Tesla

Musk coloca amigo e “clone” na administração da Tesla

Quem antecipava que Elon Musk iria ‘padecer’ com o controlo dos novos administradores independentes da Tesla pode ter uma surpresa desagradável. Um deles é grande fã e visto como “um clone” como CEO.

A Tesla anunciou os dois novos membros do seu conselho de administração, nomeados por imposição da Securities and Exchange Commission (SEC), órgão desejoso de suavizar os ímpetos do CEO da empresa, Elon Musk. Mas a entrada de Larry Ellison – fundador e chairman da Oracle, além do 10º mais rico do mundo, segundo a Forbes – e de Kathleen Wilson-Thompson, advogada especialista em recursos humanos da farmacêutica Walgreens Boots Alliance e que já é membro da administração da Ashland e da Vulcan Materials, pode estar longe de atingir os objectivos propostos. De acordo com analistas como Jeff Sonnenfield, da CNBC, Musk fintou a SEC ao nomear para a administração Wilson-Thompson, que não tem disponibilidade para dedicar grande atenção à Tesla e exercer algum controlo sobre o seu CEO. Sendo que, por outro lado, Ellison é grande amigo e fã de Musk, sendo mesmo acusado por Sonnenfield de ser um seu “clone”.

Musk, o CEO da Tesla, cargo que até há bem pouco tempo acumulava com o de chairman da companhia, cometeu um erro crasso. Anunciou, a 7 de Agosto, que pretendia retirar a Tesla da bolsa, pagando 420 dólares por acção, e que tinha garantido os fundos necessários para a operação. A SEC, essencialmente a versão americana do nossa CMVM, investigou a veracidade da afirmação e, se encontrou conversas e manifestações de interesse, com o fundo soberano saudita (reuniu-se a 31 de Julho com o director deste fundo árabe, Yasir al-Rumayyan) e a Volkswagen, entre outros, não viu nada de definitivo ou contratos, o que a levou a acusar Musk e a Tesla de agir em desacordo com as regras da SEC. Apesar de ter ficado provado que nem o CEO nem a Tesla retiraram qualquer benefício do anúncio extemporâneo, tiveram ambos de ser penalizados, pois não são permitidas “ligeirezas” com os reguladores de Wall Street.

Da lista de penalidades fizeram parte duas multas de 20 milhões de dólares, à Tesla e a Musk (uma ligeira “reprimenda” para um indivíduo cuja fortuna, segundo a Forbes, está avaliada em 19 mil milhões de dólares), além da impossibilidade de Musk continuar a acumular as funções de CEO e chairman da Tesla, nos próximos três anos. O fabricante americano de veículos eléctricos teria igualmente de colocar no conselho de administração dois novos membros independentes, uma vez que a SEC desconfiava que os nove que lá estavam eram demasiados fiéis a Musk, sendo um deles o seu irmão Kimbal.

Teoricamente, estas penalizações podem parecer castradoras para Musk, mas não é evidente que assim seja. A nova chairman é a australiana Robyn Denholm, que já passou pela Toyota, é executiva da Telstra (a maior empresa australiana de telecomunicações) e era até Novembro, quando ascendeu a presidente do conselho de administração da Tesla, membro da administração e responsável pelo seu comité de auditoria, que entre outros temas aprovou a privatização. Dificilmente Musk poderia encontrar um chairman, cujo poder é diminuto nas operações do dia-a-dia da empresa, mais seu apoiante do que Denholm, ela que acredita que, nesta fase, sem Musk não havia futuro para a Tesla.

Por outro lado, Larry Ellisson, fã confesso de Musk, tem hoje 74 anos, tendo-se remetido há algum tempo para a posição de chairman e chief technology officer da Oracle, para ter mais tempo para se divertir com os barcos da America’s Cup, prova que venceu, e uma série de outros “brinquedos” que possui, entre os quais estão dois aviões militares de combate. Contudo, segundo vários analistas, são ambos muito similares enquanto CEO. Competentes e dedicados 100% às empresas que fundaram e que controlam, ao possuir uma parte significativa do capital, são os dois conhecidos por serem polémicos, dando-se ao luxo de dizer o que pensam, seja sobre a concorrência ou a própria SEC, sem os filtros a que nos habituaram indivíduos com as suas responsabilidades.

Em Outubro, quando adquiriu 3 milhões de acções da Tesla – um investimento que rondou os 1.000 milhões de dólares – Ellisson afirmou não só que é “muito amigo de Elon Musk”, como é ainda “um grande investidor da Tesla”, criticando de seguida a imprensa pela cobertura negativa que faz das empresas do seu amigo, especialmente Tesla e SpaceX. Nesse mesmo encontro com a imprensa, que decorreu durante o lançamento de mais um foguetão da SpaceX, Larry Ellisson não se inibiu de atacar os jornalistas: “Este tipo lança foguetões, consegue aterrá-los em plataformas comandadas à distância no oceano, o que eu acho o máximo, e vocês estão a dizer-me que ele não sabe o que faz? Então quem é que mais anda a aterrar foguetões? Quem são vocês?”

Se este era o tipo de defesa que Ellisson fazia de Musk, ainda antes de estar na administração da empresa onde investiu mil milhões de dólares, como será a partir de agora? E se a SEC achou que os novos administradores iriam controlar Musk, nos seus comentários coloridos – e por vezes despropositados -, corre o risco de passar a ter não um, mas dois “inconvenientes” na mesma administração. Ainda por cima, amigos.

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