Mesmo que o tsunami do último sábado fosse mais difícil de prever do que outros anteriores — por não ser precedido de um sismo — o lamento das autoridades não deixa dúvidas: o Estado indonésio voltou a falhar na hora de dar o alerta. Após o tsunami de 2004, que fez mais de 200 mil mortos (a maioria, 126.915, na Indonésia), o país reforçou os sistemas de alerta e de ação das autoridades, mas isso não impediu novas falhas. Esta já é a terceira vez que o Estado indonésio é acusado de falhar este ano, com um rasto de milhares de mortos pelo caminho.

As centenas de pessoas (na manhã desta segunda-feira eram 281 os mortos confirmados) atingidas pelo tsunami no sábado à noite estavam absolutamente descansadas e não procuraram abrigo, pois não tinham qualquer informação das autoridades do que podia estar para vir. Como lembra a CNN, num artigo com o título “Como o sistema de alerta de Tsunami da Indonésia voltou a falhar aos cidadãos”, apesar do historial de tsunamis provocados por erupções vulcânicas e terramotos, o país continua sem um sistema de alerta eficaz.

Já antes do tsunami de sábado à noite, contam-se mais dois casos só em 2018. No final de setembro, mais de duas mil pessoas morreram quando o tsunami e um terramoto atingiram a ilha de Celebes. Também aí vários cidadãos apontaram o dedo ao Estado indonésio por não terem recebido qualquer aviso.

[Veja no vídeo as imagens aéreas que mostram a dimensão da destruição na Indonésia]

A Indonésia tem um sistema de alerta desenvolvido pelo Centro Alemão de Investigação em Geociências (GFZ), um serviço oferecido pela Alemanha àquele país após o sismo de 2004. Segundo o diretor de geoserviços da GFZ, Joern Lauterjung, nesse sismo de outubro o sistema de alerta tsunami funcionou, mas as autoridades não comunicaram devidamente à população. Na altura, chegou a ser emitido um alerta de tsunami após o terramoto (que provocou o tsunami), mas foi suspenso meia hora depois.  “O problema foi a comunicação entre as autoridades locais e as pessoas, por exemplo na praia, como aconteceu em Celebes”, disse Joern Lauterjung. O diretor da GFZ acrescentou ainda: “Se olharmos para toda a cadeia de alerta, desde a emissão de um sinal de alerta até o último quilómetro, até à população local em perigo, houve um problema ali (…) Por exemplo, parece que as sirenes não funcionaram, e não houve alertas à população local nos altifalantes dos carros da polícia.”

Também em julho e agosto uma série de terremotos atingiu a região de Lombok, provocando deslizamentos e desmoronando edifícios que provocaram mais de 400 mortos, numa má gestão também apontada às autoridades indonésias.

O diretora da Agência de Metereologia, Climatologia e Geologia (BMKG) da Indonésia, Dwikorita Karnawati, garantiu que a agência vai tentar instalar medidores de maré que permitam detetar ondas mais perto da costa, admitindo que o atual sistema foi incapaz de prever o tsunami antes do tempo. Dwikirita Karnawati explicou que o tsunami pode ser “causado por vários fatores” e que os sensores do sistema “não emitiram alertas precoces porque estão direcionados para detetar atividade tectónica e não atividades vulcânicas. Daí que seja necessário estar em coordenação permanente com outras agências, como agências marítimas e geológicas”.

As autoridades indonésias confundiram inicialmente o tsunami com uma maré crescente e chegaram a apelar à população para não entrar em pânico. Terá havido mais uma vez negligência das autoridades que, em vez do excesso de zelo, optaram por desvalorizar a situação. “Foi um erro, sentimos muito”, escreveu na rede social Twitter o porta-voz da Agência Nacional de Gestão de Desastres, Sutopo Purwo Nugroho.

O tsunami ocorreu devido a um deslizamento de rochas que resultou da erupção do vulcão Anak Krakatoa, que movimentou um grande volume de água e gerou a onda de tsunami. O problema é que, nessa altura, existia maré alta, o que dificultou a perceção das autoridades. Além disso, normalmente antes de um tsunami há um terramoto (que serve de pré-aviso quer às populações, quer às autoridades) que desta vez não se verificou.