Uma máquina fotográfica, dois amantes de animais e cães que estão à procura de um lar. A combinação deu origem à Home for Paws, um projeto criado por Inês Amaral e Zaphrier Dan (“Zaphi”) que quer mostrar que os cães de canil são mais do que aquilo que as fotografias com ar triste e dentro de jaulas mostram. Como? Utilizando a magia da lente (e o que está por detrás dela) para captar imagens mais positivas, divertidas e que refletem a personalidade de cada animal. Objetivo: arranjar uma família à medida de cada um.

Inês Amaral, de 27 anos, já “andava à volta da ideia há algum tempo”, tendo até tentado convencer a startup onde trabalha a acolhê-la. “Infelizmente, na altura, não foi uma prioridade. Quando o meu cão morreu há três meses, senti que deveria fazer alguma coisa relacionada com animais, visto que ainda não me sentia preparada para levar outro cão para casa”, conta a fundadora ao Observador. Depois de falar com Zaphi, que estuda design, tem um negócio na área Numismática e é fotógrafo freelancer, os dois acertaram horários e lançaram o projeto no final de outubro, tendo já conseguido fotografar cerca de 50 cães e arranjar família para cinco deles. O objetivo é fazer com que as pessoas sintam vontade de ir aos abrigos e levar os animais.

O processo é simples: os canis ou associações entram em contacto com os dois responsáveis [através do Facebook, Instagram ou do email info.homeforpaws@gmail.com] e a partir daí será marcado um dia para se fotografar os animais. Depois, as imagens captadas são colocadas na página do projeto e também de cada associação, acompanhadas de uma pequena descrição sobre cada cão. “Estamos sempre em contacto com as associações e, caso um dos cães que fotografamos seja adotado, nós somos imediatamente informados”, explica Inês. Tudo isto, acrescenta, é sem fins lucrativos.

Em vez das fotografias tristes a que estamos habituados a ver dos cães de canil em que estão atrás de grades, com ar triste e doente, quisemos tirar fotografias um pouco mais divertidas, mais positivas e que sejam capazes de mostrar que estes cães que neste momento estão numa situação destas [sem uma família], podem ser tão bons companheiros como os cães que as pessoas vão buscar aos tratadores, aos criadores, etc”, explicou Inês Amaral, fundadora da Home for Paws.

Para já, a Home for Paws ainda só trabalha com a Associação Bianca, em Sesimbra, mas a ideia é chegar a mais cidades e mais instituições. E já começaram a receber convites. “Gostávamos, até ao final do ano, de conseguir adotar mais alguns cães”, refere Inês. Além de promover a adoção, explica, o projeto também tem em mente outro princípio: “O objetivo acaba por ser mais do que até adotar os cães que fotografamos. É fazer com que as pessoas sintam vontade de ir ao canil conhecer os animais e, quem sabe, apaixonarem-se por um que talvez nem fosse o que tinham em mente”.

Um estúdio improvisado e “uma boa meia hora” para fotografar cada cão

Quando chegam à associação, Zaphi e Inês criam sets improvisados ao ar livre e, por isso, estão sempre dependentes das condições meteorológicas. Mas há um desafio maior: o de conseguirem controlar os cães para os fotografar. E às vezes são precisas técnicas para captar a sua atenção, como os biscoitos por detrás da câmara. Zaphi está habituado a fotografar modelos, tendo já feito trabalhos para vários projetos. Mas fotografar cães era um novidade. E um desafio.

Foi um desafio gigante porque temos cães que são muito tímidos e medrosos — porque se calhar também já passaram um mau bocado — e que viram as costas para a máquina. Depois temos outros que ficam malucos com os biscoitos e acabam a fazer aquelas fotografias com a língua de fora, saltam e correm de um lado para o outro”, explica Inês.

Depois dos tímidos e dos irrequietos, há também os que “parece que foram feitos para aquilo e em cinco minutos estão despachados”. Mas, regra geral, “é uma boa meia hora com cada um para se conseguirem resultados positivos“.

Inês sempre teve uma ligação especial com animais. Quando era mais nova sonhava ser veterinária, mas acabou por não seguir a área “exatamente porque gostava demasiado de animais”. Agora, também ela pondera voltar a adotar um animal de quatro patas. Chama-se Charlot, foi fotografado “e talvez daqui a um mês já vá para casa”, revela. “Falta só convencer a família”. Já Zaphi também teve um animal de estimação e já tinha nos planos fazer um projeto com animais.

12 fotos

Um dia depois de terem lançado o projeto nas redes sociais, a Home for Paws conseguiu chegar aos 3.000 seguidores no Instagram. E as mensagens foram muitas: “O feedback foi muito positivo, recebemos todos os dias mensagens, mesmo que não sejam de pessoas interessadas nos cães, a perguntarem como podem ajudar, como é que podem enviar donativos e a mandarem mensagens de força”, referiu ao Observador.

O objetivo é agora escalar o projeto a mais cidades, chegar a mais fotógrafos que estejam disponíveis e conseguir conquistar as pessoas a uma ida ao canil. E Inês resume: “Ao estarmos a retratar os cães de uma forma mais positiva, pode haver este choque positivo por não estarmos habituados a ver os cães a serem fotografados desta maneira. Queremos, ao mesmo tempo, que os vejam como uma coisa boa e não como uma coisa triste, em que perguntam se ‘alguém quer ajudar porque eu não consigo, mas pode ser que alguém consiga’. E assim, acho que dá um bocadinho de mais vontade”.

[artigo editado por Helena Cristina Coelho]