Seis modelos passeavam pela sala e deixavam-se registar pelas lentes dos fotógrafos presentes. Era assim que, na primavera de 2017, a dupla Storytailors apresentava uma coleção diferente do habitual — “Monte das Pretas” queria desconstruir o mito de que tanto os designers como a suas criações são inacessíveis ao comum dos mortais. À data, João Branco explicava ao Observador que queria aproximar a moda de quem a veste. O designer, metade da marca que lançou em 2003, morreu esta segunda-feira. Tinha 40 anos.

A nota de pesar publicada na página de Facebook da Storytailors contempla um poema de Fernando Pessoa. Nada é por acaso: numa entrevista ao Público, datada de 2013, João Branco confessava ser apaixonado pelo escritor português. “A complexidade da sua personalidade é fascinante”, dizia então. Como se isso não bastasse, João Branco celebrava o seu aniversário a 13 de junho, data de nascimento do poeta.

Inundados por um mar de dor e tristeza, informamos que faleceu a noite passada o NOSSO QUERIDO JOÃO BRANCO

Posted by Storytailors on Tuesday, December 18, 2018

“O João não poderia ter sido outra coisa senão aquilo que foi”, diz Eduarda Abbondanza, a mulher que construiu a ModaLisboa e que foi professora de João Branco e de Luís Sanchez nos tempos de faculdade — a dupla frequentou a licenciatura de Design de Moda na Faculdade de Arquitetura da Universidade Técnica de Lisboa em meados da década de 1990. João e Luís, colegas e namorados desde sempre, estavam juntos na vida profissional e pessoal. Eram a marca Storytailors.

Foi durante o curso que arrancou em 1996 que os designers perceberam que os universos estéticos coincidiam e que o seu trabalho se completava, tal como se lê na página oficial da marca. A Storytailors nasceu em 2001 dessa junção de forças, mas já a ambição era evidente em contexto de sala de aula. “Era um aluno virtuoso e até obcecado, que se destacava. Já na faculdade o João tinha individualizado esse território de trabalho”, continua Abbondanza, que explica que desde muito cedo João Branco sentiu necessidade de contar histórias com cada coleção lançada. “Uma peça que esteve sempre muito presente, desde a escola até agora, foi o corpete. Esse trabalho começou logo na escola, ele era um designer experimental, que fazia muita investigação.”

A imagem de um jovem apaixonado e trabalhador é confirmada por Joana Jorge, colega de faculdade de João Branco que hoje trabalha na organização da ModaLisboa. “Já nesses tempos não havia dúvida de que ele conseguiria chegar onde chegou. Era uma pessoa completamente dedicada, muito rigorosa e empenhada”, explica a mesma ao Observador. Joana recorda ainda que sempre houve uma grande vontade de “discutir ideias e noções de moda” e que isso, afirma, demonstrava também “uma grande humildade”.

“Eles começaram no Sangue Novo, como toda a gente começou”, recorda Abbondanza também ao Observador. A ModaLisboa foi a rampa de lançamento: o primeiro desfile da dupla foi em abril de 2001, no âmbito do concurso Sangue Novo. O regresso à semana da moda em Lisboa aconteceria três anos depois, já enquanto marca Storytailors. Seguiu-se o espaço próprio, com loja e atelier, no número 8 da Calçada do Ferragial, em Lisboa, em 2006. Nesse edifício pré-pombalino de três andares estão reunidos os trabalhos da dupla. “O João e o Luiz tinham uma relação muito chegada comigo por eu ter sido professora deles. Estavam numa loja que tinha sido da avó de um amigo meu. Havia muitas coisas que nos ligavam. Eu ia visitá-los à loja. Eles eram os meus meninos.”

A paixão pela história, por histórias, por metáforas e o seu fascínio pela construção do vestuário, a alfaiataria e a moda juntam duas palavras inglesas numa só e é assim que story e tailors se tornam Storytailors. (…) O seu trabalho mistura história, contemporaneidade e futuro em design intemporal. Cada peça Storytailors sobrevive à estação em que foi criada e pode ser reproduzida em qualquer altura”, lê-se na página oficial.

Os meninos cresceram. Com o tempo, e com o apoio do Portugal Fashion, levaram a marca cinco vezes à Semana da Moda de Paris. “O João era uma pessoa absolutamente extraordinária, com uma grande capacidade de transformar ideias e conceitos em formas”, diz ao Observador Valentina Garcia, a terceira sócia da Storytailors, responsável pela gestão de desenvolvimento e negócio da marca. É amiga de João e de Luís há pelo menos dez anos. Começou por ser cliente — depois de se ter apaixonado por um vestido de noiva da marca — e acabou por se tornar sócia. “Eles transformam silhuetas em coisas que contam histórias. Além da fantasia e do espetáculo, também contam histórias de pessoas”, continua Valentina que, ainda na passada sexta-feira, recebeu um “abraço quentinho” de João Branco. “Nós éramos os beijoqueiros da equipa”, lamenta.

