Cinema

“O Ben Está de Volta”: o Natal sombrio e desesperado de uma mãe

Julia Roberts e Lucas Hedges monopolizam este drama sobre uma mãe que faz tudo para que o filho toxicodependente se mantenha sóbrio na época natalícia. Eurico de Barros dá-lhe três estrelas.

Autor
  • Eurico de Barros

Os filmes de Natal costumam ser alegres, luminosos, escapistas, sintonizados nos sentimentos e na atmosfera da quadra. Mas se excetuarmos a tradição dos filmes de terror ambientados no Natal, há também, de quando em quando, outros que vão a contrapelo da convenção e são sombrios, carregados e sem o menor sinal da alegria, da felicidade e da leveza características do tempo natalício e da cinematografia associada. Um desses filmes desmancha-prazeres e incomodamente realista é “R-Xmas-Nosso Natal”, realizado por Abel Ferrara em 2001, e no qual um pequeno “dealer” de droga de Nova Iorque é raptado poucos dias antes do Natal, e a mulher começa uma corrida contra o tempo para juntar o dinheiro do resgate. Não surpreende que não costume ser programado pelas televisões nesta altura do ano.

[Veja o “trailer” de “O Ben Está de Volta”]

É de droga que também se trata em “O Ben Está de Volta”, de Lucas Hedges. Estamos a poucos dias do Natal, numa casa de família de um subúrbio próspero de Nova Iorque. Holly Burns (Julia Roberts) é surpreendida pelo aparecimento de Ben (Lucas Hedges, filho do realizador), o seu filho mais velho do primeiro casamento. É uma alegria tê-lo em casa inesperadamente para passar a quadra. Mas é também uma aflição. Porque Ben é um toxicodependente relapso que está internado numa clínica para desintoxicação, e pode a qualquer momento recomeçar a drogar-se. O padrasto e a irmã mais velha estão bem cientes disso, e não acompanham Holly e os filhos mais pequenos na satisfação pelo regresso do rapaz. E a perspetiva de um Natal calmo e alegre dá lugar a tensão, temores e fricções.

[Veja a entrevista com Julia Roberts e Lucas Hedges]

Ben é o oposto do Kevin de Macaulay Culkin em “Sozinho em Casa”. São tantas, têm tantas formas e estão em tantos sítios as tentações a que ele pode sucumbir, que Ben não pode ficar sozinho em casa, no seu quarto, na rua, no centro comercial. Por isso, a mãe, que o adora, agarra-se a ele como uma lapa a uma rocha e não o vai largar de vista, onde quer que ele esteja ou vá. Mas será que, apesar da vigilância apertada, Holly e o resto da família podem estar certos que vai manter-se sóbrio? O filme sugere que esta situação já foi vivida antes, e Ben cedeu e estragou tudo. E por mais que ele diga que isso não se vai repetir, e que por um lado esteja a tentar, com todas as suas forças, seguir o bom caminho, pelo outro, nem ele, nem os que o rodeiam estão totalmente certos que seja capaz disso. Não é o próprio Ben que diz à mãe a certa altura: “Nunca acreditem num ‘junkie’”?

[Veja a entrevista com o realizador Peter Hedges]

A dúvida sobre se Ben se aguentará firme ou não é o combustível que alimenta a história de “O Ben Está de Volta”. E que, devido às ligações do rapaz com o traficante da zona, leva Holly, em plena Véspera de Natal, numa viagem de terror pela vida secreta do filho, no lado oculto do mundo suburbano confortável, afluente e iluminado pelas luzes das decorações natalícias em que vive, cruzando-se com pais e mães devastados pela morte dos filhos toxicodependentes, figuras estimáveis da comunidade cujas casas são pontos de venda de droga em troca de dinheiro ou sexo, “dealers” que não têm uso para a palavra “compaixão” e viciados que fazem seja o que for para terem dinheiro para comprar produto, e se aglomeram como “zombies” nos cantos e buracos mais escuros, degradados e imundos.

[Veja uma cena de “O Ben Está de Volta”]

Mesmo que lhe falte alguma subtileza na exposição e não tenha estômago para levar o enredo às últimas e mais trágicas consequências, Peter Hedges ainda assim vai mais longe do que se poderia esperar num filme “mainstream” com este tema, e sugere a extensão social e a dimensão nacional da situação pessoal e familiar de “O Ben Está de Volta”. Julia Roberts atira-se de cabeça a este papel de mãe-leoa que protege e defende a cria com unhas e dentes, mesmo contra as piores evidências, claramente concebido para “pescar” uma nomeação ao Óscar de Melhor Actriz, e Lucas Hedges reitera as qualidades demonstradas em “Manchester by the Sea”, num Ben que quase esgotou o seu capital de credibilidade e hesita entre atirar-se ao abismo e fugir da sua beira. Quem disse que os filmes de Natal tinham todos que ser alegres, luminosos e escapistas?

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