Porque é que há cada vez mais casos de crianças vítimas de uma doença rara que causa paralisia dos membros? É isso que as autoridades de saúde britânicas vão tentar descobrir, estando já em marcha uma investigação que vai tentar perceber o porquê do surto de mielite flácida aguda, uma doença muito semelhante à poliomielite. Depois do alerta ter surgido nos Estados Unidos, é agora a vez do Reino Unido contabilizar um número fora de comum de crianças infetadas. Também há adultos infetados, mas em menor número.

Ao longo de 2018, com especial incidência de setembro para a frente, o número registado de casos é já de 28, quando as expetativas das autoridades são de contabilizar no máximo 10 por ano. Aliás, em 9 anos, entre 2009 e 2017, o país assistiu ao surgimento de 25 casos, menos do que os do ano que agora termina, avançaram as autoridades britânicas, citadas por vários jornais.

Nos Estados Unidos, o primeiro aviso surgiu em outubro deste ano, altura em que o diagnóstico de mielite flácida aguda (AFP, na sigla inglesa) estava confirmado em seis crianças. Entretanto, o número aumentou exponencialmente, com mais de 120 casos reportados. Entre estes, 62 já foram confirmados.

Seis crianças com rara doença semelhante a poliomielite nos Estados Unidos

Durante o verão, na Venezuela, 29 anos depois de o país ter erradicado a pólio, suspeitou-se que uma criança afetada por paralisia flácida aguda, um dos sintomas da doença, pudesse ter contrariado o vírus. Esta situação deixou as autoridades de saúde brasileiras (país vizinho) de sobreaviso, tendo sido feito um apelo para que todas as crianças fossem vacinadas contra a poliomielite. A Organização Mundial de Saúde viria a descartar a pólio como causa da paralisia da criança, mas nunca foi avançado o que terá causado a infeção na criança de quase três anos (34 meses).

Em caso de sintomas, procure um médico

A Public Health England, uma agência do Departamento de Saúde britânico, que está responsável pela investigação do caso, pediu as cidadãos britânicos para se dirigirem imediatamente ao médico caso detetem algum dos sintomas da doença que afeta principalmente crianças, mas não só. O primeiro alerta a que se deve estar atento é fraqueza nos membros.

“A AFP é muito rara”, disse Mary Ramsay, responsável pelo departamento de imunizações na Public Health England, citada pelo The Independent. “No entanto, se o seu filho apresentar fraqueza em qualquer dos membros, deve procurar ajuda médica de imediato para que sejam feitos os testes apropriados e para que lhe sejam prestados todos os cuidados necessários”, acrescentou.

Estamos a investigar potenciais causas e estamos a trabalhar arduamente para criar uma consciência mais forte entre os profissionais de saúde sobre como testar e como gerir pacientes com AFP”, sublinhou Mary Ramsay.

A mielita flácida aguda ocorre depois de uma infeção viral que afeta o sistema nervoso central. O vírus da poliemielite é uma das causas possíveis, mas não é a única, e é preciso ter em conta que a doença foi quase erradicada do planeta. Entre 1987 e 2017, houve uma redução de 99% no número de casos de poliomielite, embora continuem a surgir surtos em regiões onde a imunização da população não é total. Para além do vírus da pólio, a AFP pode também ser desencadeada por enterovírus.

Os sintomas associados à doença incluem uma perda súbita de força nos braços e pernas, flacidez muscular — as pálpebras ficam caídas e há dificuldade em engolir, por exemplo — e pode causar problemas respiratórios.

Não existe tratamento específico para a doença, havendo pessoas que recuperam mais rapidamente do que outras. Também ainda não são conhecidos os efeitos da doença a longo prazo.