As contas eram fáceis de fazer: o Chelsea era o último dos primeiros cinco classificados da Premier League a entrar em campo neste Boxing Day; o Arsenal tinha empatado fora com o Brighton; o Manchester City tinha perdido com o Leicester, caído para o terceiro lugar e colocava-se à mercê dos restantes “grandes” do futebol inglês. Tudo resumido, o Chelsea sabia que bastava vencer o Watford para ultrapassar o Arsenal, subir ao quarto lugar e ficar a apenas quatro pontos dos citizens.

O Chelsea chegava a Vicarage Road depois de uma derrota caseira, no passado fim de semana, ao pés do Leicester (o mesmo Leicester que esta quarta-feira venceu o Manchester City), mas Maurizio Sarri dava um voto de confiança à equipa e apresentava frente ao Watford o mesmo onze inicial que perdeu no sábado: a linha de meio-campo a três, com Kanté, Jorginho e Kovacic, e a linha ofensiva com os mesmos três, composta por Pedro de um lado, Willian do outro e Hazard no centro, sempre enquanto falso ‘9’ (Morata continua lesionado e voltou a não integrar a convocatória). Já o Watford — que contava com Domingos Quina no banco de suplentes — sabia que tanto Leicester como Everton tinham vencido e que era necessário conquistar os três pontos frente aos blues para regressar ao sétimo lugar.

A equipa de Sarri entrou mais agressiva e com vontade de marcar cedo, sempre orientada pela batuta de um incansável N’Golo Kanté e guiada pela velocidade e virtuosidade de Willian, encostado à ala esquerda mas móvel o suficiente para procurar o jogo que Kovacic, nos últimos encontros, não tem conseguido levar até ao último terço do terreno. O Watford aplicou a intensidade habitual e a vontade recorrente, sempre sem medo de colocar o pé e apostar no contra-ataque. O momento da primeira parte, porém, nada teve a ver com golos, com jogadas bonitas nem com pormenores deliciosos: antes ainda do quarto de hora, Willian lançou-se pelo corredor e cruzou rasteiro para a entrada de Hazard; a bola foi intercetada pela defesa adversária mas Christian Kabasele, central do Watford, embateu contra o poste da baliza de Ben Foster, num lance absolutamente arrepiante. O jogador belga foi assistido durante largos minutos e ainda entrou em campo, aparentemente recuperado, mas pediu para sair apenas segundos depois. Ainda antes de Martin Atkinson apitar para o intervalo, as imagens da transmissão televisiva mostraram Kabasele a ser transportado de maca para o hospital, com uma máscara de oxigénio.

Dentro de campo, os minutos iam passando e o Chelsea deixou o Watford abrir o jogo e estendê-lo de forma perigosa para os blues, já que Deulofeu e Deeney são uma dupla bem oleada, que conta com a qualidade de Sema e Pereyra nas costas, para deixar a cabeça em água às defesas adversárias. Mas o arrojo dos hornets, cujas ligações defesa-ataque têm ainda muitas lacunas, deixavam espaços entre setores e originavam descompensações posicionais que os atacantes do Chelsea, de classe mundial, nem sequer sabem como desperdiçar. Já no primeiro minuto de tempo extra da primeira parte, a equipa de Javi Gracia perdeu a bola em zona proibida: Kovacic recuperou e lançou Hazard para um sprint sem oposição. O belga tirou o guarda-redes da frente e atirou para o golo 100 com a camisola do Chelsea, tornando-se no 10.º jogador dos blues a atingir a marca (depois de George Hilsdon, George Mills, Jimmy Greaves, Peter Osgood, Roy Bentley, Didier Drogba, Kerry Dixon, Bobby Tambling e Frank Lampard).

Mas este é o Boxing Day. Que em tradução livre bem que podia significar que nada é o que parece. O árbitro deu quatro minutos de tempo extra, o Chelsea marcou no primeiro, o Watford respondeu no terceiro. Canto marcado à maneira curta na esquerda, bola colocada a pingar para a entrada da área de Kepa e Pereyra surge a rematar de primeira, sem deixar a bola cair, num tiro indefensável para o guarda-redes espanhol. O golo do médio argentino não pode sequer ser contabilizado enquanto reação do Watford à desvantagem: é apenas a qualidade da Premier League, que se estende desde aqueles que lutam pelos lugares europeus até aqueles que lutam para não descer. Na ida para o intervalo, Sarri precisava de apagar tudo o que tinha escrito no bloco de notas depois do golo de Hazard e repensar a estratégia para a segunda parte.

Uma coisa o treinador italiano já sabia: não podia contar com Pedro, que pediu para sair ainda antes da ida para o descanso, com queixas musculares, e que foi substituído por Odoi. O Watford entrou mais forte para o segundo tempo, remetendo o Chelsea para o seu meio-campo defensivo, subindo as linhas e lançando quase sempre Deulofeu, que esta quarta-feira se tornou no inimigo número um de David Luiz. O espanhol, mais rápido, mais virtuoso, mais tecnicista, foi deixando o central brasileiro ex-Benfica para trás, mas perdia quase sempre no confronto físico. Os blues tinham dificuldades para sair de forma apoiada e a construção organizada, orquestrada por Jorginho e Kanté, parecia ter ficado na primeira parte. Mas, de repente, a qualidade voltou a aparecer. Hazard foi isolado na cara de Ben Foster e, antes de conseguir sequer armar o remate, foi derrubado pelo guarda-redes. Grande penalidade, bis do avançado belga, golo número 101 com a camisola do Chelsea.

O jogo caiu em qualidade e discernimento a partir do segundo golo de Hazard e do Chelsea: os blues recuaram no terreno e as únicas oportunidades que tiveram até ao final do jogo foram através de transições rápidas, por intermédio de N’Golo Kanté e Willian; o Watford, fisicamente desgastado, ainda viu Domingos Quina entrar mas não conseguiu voltar a causar o perigo que tinha criado até à grande penalidade, ainda que tenha passado o último quarto de hora da partida completamente instalado no meio-campo do Chelsea.

O Chelsea venceu, concretizou os únicos dois remates enquadrados que fez à baliza de Ben Foster e mostrou novamente que é uma equipa à imagem e semelhança do seu treinador. Os blues somam 40 pontos, sobem ao quarto lugar da Premier League e ficam a quatro pontos do Manchester City. O último jogo do Boxing Day deu golo 100 (e 101) de Hazard e lição tática de Maurizio Sarri.