António Costa

Realista, contraditória ou um “conjunto de fantasias”? As reações dos partidos à mensagem de Natal de Costa

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PCP considera que há uma "contradição inequívoca" entre o que Costa diz ser o caminho e a intervenção do Governo. PS caracteriza como uma "mensagem realista". PSD diz que é um conjunto de fantasias.

A tradicional mensagem de Natal do primeiro-ministro, António Costa, foi transmitida na noite de terça-feira na RTP

ANTÓNIO COTRIM/LUSA

Na tradicional mensagem de Natal do primeiro-ministro, transmitida na noite de terça-feira na RTP, António Costa defendeu que Portugal virou a página dos anos mais difíceis e está agora melhor, mas tem ainda muito trabalho pela frente, tendo de vencer “grandes desafios” como a demografia e a valorização do território.

O primeiro-ministro colocou “duas questões essenciais”: por um lado, como conseguirá o país dar “continuidade” a um percurso de “melhoria sem riscos de retrocesso”; e, por outro lado, como se conseguirá garantir que “cada vez mais pessoas beneficiem na sua vida das melhorias” que entende terem sido alcançadas. António Costa procurou salientar a ideia de que não se ilude pessoalmente nem os portugueses se podem iludir com os números.

Os partidos têm vindo a reagir às palavras do primeiro-ministro. Jorge Pires, do PCP, considera que há uma “contradição inequívoca” entre o que António Costa diz ser o caminho e a intervenção do Governo. O membro da comissão executiva democrata-cristã Pedro Mota Soares criticou o facto de o primeiro-ministro falar “da demografia, do interior de Portugal, das empresas e da economia”, mas ter chumbado as propostas do CDS no parlamento para apoiar o investimento, baixar os impostos de quem trabalha no interior e às empresas que criam emprego, salientou. Já o deputado PS Hugo Pires caracterizou a mensagem de Costa como “serena, realista e inconformada”. O deputado André Coelho do PSD diz que é um “conjunto de fantasias”.

PCP. Mensagem revela “contradição inequívoca”

O PCP revê-se numa parte do discurso de Natal do primeiro ministro, mas considera que há uma “contradição inequívoca” entre o que António Costa diz ser o caminho e a intervenção do Governo, “que vai em sentido oposto”.

Num comentário à Lusa o dirigente comunista Jorge Pires disse que o PCP registou no discurso a questão do respeito pelos direitos, a melhoria das condições de vida e dos rendimentos, um caminho “associado ao papel e influência do PCP” e que desmente os que defendiam que poria em causa o crescimento económico e aumentaria o desemprego.

No entanto, nas palavras de Jorge Pires, há uma contradição entre o que o primeiro-ministro diz e pensa ser o caminho a continuar no próximo ano, e o que o Governo faz, “que vai no sentido oposto do que ele acha que deve ser o caminho para melhorar as condições de vida, aumentar o crescimento económico” ou repor direitos e rendimentos. Tal é visível, disse Jorge Pires, em relação aos direitos dos trabalhadores, com o Governo a associar-se “ao grande patronato e fazer aprovar legislação laboral que vai exatamente ao contrário daquilo que é a defesa dos direitos e interesses dos trabalhadores“.

Também na melhoria das condições de vida dos portugueses se verifica, nas palavras do dirigente do PCP, há uma intervenção do Estado no sentido de reduzir responsabilidades nos serviços públicos, em áreas como os transportes, saúde ou a cultura. As paralisações nos últimos dias no setor dos transportes têm a ver com essa falta de investimentos, exemplificou.

Pela sua parte, o PCP, garantiu Jorge Pires, vai continuar a intervir para responder aos problemas do país e vai “aproveitar todas as oportunidades para continuar a recuperar rendimentos e direitos”.

CDS. “Temos um primeiro-ministro que quer apoiar interior de Portugal”, mas chumbou propostas do CDS-PP

O CDS afirmou esta terça-feira, em reação à mensagem de Natal de António Costa, ser “a única alternativa” ao Governo do PS, acusando-o de fazer os portugueses pagarem demasiados impostos para a qualidade de serviços públicos como a saúde ou os transportes.

Nós neste momento temos impostos máximos para serviços mínimos e é por isso que o CDS se apresenta hoje como a única alternativa ao PS”, disse o membro da comissão executiva democrata-cristã Pedro Mota Soares à agência Lusa.

“Temos um primeiro-ministro que fala da demografia, do interior de Portugal, das empresas e da economia”, mas que chumbou propostas do CDS-PP no parlamento para apoiar o investimento, baixar os impostos de quem trabalha no interior e às empresas que criam emprego, salientou.

Além disso, apontou, o Governo de António Costa “fez as maiores cativações e apresentou os piores serviços públicos, quer nos transportes, na saúde, até na segurança dos portugueses”. “É responsável pela maior carga fiscal de sempre, a começar pela gasolina e pelo gasóleo“, indicou.

PS. Mensagem foi “serena, realista e inconformada”

O PS considerou que a mensagem de Natal do primeiro-ministro, António Costa, foi “serena, realista e inconformada”, defendendo que “ainda é preciso caminhar” apesar do “muito já foi feito” para melhorar a qualidade de vida dos portugueses.

