O governo espanhol tem nas mãos mais uma arma para resolver a seu favor o diferendo com a família de Franco sobre a exumação dos restos mortais do ditador. Trata-se de um relatório da delegação de governo de Madrid (equivalente aos antigos governos civis em Portugal) que alega razões de ordem pública (por risco de ameaças terroristas) ou o possível colapso da estrutura, para impedir a trasladação do corpo de Franco para a Catedral de Almudena, na capital espanhola.

Depois de ter chegado ao poder no início de junho deste ano, o primeiro-ministro de Espanha, Pedro Sánchez, já tinha revelado a sua determinação em exumar os restos mortais do ditador, sepultado no Vale dos Caídos desde a sua morte, em 1975. Porém, a família de Franco sempre se opôs à exumação e procurou complicar o processo, exigindo que o corpo fosse trasladado para a Catedral de Almudena, em Madrid.

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Num relatório de 12 páginas, citado pelo El País, a delegação do governo defende que os restos mortais de Franco não devem ser trasladados para a Catedral por razões de ordem pública, por risco de ameaças terroristas, pelo possível colapso da estrutura ou por confrontos entre apoiantes opositores no local. A polícia, por sua vez, não pode entrar na Catedral por se tratar de um lugar sagrado (além de que, se pudesse, a liberdade religiosa estaria a ser posta em causa). São esses motivos que o Governo de Sáncgez vai alegar para resolver, de uma vez por todas, a questão, escreve o El País.

No que diz respeito ao risco de ameaças terroristas — uma vez que a Catedral de Almudena se situa no centro de Madrid e o acesso a ela é muito fácil — o documento explica: “Estamos num nível de alto risco terrorista há anos, que obriga a dar especial atenção a centros emblemáticos ou lugares onde se prevê a existência de concentrações especiais de cidadãos “. O relatório menciona também que o enterro de Franco na catedral poderá aumentar a probabilidade de provocações, conflitos e agressões.

É assim que o executivo espanhol se prepara para rejeitar a reivindicação da família de Franco, que está em guerra com o Governo contra a exumação do corpo desde julho de 2017. O ditador está enterrado ao lado do fundador da Falange (partido fascista espanhol), José António Primo de Rivera, e de 37 mil vítimas da Guerra Civil.

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Em agosto deste ano, foi aprovado, em Conselho de Ministros, o decreto-lei que iria reformular a chamada Lei da Memória Histórica, o qual permite que a exumação se realize muito em breve. Contudo, o local alternativo para sepultar o corpo não foi incluído no arquivo, ainda que o cemitério Mingorrubio seja um lugar com grande probabilidade de ser escolhido.

Agora, o processo está nas mãos do Conselho de Ministros espanhol e aguardam-se os argumentos finais da família. Em poucas semanas, os restos mortais de Franco vão ser retirados do Vale dos Caídos.