Os números do Liverpool nesta temporada 2018/19 do campeonato inglês começam a tornar-se relevantes: depois da derrota do Manchester City aos pés do Chelsea na jornada anterior, a equipa de Jurgen Klopp é agora a única sem qualquer derrota na Premier League. Além disso, os reds sofreram apenas sete golos desde o início da época (e somente dois foram em Anfield Road) e só perderam pontos em casa no empate a zeros com os citizens. Ao bater o Manchester United de José Mourinho este domingo, o Liverpool acrescentou uma vitória ao registo, somou mais três pontos caseiros e recordou novamente que a Premier League — atribuída de forma prévia, embrionária e até redutora ao City – pode mudar de mãos no final da época.

À entrada para a receção ao Manchester United, o Liverpool sabia que precisava de ganhar para voltar a agarrar a liderança isolada: o Manchester City venceu o Everton de Marco Silva e colocou-se no primeiro lugar de forma provisória, com mais um jogo do que os reds. Em caso de vitória, Salah, Mané e companhia regressavam ao topo da tabela, com mais um ponto do que a equipa de Bernardo Silva. No regresso às competições internas depois da vitória a meio da semana frente ao Nápoles, que carimbou a passagem aos oitavos de final da Liga dos Campeões, Klopp trocava os lesionados Trent Alexander-Arnold e Matip por Clyne e Lovren e mudava o meio-campo quase na totalidade: James Milner, titular contra os italianos, saía da convocatória e Henderson deixava o onze. Entraram Fabinho e Keita, que alinharam ao lado de Wijnaldum, o único dos médios a manter a titularidade de um jogo para o outro.

Do lado do Manchester United, José Mourinho nove jogadores face à derrota a meio da semana no Mestalla, com o Valência – só mesmo Lukaku e o central Bailly se mantinham no onze. Os red devils apresentavam-se em Anfield Road com uma linha mais recuada de três elementos, com Darmian, Bailly e Lindelof, e dois médios laterais de pendor claramente defensivo e com a função de ligar setores, Diogo Dalot na direita e Ashley Young na esquerda. Matic e Herrera assumiam o eixo do meio-campo e lá na frente os habitualmente titulares Rashford e Lingard voltavam ao onze para acompanhar e assistir Lukaku. No banco ficava Paul Pogba, de quem se continua falar muito e nem sempre bem (os jornais ingleses referiam esta semana que o francês deve deixar Manchester já durante o mercado de janeiro).

A primeira parte trouxe aquilo que era expectável: um Manchester United fechado em si mesmo, remetido ao seu meio-campo defensivo e à espera de conseguir anular o bom entendimento entre o meio-campo e o ataque do Liverpool. Mané e Roberto Firmino jogavam este domingo ligeiramente mais recuados no terreno, com o objetivo de recuperar bolas e arrastar jogo de trás para a frente, com o Salah a servir como uma espécie de ‘9’ muito móvel que recua e avança conforme aquilo que o lance exige. Herrera e Matic realizaram um jogo muito abaixo dos níveis a que já nos habituaram e perderam várias bolas na saída a jogar, em zonas proibidas e para jogadores exímios a construir. Fabinho, o mais solto de todos os médios do Liverpool, soube aproveitar as fragilidades do meio-campo adversário e assumiu as responsabilidades de distribuição de jogo que deixavam Mané e Firmino soltos para procurar desmarcações. E foi exatamente assim que surgiu o golo do Liverpool.

Pouco depois dos 20 minutos de jogo, numa altura em que o Manchester United não tinha linhas de passe, posse de bola ou qualidade e discernimento para sair a jogar com perigo, Fabinho descobriu Mané em velocidade vertiginosa a entrar dentro da área de De Gea e colocou a bola certinha para o avançado. Lindelof olhou só para a bola e perdeu as costas, Ashley Young ficou à espera de uma intervenção do sueco ex-Benfica e Mané teve tempo para parar no peito e rematar de primeira para tirar o nulo do marcador. A exibição apática dos red devils — que tinham o meio-campo entregue ao Liverpool, Lingard, Rashford e Lukaku perdidos lá na frente e uma linha de quatro no centro do terreno a passar claramente ao lado do jogo –, deixava antever o início de uma partida algo simples e descomplicada para a equipa de Jurgen Klopp, que se mostrava notoriamente superior ao adversário.

