No mesmo dia em que a CP exonerou um diretor de material circulante que criticou o adiamento das revisões regulares de vários comboios, alegando que isso poderia colocar em risco a segurança dos passageiros, a empresa distribuiu pelos funcionários um código de ética que exige que ninguém ponha “em risco a imagem da empresa”. Apesar do momento escolhido para divulgar esse “código de ética”, noticiado pelo Jornal de Notícias, a CP recusa a ideia de que a saída de José Pontes Correia esteja relacionada com as suas críticas ao adiamento das revisões periódicas dos comboios.

Os colaboradores da CP devem “agir nas relações interpessoais e com a empresa de modo a não pôr em risco a reputação e a imagem da mesma“, pode ler-se no código de ética a que o JN teve acesso. A publicação falou com representantes da comissão de trabalhadores que explicaram que o adiamento das revisões implicava, inicialmente, que em vez de as composições terem de ir à revisão após cumprirem 1,7 milhões de quilómetros, esse limite passaria para os 1,8 milhões de quilómetros. Mas, depois, o limite passou para os dois milhões de quilómetros, o que foi lido como uma forma de evitar que essas revisões — que irão provocar supressões no serviço — ocorressem na altura das eleições legislativas do próximo ano.

O Público escreveu, na segunda-feira, que estas automotoras são utilizadas para fazer as ligações entre Lisboa e Tomar, os serviços regionais em vários pontos do país, a ligação entre a Figueira da Foz e Coimbra e, ainda, para substituir alguns Intercidades com destino a Évora. São, portanto, um núcleo importante da frota da CP. As regras atuais indicam que os rodados das automotoras têm de ser avaliados ao fim de 1,7 milhões de quilómetros, eventualmente sendo substituídos para que a composição possa regressar ao serviço.

Em cima da mesa está um alargamento desse limite para dois milhões de quilómetros, o que José Pontes Correia criticou: “fui exonerado por discordar”, disse o ex-diretor de material circulante à TSF, acrescentando que enquanto esteve “de baixa, nomearam um diretor interino para aprovar aquilo que eu rejeitei”. O responsável foi exonerado no início do mês.

CP. Diretor opôs-se a medida que afetava segurança dos passageiros e foi demitido

Depois da publicação da notícia do Público, a CP divulgou um comunicado de imprensa no qual afirma que “as operações de manutenção e reparação do material circulante da CP obedecem a pareceres técnicos e decisões que, em contacto permanente com os fabricantes, asseguram os padrões de segurança ferroviária”.

“Em concreto, no que concerne ao ciclo de manutenção das unidades UTE 2240, os pareceres técnicos da Direção de Material Circulante da CP e da EMEF foram naturalmente concordantes e suportaram a decisão do Conselho de Administração da CP, tendo concluído que esta alteração não coloca em causa a segurança da operação ou dos passageiros”, explica a empresa. “Importa salientar que a exoneração do diretor de material circulante da CP não tem qualquer ligação com tal decisão, mas, tão somente, com a não verificação de condições objetivas para o exercício da função”, termina o comunicado.