A decisão de Donald Trump de retirar os cerca de dois mil soldados norte-americanos de território sírio foi recebida com surpresa — e até algum desagrado — por vários aliados do Presidente dos Estados Unidos. Em causa, explicou Trump esta quarta-feira, está o “fim” do combate ao Estado Islâmico.

Trump afirma ter vencido Daesh na Síria

Dentro da Casa Branca e do Congresso norte-americano, há republicanos a contestar essa afirmação e a deixar o aviso de que uma retirada americana do cenário de guerra na Síria pode abrir portas a uma expansão do Irão, país que Donald Trump tem classificado como hostil na região e aos interesses norte-americanos (tendo inclusivamente reposto sanções ao país). Aliados internacionais, como o Reino Unido e Israel, pronunciaram-se publicamente sobre a decisão, revelando cautela.

Em Washington, o senador republicano Lindsey Graham — habitualmente próximo do Presidente — reagiu mal à decisão de retirar as tropas norte-americanas da Síria. “Isto é uma mancha na honra dos Estados Unidos”, declarou num discurso no Senado, onde acrescentou ainda que a decisão coloca os norte-americanos “mais em risco”. Já em privado, num encontro com o vice-Presidente Mike Pence, Graham também não poupou nas críticas:

Se [Barack] Obama tivesse feito isto, estaríamos todos a perder a cabeça porque isto é uma ideia muito má. O trabalho do Congresso é o de chamar à pedra o ramo Executivo. Ele pode ser o Comandante-em-Chefe, mas tem de ser responsabilizado pelas suas ações”, afirmou Graham, citado pelo Politico, sobre o Presidente.

Graham não foi o único congressista republicano a declarar-se contra a decisão: o senador Marco Rubio falou “num erro grave” que pode vir a “assombrar esta administração” e o senador Bob Corker manifestou-se contra a tomada de decisão e a rapidez do anúncio. “Nunca vi uma decisão destas nos 12 anos em que aqui estive”, lamentou-se aos jornalistas.

Dentro da Casa Branca, também não faltaram críticas à decisão de Trump por parte da sua própria equipa. De acordo com o New York Times, os especialistas militares arrasaram a deliberação do Presidente, com o general Joseph Votel (comandante do Comando Central dos Estados Unidos) e Brett H. McGurk (enviado norte-americano da coligação internacional contra o Estado Islâmico) a oporem-se abertamente.

Já a CNN dá conta de que tanto o ministro da Defesa James Mattis, como o secretário de Estado Mike Pompeo e o conselheiro para a segurança John Bolton apresentaram resistência à decisão. “Responsáveis séniores do Governo concordam que a decisão-via-tweet do Presidente vai irresponsavelmente colocar em risco vidas de norte-americanos e de aliados nossos, vai retirar pressão sob o Estado Islâmico — permitindo-lhes que se reconstruam — e vai dar uma vitória estratégica aos nossos adversários sírios, iranianos e russos“, declarou uma fonte da Casa Branca ao canal de televisão.

Mais concretamente, a decisão de retirar as tropas norte-americanas deixará em risco o maior aliado norte-americano na Síria, as Forças Democráticas Sírias lideradas pelos curdos, que ao longo dos tempos debelaram múltiplas ofensivas do Estado Islâmico no terreno. Isso mesmo explicou o general Votel a Trump: não só porque as forças sírias e os seus aliados as atacarão com força redobrada, como porque a vizinha Turquia tem prometido atacar os curdos sírios, que Ancara vê como braços armados do Partido dos Trabalhadores Curdos no seu país.

Reino Unido e Israel apresentam reservas

Internacionalmente, a decisão de Trump foi recebida com diferentes ânimos, conforme o lugar da barricada em que os países se colocam no plano geoestratégico que este conflito assumiu. Fontes diplomáticas de dois países do Médio Oriente declararam à CNN que o anúncio foi recebido com “surpresa total” e que os seus governos não foram informados previamente.

O Reino Unido foi o país aliado que reagiu mais negativamente à decisão.

Ainda falta fazer muito e não podemos perder de vista a ameaça que o Estado Islâmico representa”, avisou oficialmente o ministério dos Negócios Estrangeiros britânico.

Também o secretário de Estado da Defesa, Tobias Ellowwd, reagiu publicamente no Twitter, avisando que “a ameaça [do Estado Islâmico] ainda está bem viva” e que se “transformou noutras formas de extremismo”.

Israel foi outro dos países aliados dos Estados Unidos a reagir publicamente, classificando esta como “uma decisão americana”. Contudo, o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu explicitou que foi avisado previamente por Donald Trump. Deixou, no entanto, um aviso: “Vamos estudar o calendário, como vai ser aplicado e — claro — as suas implicações para nós. Em qualquer dos casos, iremos continuar a manter a segurança de Israel e a defendermo-nos na região.”

Quem reagiu bem à decisão foi Moscovo. O ministério dos Negócios Estrangeiros russo congratulou-se com a decisão, classificando-a como “um marco” que pode trazer “perspetivas reais e genuínas de se conseguir um acordo político”. A Rússia tem apoiado no terreno as tropas sírias de Bashar al-Assad, juntamente com o Irão.