Cinema

“O Regresso de Mary Poppins”: Emily Blunt brilha numa réplica menor do clássico da Disney

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Rob Marshall realiza a continuação de "Mary Poppins" tendo uma óptima Emily Blunt como sucessora de Julie Andrews, e uma banda sonora muito desenxabida. Eurico de Barros dá-lhe três estrelas.

Autor
  • Eurico de Barros

Há uma sequência de “O Regresso de Mary Poppins” que não estaria deslocada no bem-amado filme original de 1964. Mary (Emily Blunt), Jack (Lin-Manuel Miranda) e os três filhos pequenos do agora adulto Michael Banks entram numa taça de porcelana e vivem uma agitada aventura no mundo que está lá pintado. A sequência é toda ela estupendamente desenhada, pintada à mão e animada por processos tradicionais. E corresponde, neste novo filme, à do primeiro em que Mary (Julie Andrews), Bert (Dick Van Dyke) e os dois pequenos Banks saltam para dentro de um desenho feito no passeio e entram numa paisagem animada (se repararem bem, os pinguins que aparecem a certa altura são os mesmos da “Mary Poppins” de 1964).

[Veja o “trailer” de “O Regresso de Mary Poppins”]

Rob Marshall, o realizador de “O Regresso de Mary Poppins” e homem formado nos musicais da Broadway, quis que esta sequência funcionasse como uma homenagem ao primeiro filme, e à animação do tempo de Walt Disney. Mas ela representa também a cautela que presidiu à conceção, escrita e rodagem de “Mary Poppins Regressa”. Tirando o facto do tempo ter passado sobre as personagens que repetem a presença (menos Mary Poppins, que não envelhece), os efeitos digitais e uma irritante concessão ao politicamente correto, a fita é, em tudo o resto, da visualização da Londres dos anos 30 à paleta de cores usada, da estrutura do enredo às sequências animadas e musicais, uma réplica do “Mary Poppins” que deu a Julie Andrews o Óscar de Melhor Atriz, e outras quatro estatuetas à Disney, e se tornou num clássico do estúdio. Embora uma réplica em modo menor.

[Veja a entrevista com Emily Blunt]

A história passa-se 20 anos mais tarde da original, na década de 30. Michael Banks (Ben Whishaw) cresceu, casou, teve três filhos, enviuvou recentemente e está em risco de perder a casa da família para o banco onde o pai trabalhou e ele também está empregado. A irmã Jane (Emily Mortimer) anda envolvida numa vaga militância sindical, e a velha e fiel criada Ellen (Julie Walters) faz o que pode para manter a casa a funcionar. Mas as coisas estão mesmo muito complicadas para os Banks, e por isso Mary Poppins volta a aterrar suavemente no bairro vinda do céu, e ajudada por Jack, o castiço acendedor de candeeiros a gás, que faz agora as vezes do limpa-chaminés Bert do primeiro filme, vai dar a sua preciosa ajuda mágica à família.

[Veja a entrevista com Lin-Manuel Miranda]

Julie Andrews não quis aparecer em “O Regresso de Mary Poppins”, nem sequer no pequeno papel especial que lhe estava destinado (e foi preenchido por Angela Lansbury), passando a personagem e dando a sua bênção à sua sucessora, Emily Blunt. Que se mostra plenamente merecedora dela. Além de cantar muito bem e dançar melhor (veja-se o endiabrado número de “music-hall” na citada sequência animada), Blunt interpreta Mary Poppins sem cometer o erro de imitar Andrews, mas mantendo a combinação de firmeza, graça, desinibição e bom humor que define a personagem, acrescentando-lhe um toquezinho brincalhão no sotaque “posh”. Só por ela vale a pena ver esta continuação de “Mary Poppins”.

[Veja a entrevista com o realizador Rob Marshall]

Já Lin-Manuel Miranda, apesar dos seus dotes vocais e de bailarino, é muito frouxo na tela e o seu Jack não consegue emular o Bert de Dick Van Dyke, que compensava um atroz sotaque “cockney” com uma presença efervescente e contagiante (Van Dyke aparece no fim de “O Regresso de Mary Poppins”, no filho de uma das duas personagens que interpretava no filme original, para ajudar a salvar o dia e mostrar como se dança em cima de uma secretária aos 93 anos). Meryl Streep tem também uma divertida participação especial no papel de Topsy, a prima de Leste, mais velha e mais extravagante de Mary Poppins, e a sequência musical “nonsense” em que entra é a melhor do filme, juntamente com a da dança no nevoeiro dos acendedores de candeeiros, que equivale à do bailado dos limpa-chaminés nos telhados de Londres da fita-mãe.

[Veja uma sequência do filme]

O grande, muito grande, senão de “O Regresso de Mary Poppins” é a tépida e insossa banda sonora de Marc Shaiman e Scott Whitman, que não tem uma única canção trauteável e que sobreviva no ouvido cinco minutos depois de termos saído do cinema. Não pode sequer ser comparada à do original, da autoria dos lendários irmãos Richard e Robert Sherman, com colaboração de Irwin Kostal, que inclui melodias como “Supercalifragisticexpialidocious”, “Chim-Chim Cher-ee”, “Step in Time” ou “Let’s Go Fly a Kite”, que passaram de geração em geração e ainda hoje são sabidas de cor.

Mesmo considerando o respeito mostrado pelo “Mary Poppins” de Walt Disney com Julie Andrews, o profissionalismo consumado, a dedicação, o enorme talento e a mestria artesanal e técnica de todos os envolvidos no filme, falta a este amável “O Regresso de Mary Poppins”, essa única e irrecuperável qualidade “supercalifragilisticexpialidocious” do original.  

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PCP

Patrão santo, funcionário posto fora da loja /premium

José Diogo Quintela
566

Estou chocado. Nunca pensei que o PCP não cumprisse a lei laboral. Mas o PCP está ainda mais chocado: nunca pensou ser obrigado a cumprir a lei laboral. É que escrevê-la é uma coisa, obedecê-la outra.

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