Em dezembro de 2014, o G1 escrevia que “em todas as praias do planeta, o surf virou surfe”. A brincadeira com a maneira como o nome da modalidade é escrito no Brasil, com mais um ‘e’ do que na esmagadora maioria dos países, tinha um motivo: Gabriel Medina tinha acabado de se tornar o primeiro brasileiro de sempre a sagrar-se campeão do mundo de surf. Na altura, a dois dias de completar 21 anos, o surfista de Maresias, a norte de São Paulo, beneficiou da escorregadela de Mick Fanning nos quartos de final da derradeira etapa e soube que era campeão antes ainda de entrar dentro de água para disputar a final em Pipeline, no Havai.

Passaram quase quatro anos. Esta segunda-feira – desta vez a cinco dias de fazer 25 anos –, Gabriel Medina voltou a levar o samba e a festa brasileira ao areal havaiano e conquistou o título mundial da World Surf League (WSL) pela segunda vez. Medina, expoente máximo daquilo a que os fãs de surf chamam Brazilian Storm, é o nome maior de um grupo de surfistas brasileiros que tomou de assalto os lugares cimeiros da modalidade e colocou um ponto final à hegemonia australiana, norte-americana e havaiana. Atualmente, o Brasil tem o maior contingente de atletas no top 34 do surf internacional: onze. A Austrália, com o segundo maior grupo (sete surfistas), não celebra um título mundial desde 2015, ano em que Mick Fanning carimbou carimbou o terceiro campeonato mundial da carreira. O surf, desporto desprezado e marginalizado no Brasil durante as décadas de 70 e 80, é agora uma das modalidades em maior expansão no país sul-americano.

Gabriel nasceu em 1993 em Maresias, zona balnear e com várias praias por perto. Quando tinha oito anos, a mãe Simone e o pai Claudio decidiram separar-se. Meses depois, Simone começou um relacionamento com outro homem, Charles, e perguntou ao filho mais velho se se sentia incomodado com o facto de a mãe ter um namorado novo. Gabriel garantiu que só queria a felicidade da mãe e que em nada se opunha à relação – e mal sabia que a chegada de Charles significaria também a sua própria felicidade. O padrasto tinha sido triatleta e surfista amador e ofereceu uma prancha de surf ao enteado numa das primeiras vezes em que esteve com os filhos da namorada. Ora, no Brasil, muito à semelhança do que acontece em Portugal, a prenda óbvia para um rapaz é uma bola de futebol. Terá sido com estranheza, portanto, que Gabriel recebeu o elemento fulcral de um desporto que nem sequer sabia praticar. Mas em Charles, para lá de um padrasto, tinha agora um treinador.

O surfista com Simone, a mãe, e Charles, o padrasto e treinador

“Era eu e ele, numa cidade pequena, numa praia pequena. Fomos recolhendo informações, fomos estudando o surf, fomos tentando ver o que era melhor para o Gabriel. O Gabriel era muito talentoso. Não teve grande influência de outras pessoas. A gente não ouviu muito os outros. E acabou por dar certo”, recordou Charles ao G1. Aos 11 anos, Medina venceu o primeiro campeonato a nível nacional, o Rip Curl Grom Search, na categoria Sub-12, e a partir daí conquistou títulos internos e competiu internacionalmente, incluindo em torneios na Califórnia e no Equador. Em julho de 2009, assinou contrato com a Rip Curl e alcançou a profissionalização. Apenas dez dias depois da aposta da marca, com apenas 15 anos, tornou-se o mais novo de sempre a vencer uma etapa profissional – batendo o recorde de Nick Wood que durava desde 1987, ano em que o australiano conquistou uma etapa com apenas 16 anos. Acabou por dar certo, como disse Charles, parece agora ser um eufemismo.

