Em maio de 2014, o boxe mundial teve um combate que ficou conhecido como “The Moment”. De um lado estava o argentino Marcos Maidana, com um registo de 35 vitórias e três derrotas que levava uma série de quatro triunfos consecutivos a ganhar ou defender títulos; do outro, o americano Floyd Mayweather, na altura com uma série de 45 vitórias desde que passara a ser atleta profissional. Na MGM Grand Garden Arena, em Las Vegas, cheia como era habitual. O triunfo caiu para o pugilista conhecido por “The Money” por decisão dos árbitros mas já aí se notava uma diferença entre Mayweather e os outros – recebeu um total de 32 milhões de dólares, contra apenas 1,5 milhões do sul-americano. Na sua casa no Japão, com apenas 14 anos, Tenshin Nasukawa assistiu a tudo pela TV e partilhou nas suas redes sociais; quatro anos e meio depois, chegou a vez dele.

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16 meses após a mediática luta com Conor McGregor, Mayweather, hoje com um registo invicto em 50 combates, volta aos ringues para um modelo diferente de exibição, com apenas três rounds de três minutos e sem título em disputa. O dinheiro acabou por falar mais alto e o americano, que vai receber de novo uma fortuna por menos de dez minutos de atividade a fazer o que mais ninguém como ele sabe, defronta aquela que é a maior figura dos desportos de luta japonesas. Sim, é verdade, depois de um lutador de MMA que se adaptou às regras do boxe, também Nasukawa entra nesse campeonato sendo um atleta até agora invicto nos 28 combates que fez… no kickboxing. Mas quem é este “Ninja Boy” de 20 anos com cara de miúdo e idade para ser filho de Mayweather que diz ser capaz de levar o multicampeão ao tapete em Saitama, a norte de Tóquio?

Nascido em Chiba, desde miúdo que Nasukawa esteve ligado às artes marciais, tendo começado com apenas cinco anos no karaté com o pai, que também é o seu treinador. Pouco depois, experimentou o kickboxing e por lá ficou, com números anormais para alguém tão novo: fez mais de 100 combates como amador até aos 18 anos, ganhando 99 e averbando apenas cinco derrotas. Era o melhor naquela modalidade, andou sempre a ser cobiçado por outras; uma delas, o boxe: desde os 12 anos que recebe abordagens pelo Hall of Fame Akihiko Honda, recusou uma oferta de mais de 100 mil dólares de prémio à cabeça com 14 anos mas admitiu a possibilidade de conciliar com o kickboxing no Japão com o boxe em termos internacionais (no seu país só pode estar inscrito numa modalidade) e só não vai aos Jogos Olímpicos de 2020 porque recusou combater com o amigo e antigo companheiro de equipa Hayato Tsutsumi. Já fez também quatro combates de MMA, sempre a ganhar.

Nunca houve um lutador japonês a enfrentar o Floyd Mayweather num ringue. Como atleta, é uma grande honra e um enorme desafio mas quero deixar uma grande impressão. Regras? Para mim é igual, quero ser o homem que muda a história com estes punhos. Japoneses, oiçam bem: vou conseguir mandá-lo ao chão”, comentou na antecâmara do combate.

Como profissional, no kickboxing, leva um registo perfeito de 28 triunfos noutros tantos combates. Num deles, Nasukawa defrontou um português, Fred Cordeiro, em março de 2016 (e esse foi apenas um dos quatro duelos que teve decidido por decisão dos árbitros, neste caso de forma unânime), mas foram outras vitórias que o levaram ao estrelato: com o tailandês Amnat Ruenroeng, antigo campeão mundial de boxe, e com o também tailandês Wanchalong PK Senchaigym, que era campeão mundial de muay thai. Tudo numa altura em que estava ainda a concluir o secundário, tendo acumulado antes desse trajeto o título de campeão júnior de karaté… porque desde os dez anos que não consegue estar muito tempo sem combater.

https://www.youtube.com/watch?v=lJWsEtT_9z0

As primeiras reações ao combate de exibição com Mayweather não foram propriamente as melhores. Aliás, houve quem gozasse com o seu tamanho, com o seu cabelo descolorado e com a sua cara de miúdo. McGregor, ao ver a fotografia do anúncio do duelo, perguntou quem era o pequenito que estava ao lado do americano; já o rapper 50 Cent, que não perde uma oportunidade para comentar este tipo de situações, comparou o campeão de kickboxing a um motorista da Uber. No entanto, há cada vez mais interesse na figura deste lutador japonês que tão depressa tem o cabelo loiro como pinta a parte de cima de azul. Aliás, a sua própria maneira de ser tende a atrair mais atenções que abrem agora um futuro promissor em termos mediáticos. Para já, é uma entrevista à publicação Mixed Martial Arts, com respostas a dez perguntas mais fora da caixa, que prende o foco.

Mayweather esteve sempre em espírito de “apresentação” nas conferências mas japonês quer algo mais (BEHROUZ MEHRI/AFP/Getty Images)

Pessoa que mais admira? “Não admiro ninguém, é uma perda de tempo”. Se fosse um animal, o que seria? “Uma barata, porque tem uma habilidade muito grande para a sobrevivência”. O que lhe causa mais medo? “Os fantasmas, são muito esquisitos”. Que três objetivos não dispensaria? “Telemóvel, cinto de campeão e roupas”. Existe vida fora do planeta Terra? “Sim, de certeza. E acredito que eles estiveram cá antes de nós”. Se existe algo que Nasukawa, que se tornou lutador por ter crescido a ver combates e achar que seria uma boa maneira de ganhar a vida, não pode ser acusado é de não ter ideias muito próprias. E aos 20 anos já tem inclusive uma biografia oficial, com o título “Kakusei” (ou “Despertar”, em português).

Sempre muito ativo nas redes sociais, o japonês, fã do melhor da banda desenhada do país (Manga), tão depressa faz montagens suas na pele do Utraman ou do Harry Potter como partilha imagens de alguns dos seus ídolos. No futebol, por exemplo, a escolha não recai nem em Ronaldo nem em Messi mas sim em Neymar. Agora, as atenções estão centradas no combate que irá acontecer na noite de Fim de Ano, tendo para isso feito trabalho específico com o venezuelano Jorge Linares, que perdeu recentemente o título da sua categoria de boxe para o ucraniano Vasyl Lomachenko. Objetivo? Saber como fintar a defesa de Mayweather. Pode ser apenas um combate de exibição mas Nasukawa sonha que se torne muito mais do que isso.