Cada hora que passava, cada crítica que se fazia ouvir. O mundo do boxe não passou ao lado do combate de exibição que Floyd Mayweather iria protagonizar no Japão neste último dia do ano e, de uma maneira ou outra, foram vários os elementos ligados à modalidade que foram manifestando contra algo que poderia afetar a própria modalidade. No fundo, e algumas questões pessoais à parte, este novo desafio do campeão invicto americano era tido como um ultrapassar da fronteira entre o que é um desporto e o que se resume apenas a um entretenimento. De uma forma muito própria, The Money deu a sua resposta.

Chegou a temer-se em Saitama que Mayweather pudesse mesmo não aparecer. As horas passavam e nem sinal do lutador com o registo invicto de 50 vitórias noutros tantos combates. Uma, duas, três. O americano, que ia publicando várias mensagens nas suas redes sociais para que os fãs se juntassem no seu clube de striptease para verem o combate, lá acabou por aparecer, com a imprensa local a justificar o atraso com o facto de se ter distraído numa festa. Verdade ou mind game, surgiu descontraído, sem grandes preocupações com o que se passava à sua volta e ainda se divertiu mais quando um elemento da equipa do adversário, o japonês Tenshin Nasukawa, se deslocou à zona onde lhe estavam a ligar as mãos para garantir que tudo estava a ser feito segundo o que tinha sido acordado. O que, na verdade, não aconteceu – tinha ficado combinado, por exemplo, que utilizaria luvas próprias da organização mas optou pela marca que o tem acompanhado em todos os combates.

Também na entrada deu nas vistas. Rodeado pelos vários elementos que fazem parte da sua Team Money e com o filho a cantar um rap, surgiu com uma máscara a caminho do ringue. Durante os hinos, não tirou o chapéu e andou de sorriso nos lábios a dar voltas em forma de aquecimento. Parecia que estava quase a “gozar” com a situação. Até aqui, Floyd foi Mayweather: a quebrar regras, a deixar a sua marca de excentricidade, a querer mostrar-se diferente de todos os outros. Depois, com um enorme atraso, lá começou o combate – que, novidade, acabou mesmo por ter árbitro. E bastaram 138 segundos (que a organização passaria mais tarde, no final de todas as contas sobre o combate, para 139) para arrecadar 77 milhões de euros, segundo a imprensa local.

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Nasukawa tinha uma característica que poderia ser complicada para Mayweather: a rapidez de movimentos típica de alguém que também é um campeão invicto mas de kickboxing. E o japonês teve mesmo treinos com alguns antigos campeões de boxe, para tentar encontrar formas de contornar a boa defesa do americano. No entanto, do início ao fim (depois de um arranque quase de gozo…), foi um autêntico arraso: The Money conseguiu levar três vezes o nipónico ao tapete e a equipa atirou a toalha ao chão perante as lágrimas do jovem de 20 anos que não queria desperdiçar a oportunidade de ser o primeiro do seu país a defrontar o campeão. Não só desaproveitou como foi “vítima” da outra mensagem que Mayweather queria deixar – aceitando ou não combates de exibição que lhe rendem verdadeiras fortunas, não deixa de ser um dos melhores de sempre na modalidade.

“Quero agradecer a todos os presentes, tudo isto tem a ver com entretenimento e passámos um bom bocado. Quero também agradecer a Deus por este momento e por este momento. Tóquio, obrigado! Nós somos o passado, o presente e o futuro do entretenimento no desporto. Todos vocês foram fabulosos, obrigado. Quero também agradecer ao Tenshin. Isto não apaga o registo invicto que tem, continuamos os dois sem perder e ele é um grande campeão, um grande lutador que merece ser apoiado por todos os fãs em todo o mundo. Ainda estou retirado e não penso voltar ao boxe, só voltei pelo entretenimento das pessoas no Japão”, disse ainda no ringue, quando lhe passaram o microfone após o triunfo.

Mayweather não deu hipóteses a Nasukawa mas “consolou” o japonês no discurso após o triunfo (TOSHIFUMI KITAMURA/AFP/Getty Images)

Alguns comentadores destacaram o “impressionante desempenho” de Mayweather num combate para o qual não teve uma grande preparação mas onde teve golpes como o melhor que fez ainda no ativo, mas a maioria dos comentários foi alternando entre a “farsa”, pela falta de réplica que Nasukawa durante os menos de três minutos de ação, e a “comédia”, pela forma como o americano conseguiu arrasar o nipónico com um par de movimentos mais fortes. No meio disso, e como já tinha sido avançado pela imprensa japonesa citando fontes não oficiais, o antigo campeão ganhou um total de 77 milhões de euros, entre cachet de presença no combate (nove milhões), publicidade, bilhética e direitos televisivos. Ou seja, cerca de 558 mil euros por cada segundo que o combate na Saitama Super Arena (cheia com 37 mil espetadores) acabou por ter…

“Isto foi um não evento, não é um evento desportivo. Parece mesmo uma piada, não é? Ele precisa de dinheiro para o Natal e para o Ano Novo e esta é uma uma boa forma de conseguir. Deus sabe bem que o Floyd precisa sempre de dinheiro”, disse Bob Arum, empresário e promotor de boxe americano. “Foi uma brincadeira”, comentou o antigo campeão britânico Amir Khan.