PSD

Rio não “estica argumentos”: o que o Governo faz não é mentir, é enganar os portugueses

Para Rio, o Governo engana e só pensa no presente. Diz que só o PSD pode ser a alternativa, mas não promete vitória "estrondosa". Para já, anuncia que vai a jogo com alteração à lei de bases da Saúde

MÁRIO CRUZ/LUSA

“Para a mentira ser segura e atingir profundidade, tem de trazer à mistura qualquer coisa de verdade.” António Aleixo

Rui Rio não “estica argumentos nem um centímetro”, não “opina”, e só se resume aos “factos” e aos “dados” para estruturar uma crítica ao Governo. Mas com pinças. A escolha de palavras é cautelosa: o Governo não “mente” aos portugueses, o Governo “engana” os portugueses. Foi com esta tese que o presidente do PSD discursou esta quarta-feira à noite perante os deputados do PSD, no jantar de Natal do partido, onde aproveitou também para anunciar que o PSD vai a jogo com uma alteração à lei de bases da Saúde (ou seja, não vai assinar de cruz a proposta da ministra da Saúde).

Citando o poeta António Aleixo, Rui Rio procurou desmontar a estratégia do governo socialista — sem nunca pessoalizar a crítica em António Costa. O governo pega num fundo de verdade e engana os portugueses. É um “pormenor linguístico”, disse. Ou, dito de outra forma, são duas palavras que são “parentes próximos, talvez irmãos, mas não irmãos gémeos”. E como o deputado André Silva, do PAN, não estava na sala, simplificou: “Vende gato por lebre, no fundo”.

Prova disso é o “surto brutal de greves”, que espelha um país onde se “vendeu uma realidade virtual” e não se foi capaz de corresponder à expectativa gerada. O “povo” costuma dizer que “quem semeia ventos, colhe tempestades”, Rui Rio prefere mudar algumas palavras: “Quem semeia ilusões colhe greves”. Para o líder do PSD, as greves que se multiplicaram no último mês mostram como o Governo está a ter um “falhanço precoce” numa altura em que “não era suposto haver falhanço nenhum”. E isto são só “factos”, garante.

Num discurso de cerca de 40 minutos, várias foram as vezes em que Rio garantiu que, ao contrário de outros que “andam aos gritos a esticar argumentos”, ele não estica “nem um centímetro” e não diz “opiniões”: cinge-se aos factos. E os factos, no seu entender, são:

— O Serviço Nacional de Saúde “piorou substancialmente” face ao que era em 2015 (Rio prefere esta formulação a dizer que o Governo “deu cabo do SNS”);

— Portugal é hoje o quarto pior país da UE em termos de riqueza per capita (só ultrapassado pela Grécia, Eslováquia e Letónia);

— O Governo baixou o rácio da dívida pública sobre o produto mas, “ao contrário do que dizem”, a dívida pública subiu e, no final de 2019, vai ser 20 mil milhões de euros superior ao que era em 2015;

— Não foram feitas reformas estruturais, nem foi criada uma estratégia de crescimento sustentado para o futuro, limitando-se o Governo a distribuir em função do “caderno de encargos do BE e do PCP”;

— E em termos de carga fiscal, Portugal atingiu a “maior de sempre”.

“Desfizeram os cortes da troika, é verdade, mas não é verdade que acabaram com a austeridade”, disse ainda Rui Rio, defendendo que agora a austeridade aparece sob a forma da degradação dos serviços públicos. “E não, não estou a esticar nem um bocado o argumento. Isto é rigorosamente verdade, é uma coisa factual”, insistiu.

PSD vai ter lei de bases da Saúde em nome próprio

Considerando que só se o “PSD for alternativa” é que Portugal terá uma governação diferente da atual, Rui Rio fez uma “matemática” simples: “Se não formos capazes de construir essa alternativa, Portugal nunca terá uma alternativa a esta governação, porque mais ninguém está em condições de fazer isso”. Ou seja, disse, só o PSD pode governar em vez do PS, por isso o partido “tem a obrigação perante Portugal de construir essa alternativa”.

Foi nesse sentido que, durante o discurso de boas festas, Rio anunciou que o PSD vai a jogo no início do próximo ano com uma proposta própria de alteração à lei de bases da Saúde, que passe por garantir um bom serviço às pessoas, independentemente de ser um serviço público ou privado. Isto depois de o PS ter deixado cair a proposta moderada de Maria de Belém e de a nova ministra Marta Temido ter avançado com uma outra mais à esquerda (ainda que António Costa a tenha levado a limar arestas para que a proposta fosse ao encontro do PSD).

Mas não foi. Considerando que não é preciso fazer “nenhuma revolução” em relação ao diploma atual, que já tem 28 anos, Rio disse que bastava “modernizar a lei e adaptá-la às circunstâncias atuais”.

“Mais importante do que se é mais público ou privado ou mais social, é que o SNS sirva as pessoas e ao preço o mais económico que se consiga. O que temos é de cumprir a Constituição: as pessoas têm de ter acesso ao SNS e de forma tendencialmente gratuita. E por isso o PSD vai também apresentar o seu projeto de lei relativamente à Lei de Bases da Saúde”, anunciou. O Governo apresentou na semana passada a sua proposta de Lei de Bases da Saúde, e também o PCP e BE  já apresentaram projetos, sendo que o CDS anunciou a intenção de o fazer.

Num discurso sobre verdade e mentira, Rui Rio recordou ainda uma efeméride: faz precisamente esta quarta-feira 17 anos que esteve na mesma sala do restaurante da Assembleia da República a comemorar, no jantar de Natal do partido, a sua primeira eleição como presidente da câmara do Porto. Nesse dia, comemorava-se também a eleição de Santana Lopes como presidente da câmara de Lisboa, e quem liderava era Durão Barroso, que iria ganhar as legislativas seguintes.

Nessa altura, em 2001, lembra-se Rio, a sua vitória no Porto tinha sido “estrondosa”. Desta vez, não promete o mesmo, mas espera que o sinal abone a seu favor. “Espero que este episódio possa ser uma mola impulsionadora para podermos, daqui a uns meses, ter vitórias. Talvez não tão estrondosas como essa, mas vitórias reais”.

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