A mensagem do primeiro-ministro foi uma mensagem serena, realista e inconformada”, sintetizou, em declarações à agência Lusa, o deputado do PS.

Segundo o socialista, é uma mensagem na qual “o PS se revê na integra, com muita humildade”, uma vez “que não está tudo feito, ainda é preciso caminhar muito, mas que muito já foi feito”. “Com muita humildade é preciso continuar a dar passos certos e seguros no caminho de uma melhor qualidade de vida dos portugueses”, sublinhou.

Para Hugo Pires, a mensagem de Natal de António Costa foi serena porque Portugal vive “tempos mais sossegados, mais tranquilos”, com “contas certas” e, “pela primeira vez neste século”, com a economia a crescer “mais do que a média europeia”.

Depois realista porque, apesar deste Governo ter travado a fundo o caminho do empobrecimento que Portugal estava a seguir e sendo hoje inegável a melhoria das condições de vida dos portugueses, é preciso fazer mais”, concordou.

Na opinião do deputado socialista “é preciso continuar a trabalhar para criar condições para haver melhores salários, trabalho digno”, apontando ainda o investimento “em saúde, educação e infraestruturas” como objetivo. “E queremos também que a continuação das políticas seja feita de forma sustentada, passo a passo, com passos seguros para que nenhum português tenha que viver outra vez e passar por aquilo que passou nos tempos da troika“, garantiu.

A mensagem de António Costa aos portugueses foi “inconformada porque fala dos dois grandes desígnios” para o país, como a “valorização do território e demografia”, justificou Hugo Pires.

BE. Mais investimento para combater “défice social”

As reações do Bloco de Esquerda (BE) chegaram pela voz de Marisa Matias, eurodeputada e cabeça de lista do partido às eleições europeias. Mais investimento no combate ao défice social e um alerta preocupado pelo que chama de “obsessão” do Governo em ir além das metas definidas por Bruxelas marcaram o tom da mensagem da bloquista em reação às declarações do primeiro-ministro.

O que estamos a fazer é não combater a pobreza por todos os meios e não investir no Serviço Nacional de Saúde. O défice social é o principal défice ao qual devemos responder. Não podemos, de maneira nenhuma, volta a situações que se provaram erradas. Temos de investir”, frisou Marisa Matias.

Frisando que o Bloco de Esquerda “está sempre disponível para todas as políticas que tenham que ver com o combate às desigualdades”, Marisa Matias reforçou ainda que “falta uma rutura da política do favorecimento do setor financeiro, que ainda não foi feito, nem por este governo”, disse à TSF.

PSD. Mensagem é um “conjunto de fantasias”

O PSD considerou que a mensagem de Natal do primeiro-ministro representa “um conjunto de fantasias” e defendeu que António Costa devia ter tido “outro recato” quando falou de investimento de qualidade nos serviços públicos.

Aquilo que se viu no discurso do primeiro-ministro foi um conjunto de fantasias, um conjunto de frases que ouvindo gosta-se de ouvir, mas é preciso interpretar aquilo que está por detrás daquilo que é dito”, afirmou André Coelho Lima, vogal da Comissão Política Nacional do PSD, em conferência de imprensa, no Porto.

Pois, acrescentou, dizer que as contas estão “certas” quando a dívida pública “aumenta tanto” e que há um investimento público de qualidade escolhendo o Serviço Nacional de Saúde (SNS) como exemplo, “não é um bom serviço à credibilidade na política”.

É preciso dizer que os portugueses que estão há meses, há anos, a defrontar-se com dificuldades enormes particularmente nos serviços de saúde, o desinvestimento que é notório, que é enorme, que é sentido por todos e que é relatado por todos, esta destruição do Serviço Nacional de Saúde que tem acontecido, conhecer da parte do primeiro-ministro um comentário que temos que continuar o investimento de qualidade parece-nos, com toda a franqueza, que mereceria um outro recato, um outro cuidado da parte do primeiro-ministro de Portugal”, defendeu André Coelho Lima.

O social-democrata sublinhou ainda que, em matéria de transportes, a solução do Governo “cinge-se apenas às duas principais cidades do país”, ignorando o restante território. “[O primeiro-ministro] dá como exemplo de melhor aproveitamento do território os transportes públicos mais baratos e apresenta a solução de transportes públicos mais baratos apenas para as áreas metropolitanas de Lisboa e do Porto, ignorando todo o restante território. Se isto é, ou visa ser, nas palavras do primeiro-ministro, uma política de coesão territorial, pois ficam os portugueses a saber que, de facto, o território para o primeiro-ministro cinge-se apenas às duas principais cidades”, criticou.

Para o PSD, também as declarações de António Costa sobre Portugal ter crescido mais que a média da União Europeia são “estranhas” já que o país “tem o quarto menor PIB [Produto Interno Bruto] da zona euro” e só “a Eslováquia, a Grécia e a Letónia têm uma situação pior do que Portugal”. André Coelho Lima acrescentou ainda que não se pode falar de maior justiça fiscal quando Portugal “tem a maior carga fiscal da história de Portugal” e a dívida pública aumentou cerca de 20 mil milhões de euros.

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