Ganhou o World Junior Tour em 2013, um ano antes de se tornar o mais novo campeão do mundo de surf desde que Kelly Slater também venceu o World Championship Tour (WCT) com 20 anos, em 1992. Ficou em terceiro em 2015 – ano em que foi outro brasileiro, Adriano de Souza, a levar o troféu para casa –, em terceiro em 2016 e em segundo em 2017, depois de uma prestação pouco conseguida no Havai que deu o campeonato de bandeja ao havaiano John John Florence. Com fama de versátil e com o estilo mais completo de todos os surfistas high profile da atualidade, é especialista nas manobras aéreas e é dele o primeiro backflip realizado em competição. A performance monstruosa, que lhe valeu um 10 no heat do Oi Rio Pro, consagrou-o como um artista da prancha que faz muito mais do que manter-se em pé ao longo das maiores ondas do mundo.

Evangélico, é profundamente religioso e ajoelha-se perante o mar, com a prancha pousada nas pernas, antes de entrar dentro de água. Odeia cerveja e prefere vodka, mas não bebe nem tem relações sexuais durante os dias de competição. “Sexo em dia de competição atrapalha. No ano passado encarei uma abstinência desde julho, quando estava na Califórnia, até outubro, na penúltima etapa do Mundial, em Portugal. Foi horrível. Mau humor todo o dia. Mas eu tinha de me concentrar no trabalho”, explicou numa entrevista recente ao site brasileiro area. É amigo de várias personalidades brasileiras – como Gisele Bündchen, Pelé, Anitta e Kaká, que se juntaram nos últimos dias ao movimento #VaiMedina, em apoio ao surfista – mas tem uma relação especial com Neymar.

É habitual ver Gabriel Medina de joelhos e cabeça baixa, com a prancha nas pernas, a rezar antes de entrar dentro de água

Em outubro, o jogador do PSG aproveitou uma folga do clube francês depois de um compromisso com a seleção brasileira para uma espécie de pit stop em Peniche, onde Gabriel Medina competia no Meo Rip Curl Pro Portugal, a etapa portuguesa do WCT. Os dois atletas brasileiros são amigos de longa data e até passam férias juntos na Bahia: no último verão, Neymar partilhou nas redes sociais um vídeo do filho de seis anos, Davi Lucca, a ter aulas de surf com Medina e escreveu “aula com o tio”. O Globoesporte conta que, antes do Campeonato do Mundo da Rússia, os dois amigos terão apostado que ambos se tornariam campeões do mundo em 2018. Neymar não teve grande sorte com a seleção brasileira; Medina levou a melhor e venceu o desafio lançado pelo jogador ex-Barcelona.

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Good to see my bro! @neymarjr ????????????❤️ ll

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E se Gabriel foi influenciado pelo padrasto para seguir uma carreira profissional no surf, agora é a vez de Gabriel influenciar a irmã mais nova. Sophia, que já é filha da mãe do surfista com Charles, tem 13 anos e apurou-se este ano para duas competições internacionais: o Mundial Sub-16 e a final mundial do Rip Curl Grom Search 2019, ambas no currículo do irmão. “Estou muito feliz por ver a minha pequena também classificada. É um orgulho, ainda mais que é a segunda vaga internacional que ela conquista esse ano, nos mesmos eventos que eu também fiz história”, revelou o brasileiro à Record. O apelido Medina prepara-se para ficar na história do surf brasileiro e internacional, masculino e feminino.

Com a vitória conquistada esta segunda-feira na meia-final do Pipeline Masters frente a Jordy Smith (o que bastava para ser campeão, qualquer que fosse o resultado do grande adversário ainda em prova, Julian Wilson), Gabriel Medina voltou a escrever na história o próprio nome com tinta permanente. O menino que começou por preferir uma bola a uma prancha até se render às ondas e às acrobacias dentro de água tornou-se o primeiro brasileiro de sempre a sagrar-se por duas vezes campeão do mundo de surf. A cinco dias de completar 25 anos, Medina voltou a recordar o mundo de que surf, afinal, tem mais um ‘e’.