Foi disponibilizado esta quarta-feira no repositório digital da Brown University o número 14 da Pessoa Plural — A Journal of Fernando Pessoa Studies, a revista online de Estudos Pessoanos co-editada pela Brown, pela Universidad de los Andes e pela Warwick University. O número especial, o último deste ano, é dedicado ao teatro de Fernando Pessoa, que tem ganho maior destaque graças ao trabalho pioneiro de investigadores, portugueses e estrangeiros, e a novas edições críticas que surgiram recentemente no mercado.

O editor convidado deste novo número da Plural é nada mais nada menos do que o Centro de Estudos de Teatro (CET) da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa que, em junho passado, organizou um colóquio sobre o teatro pessoano. O CET foi também responsável pela edição digital de Fausto, que teve este ano a sua primeira edição crítica, organizada por Carlos Pittella e publicada pela Tinta-da-China. Esta surgiu um ano depois da edição crítica do teatro estático de Pessoa, de Filipa Freitas e Patrício Ferrari, a primeira a reunir todas as peças estáticas do poeta.

O número 14 da Pessoa Plural, dedicado ao teatro de Fernando Pessoa, é o último do ano 2018. O editor convidado é o Centro de Estudos de Teatro da Faculdade de Letras de Lisboa. O próximo da revista sai no verão de 2019

Assim não é de estranhar que o número 14 da revista de Estudos Pessoanos reúna “ensaios apresentados ao colóquio que  que analisam o diálogo entre a obra dramática de Pessoa e diferentes universos literários, como o simbolismo francês e o modernismo russo, convocando, também, outros autores que influenciaram a sua criação, nomeadamente Goethe, Marlowe e Shakespeare”, como é explicado na nota editorial. São exemplo disso os artigos “The poetic drama of Fernando Pessoa and W.B. Yeats and the Symbolist Theatre Tradition”, de Patrícia Silva, “Pessoa e o drama russo: leituras e influências na primeira fase do Teatro Estático”, de Nicolás Barbosa López”, e “Fernando Pessoa, leitor de Maurice Maeterlinck: do Teatro Estático ao drama em gente”, de Erika Brantschen Berclaz.

O Fausto pessoano é alvo de estudo no ensaio de John Pedro Schwartz, “cuja abordagem incide no estilo e na linguagem usada por Pessoa, para dar corpo a uma ideia que atravessa a peça: a ausência de forma”, explica a nota editorial. Foi também sobre esta peça inacabada de Pessoa que recaiu a análise de Rodrigo Xavier, Daniela Bos e Carlos Pittella, autores de “Outros Faustos: as influências da tradição sobre o Fausto pessoano”.

Duas páginas da edição da peça The Tempest, de William Shakespeare, de 1908 que pertenceu a Fernando Pessoa. É possível ver as várias anotações a lápis feitas pelo poeta

O artigo principal da nova Pessoa Plural é, contudo, o de Teresa Filipe. Intitulado “Pessoa, tradutor sucessivo de Shakespeare”, o ensaio apresenta materiais até agora inéditos, incluindo a transcrição completa da tradução de A Tormenta” de William Shakespeare, e “das suas diferentes campanhas de escrita”. Esta surge acompanhada por uma “apurada explicação” do projeto planeado por Fernando Pessoa a partir de 1906 e imagens do exemplar em inglês da peça de Shakespeare que se encontra na biblioteca particular do poeta português, hoje à guarda da Casa Fernando Pessoa.

Além do ensaio de Teresa Filipe, o número 14 da Pessoa Plural inclui outros dois artigos sobre a Biblioteca Particular de Fernando Pessoa: “Magick in Theory and Practice de Aleister Crowley: Uma (re)descoberta na biblioteca particular de Fernando Pessoa”, de Rita Catania Marrone, e “‘Cavalgada do Sonho’ de Côrtes-Rodrigues: um poema dactilografado ou recriado por Fernando Pessoa?”, de Fernanda Vizcaíno. José Barreto, por outro lado, escreveu sobre “A Mensagem de Fernando Pessoa e o prémio de poesia do SPN de 1934”.