A terceira sócia da marca garante ainda que a Storytailors é “revolucionária” e que trabalha a liberdade de uma forma muito própria, mas diz que o maior “certificado de qualidade” está associado ao convite feito por Valerie Steele, curadora e diretora do Fashion Institute of Technology — uma das peças criada pela dupla está neste momento em exposição no museu e aí ficará até aos primeiros dias de janeiro.

“Era o João que definia sempre a história de cada desfile”, relembra Luís Pereira, responsável pela empresa de comunicação e relações públicas Showpress e colaborador de longa data da ModaLisboa. Ao Observador fala do cariz rigoroso que sempre pautou o método de trabalho do estilista e da criatividade que levava a cada desfile: “Nós brincávamos de cada vez que ele nos vinha apresentar uma ideia para um desfile: ‘Que história é que ele nos vai contar hoje?’.” Em relação ao trabalho da dupla, Luís Pereira afirma ainda que Branco e Sanchez conseguiram sempre distinguir-se de todos os outros estilistas nacionais, mantendo “a sua imagem tão característica”, em que “tudo era pensado ao pormenor”.

As peças da Storytailors ganharam outro espaço que não o das passerelles — a presença em editoriais de diferentes publicações nacionais e internacionais era assídua, além de terem desenvolvido trabalhos feitos à medida para os artistas Amália Hoje, Mísia e Yolanda Soares. Os The Gift também constam nessa lista: “A nossa relação começou bem antes de nascerem os Storytailors, conheciamo-nos há bem mais de 15 anos”, conta ao Observador Sónia Tavares, a vocalista do grupo de Alcobaça. O primeiro contacto surgiu depois de um concerto — “Já nem me lembro bem onde”. João terá abordado a cantora dizendo que gostava de trabalhar com ela e Sónia acedeu. “Tivemos uma reunião no pequeno estúdio que ele tinha em Benfica, na altura”, explica. A relação de trabalho começou a formar-se aí mas ganhou contornos mais sérios quando em 2006 foi lançado o single “Fácil de Entender”. Desde então, “nunca mais” deixaram de trabalhar juntos.

“Sempre nos demos tão bem que acabamos por ficar amigos, era a ele que sempre recorria quando tinha alguma dúvida ligada à moda”, relata Sónia. O estilista que perdeu a vida esta segunda-feira pedia a voz da vocalista “muitas vezes para narrar histórias durante os desfiles”. “Ele era um sonhador, acima de tudo, e punha esses sonhos nas roupas que fazia”, acrescenta. Sónia é da opinião que João Branco “nunca foi bem entendido no mundo da moda mais elitista”. “A moda portuguesa perdeu, sem dúvida, um dos seus melhores estilistas.”    

The astonishing Sónia Tavares from The Gift in a fantastic Storytailors 111 Silver Spiral Zipper Gown for the amazing…

Posted by Storytailors on Monday, May 21, 2018

A apresentadora Sílvia Aberto também chegou a vestir criações da Storytailors. Keira Knightley, Natalie Portman, Kate Blanchet, Isabel Adjani e Tim Burton são algumas das personalidades que João Branco gostaria de ter vestido em vida. Na lista, confessada ao Público em 2013, também constava o nome de Madonna, artista que chegou a ter no armário peças com a assinatura da dupla criativa. “Adorava vestir um presidente qualquer, um rei ou uma rainha porque acho que eles são tão boring e têm tão pouca liberdade”, disse.

Também o figurinismo entrou no currículo da marca, com projetos realizados para o Teatro Nacional D. Maria II — incluindo os figurinos para a recriação teatral do filme Amadeus, em 2011, protagonizado pelos atores Diogo Infante e Ivo Canelas — e a Fundação Calouste Gulbenkian, ambos em Lisboa, e o Teatro Nacional S. João, no Porto.

Na mesma entrevista de 2013, ao responder à pergunta “é possível ser feliz para sempre?”, João Branco disse:

“Não somos sempre felizes. Ponto. Acho que a felicidade é um conceito semelhante ao da fé – e não estou a falar de fé religiosa –, é aquilo que nos motiva a viver cada dia porque é a capacidade de acreditar que podemos ser felizes e de que o vamos ser. A fé é um ato de coragem. Nas alturas de maior contrariedade, nós temos de ser capazes de nos afastar um bocado, de olhar para as situações de fora e acreditar que somos capazes de ser felizes e de construir a felicidade. Se não conseguirmos fazer isso, caímos numa profunda depressão e isso provoca doenças físicas e mentais. E a ausência dessa capacidade só chama a destruição.”

João Branco morreu esta segunda-feira aos 40 anos. Nas redes sociais, a comunidade da moda portuguesa lamenta a partida do designer. A Vogue, a título de exemplo, escreve que a “moda portuguesa está de luto”. Também o Museu Nacional do Traje presta uma “sentida homenagem” ao criador.

(artigo atualizado às 18h52)