Mas o futebol raramente é uma conta de somar onde dois mais dois são quatro. A equipa de José Mourinho estava a falhar posicionalmente, não tinha ligações entre os blocos, Matic e Herrera estavam a realizar exibições abaixo do aceitável e Robertson fazia o que queria de Diogo Dalot sempre que subia no corredor esquerdo. Mas menos de dez minutos depois do golo de Mané, Lingard combinou bem com Lukaku e o belga cruzou forte e rasteiro, com a força de um remate, para uma grande área onde não estava ninguém para encostar. Alisson, o guarda-redes que foi tremendamente elogiado durante a semana depois da notável exibição contra o Nápoles (Klopp chegou a dizer que se soubesse que o brasileiro era tão bom “teria oferecido mais dinheiro”), lançou-se para o chão, intercetou a bola mas não a agarrou. Lingard, oportuno como quase sempre, estava no sítio certo para aproveitar o erro do guarda-redes dos reds e empatar a partida. Os adeptos do Liverpool, ainda traumatizados com os erros de Loris Karius na final da Liga dos Campeões da temporada passada, viam agora um dos melhores elementos desta época a cometer um erro inesperado.

Ao intervalo, Mourinho decidiu tirar um Diogo Dalot em claro sub-rendimento — o jogador ex-FC Porto esteve sempre muito preocupado com as ações defensivas e nunca se embrenhou no ataque — e lançar Fellaini, o habitual jóquer do treinador. A ideia era ocupar os espaços excessivos que Fabinho estava a ter para construir e colocar finalmente em prática o plano de Mourinho: anular as desmarcações de Mané e Firmino, empurrar a construção inicial do Liverpool para os corredores e ganhar o meio-campo. O projeto resultou durante os primeiros minutos da segunda parte, onde um Ashley Young em clara evidência criou desequilíbrios na ala esquerda e poderia ter tirado da cartola um inesperado segundo golo, mas o Liverpool é melhor, é mais forte, tem mais futebol e mostra tudo isso nos pequenos pormenores.

A cerca de vinte minutos do final, numa altura em que os reds estavam, como em todos os 90 minutos, por cima da partida mas o jogo estava mais esticado e dava a impressão de que poderia cair para qualquer um dos lados, Jurgen Klopp lançou Shaqiri. Na primeira jogada em que o suíço esteve em campo, Robertson voltou a ter demasiado tempo para decidir — Herrera acrescentou mais um ponto negativo ao registo deste domingo e deixou o escocês com dois a três metros de espaço para resolver –, e encontrou Mané no extremo esquerdo da área de De Gea. Com muita sorte, dois ressaltos e uma barra à mistura, Shaqiri surgiu de trás, rematou forte e colocou o Liverpool em vantagem. O Manchester United apostou tudo na pressão individual mas não a colocou em prática. Até ao final, Mourinho ainda lançou Martial mas quem chegou ao 3-1 foi o Liverpool, novamente por intermédio de um Shaqiri oportuno que aproveitou uma bola que até era para Salah para voltar a bater De Gea.

O Liverpool venceu o Manchester United por 3-1, carimbou mais três pontos, mantém-se invicto e continua na liderança da Premier League por mais uma jornada. Os red devils, por sua vez, já sofreram nos 17 jogos desta temporada mais golos do que tinham sofrido durante toda a época passada (28 contra 29). A equipa de José Mourinho somou a quinta derrota interna e afundou-se na sexta posição do campeonato, a 11 pontos dos lugares europeus, a 19 pontos da primeira posição e com o Wolverhampton de Nuno Espírito Santo a apenas um ponto.