Cinema

“O Regresso de Mary Poppins”: Emily Blunt brilha numa réplica menor do clássico da Disney

275

Rob Marshall realiza a continuação de "Mary Poppins" tendo uma óptima Emily Blunt como sucessora de Julie Andrews, e uma banda sonora muito desenxabida. Eurico de Barros dá-lhe três estrelas.

Autor
  • Eurico de Barros

Há uma sequência de “O Regresso de Mary Poppins” que não estaria deslocada no bem-amado filme original de 1964. Mary (Emily Blunt), Jack (Lin-Manuel Miranda) e os três filhos pequenos do agora adulto Michael Banks entram numa taça de porcelana e vivem uma agitada aventura no mundo que está lá pintado. A sequência é toda ela estupendamente desenhada, pintada à mão e animada por processos tradicionais. E corresponde, neste novo filme, à do primeiro em que Mary (Julie Andrews), Bert (Dick Van Dyke) e os dois pequenos Banks saltam para dentro de um desenho feito no passeio e entram numa paisagem animada (se repararem bem, os pinguins que aparecem a certa altura são os mesmos da “Mary Poppins” de 1964).

[Veja o “trailer” de “O Regresso de Mary Poppins”]

Rob Marshall, o realizador de “O Regresso de Mary Poppins” e homem formado nos musicais da Broadway, quis que esta sequência funcionasse como uma homenagem ao primeiro filme, e à animação do tempo de Walt Disney. Mas ela representa também a cautela que presidiu à conceção, escrita e rodagem de “Mary Poppins Regressa”. Tirando o facto do tempo ter passado sobre as personagens que repetem a presença (menos Mary Poppins, que não envelhece), os efeitos digitais e uma irritante concessão ao politicamente correto, a fita é, em tudo o resto, da visualização da Londres dos anos 30 à paleta de cores usada, da estrutura do enredo às sequências animadas e musicais, uma réplica do “Mary Poppins” que deu a Julie Andrews o Óscar de Melhor Atriz, e outras quatro estatuetas à Disney, e se tornou num clássico do estúdio. Embora uma réplica em modo menor.

[Veja a entrevista com Emily Blunt]

A história passa-se 20 anos mais tarde da original, na década de 30. Michael Banks (Ben Whishaw) cresceu, casou, teve três filhos, enviuvou recentemente e está em risco de perder a casa da família para o banco onde o pai trabalhou e ele também está empregado. A irmã Jane (Emily Mortimer) anda envolvida numa vaga militância sindical, e a velha e fiel criada Ellen (Julie Walters) faz o que pode para manter a casa a funcionar. Mas as coisas estão mesmo muito complicadas para os Banks, e por isso Mary Poppins volta a aterrar suavemente no bairro vinda do céu, e ajudada por Jack, o castiço acendedor de candeeiros a gás, que faz agora as vezes do limpa-chaminés Bert do primeiro filme, vai dar a sua preciosa ajuda mágica à família.

[Veja a entrevista com Lin-Manuel Miranda]

Julie Andrews não quis aparecer em “O Regresso de Mary Poppins”, nem sequer no pequeno papel especial que lhe estava destinado (e foi preenchido por Angela Lansbury), passando a personagem e dando a sua bênção à sua sucessora, Emily Blunt. Que se mostra plenamente merecedora dela. Além de cantar muito bem e dançar melhor (veja-se o endiabrado número de “music-hall” na citada sequência animada), Blunt interpreta Mary Poppins sem cometer o erro de imitar Andrews, mas mantendo a combinação de firmeza, graça, desinibição e bom humor que define a personagem, acrescentando-lhe um toquezinho brincalhão no sotaque “posh”. Só por ela vale a pena ver esta continuação de “Mary Poppins”.

[Veja a entrevista com o realizador Rob Marshall]

Já Lin-Manuel Miranda, apesar dos seus dotes vocais e de bailarino, é muito frouxo na tela e o seu Jack não consegue emular o Bert de Dick Van Dyke, que compensava um atroz sotaque “cockney” com uma presença efervescente e contagiante (Van Dyke aparece no fim de “O Regresso de Mary Poppins”, no filho de uma das duas personagens que interpretava no filme original, para ajudar a salvar o dia e mostrar como se dança em cima de uma secretária aos 93 anos). Meryl Streep tem também uma divertida participação especial no papel de Topsy, a prima de Leste, mais velha e mais extravagante de Mary Poppins, e a sequência musical “nonsense” em que entra é a melhor do filme, juntamente com a da dança no nevoeiro dos acendedores de candeeiros, que equivale à do bailado dos limpa-chaminés nos telhados de Londres da fita-mãe.

[Veja uma sequência do filme]

O grande, muito grande, senão de “O Regresso de Mary Poppins” é a tépida e insossa banda sonora de Marc Shaiman e Scott Whitman, que não tem uma única canção trauteável e que sobreviva no ouvido cinco minutos depois de termos saído do cinema. Não pode sequer ser comparada à do original, da autoria dos lendários irmãos Richard e Robert Sherman, com colaboração de Irwin Kostal, que inclui melodias como “Supercalifragisticexpialidocious”, “Chim-Chim Cher-ee”, “Step in Time” ou “Let’s Go Fly a Kite”, que passaram de geração em geração e ainda hoje são sabidas de cor.

Mesmo considerando o respeito mostrado pelo “Mary Poppins” de Walt Disney com Julie Andrews, o profissionalismo consumado, a dedicação, o enorme talento e a mestria artesanal e técnica de todos os envolvidos no filme, falta a este amável “O Regresso de Mary Poppins”, essa única e irrecuperável qualidade “supercalifragilisticexpialidocious” do original.  

Agora que entramos em 2019...

...é bom ter presente o importante que este ano pode ser. E quando vivemos tempos novos e confusos sentimos mais a importância de uma informação que marca a diferença – uma diferença que o Observador tem vindo a fazer há quase cinco anos. Maio de 2014 foi ainda ontem, mas já parece imenso tempo, como todos os dias nos fazem sentir todos os que já são parte da nossa imensa comunidade de leitores. Não fazemos jornalismo para sermos apenas mais um órgão de informação. Não valeria a pena. Fazemos para informar com sentido crítico, relatar mas também explicar, ser útil mas também ser incómodo, ser os primeiros a noticiar mas sobretudo ser os mais exigentes a escrutinar todos os poderes, sem excepção e sem medo. Este jornalismo só é sustentável se contarmos com o apoio dos nossos leitores, pois tem um preço, que é também o preço da liberdade – a sua liberdade de se informar de forma plural e de poder pensar pela sua cabeça.

Se gosta do Observador, esteja com o Observador. É só escolher a modalidade de assinaturas Premium que mais lhe convier.

Partilhe
Comente
Sugira
Proponha uma correção, sugira uma pista: observador@observador.pt
IAVE

Errare humanum est… exceto para o IAVE!

Luís Filipe Santos

É grave tal atitude e incompreensível este silêncio do IAVE. Efetivamente, o que sempre se escreveu nos anos anteriores neste contexto foi o que consta na Informação-Prova de História A para 2018.

PSD

Marcelo, o conspirador /premium

Alexandre Homem Cristo

O pior destes 10 dias no PSD foi a interferência de Marcelo. Que o PSD se queira autodestruir, é problema seu. Que o Presidente não saiba agir dentro dos seus limites institucionais, é problema nosso.

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

Confirme a sua conta

Para completar o seu registo, confirme a sua conta clicando no link do email que acabámos de lhe enviar. (Pode fechar esta janela.)