetivo de uma greve”, disse Marta Temido à margem da sessão de encerramento das comemorações dos 20 anos da Ordem dos Médicos Dentistas (OMD).

O objetivo de uma greve “é a defesa de direitos dos trabalhadores relativamente aos quais poderemos não estar exatamente de acordo sobre a forma de os repor, de os alargar, mas há sobretudo uma serenidade que eu acho que se impõe”, sustentou a ministra.

Marta Temido disse ainda que quer acreditar que, neste momento, com esta “situação bastante preocupante” que o país tem “em mãos, todos os atores fazem aquilo que é a sua função e cumprem aquilo que são as suas responsabilidades”.

“Às ordens profissionais, às associações públicas profissionais, incubem antes de mais nada salvaguardar os direitos dos utentes e, portanto, tenho a certeza de que se estiverem em causa riscos deontológicos — e em termos deontológicos a primeira obrigação de um profissional de saúde é sempre o seu doente — as ordens profissionais garantirão que os doentes não são colocados em risco”, vincou.

A ministra da Saúde sublinhou ainda que “o Ministério da Saúde não está impávido e sereno” relativamente a esta greve. “Está sereno, mas não está impávido, está a trabalhar com quem no terreno resolve os problemas que são os hospitais e os seus conselhos de administração e tenho a certeza de que as ordens profissionais estão a fazer tudo o que lhes compete para fazer isso mesmo”, salientou.

A “greve cirúrgica” dos enfermeiros, que termina em 31 de dezembro, está a decorrer nos blocos operatórios do Centro Hospitalar Universitário de S. João (Porto), no Centro Hospitalar Universitário do Porto, no Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra, no Centro Hospitalar Universitário Lisboa Norte e no Centro Hospitalar de Setúbal.

Os enfermeiros têm apresentado queixas constantes sobre a falta de valorização da sua profissão e sobre as dificuldades das condições de trabalho no Serviço Nacional de Saúde, pretendendo uma carreira, progressões que não têm há 13 anos, bem como a consagração da categoria de enfermeiro especialista.

A paralisação foi convocada pela Associação Sindical Portuguesa de Enfermeiros (ASPE) e pelo Sindicato Democrático dos Enfermeiros de Portugal (Sindepor), embora inicialmente o protesto tenha partido de um movimento de enfermeiros que lançou um fundo aberto ao público que recolheu mais de 360 mil euros para compensar os colegas que aderissem à paralisação.