Boxe

Mayweather vai receber 142 mil euros por segundo num combate de nove minutos (mas pode ter mais a perder)

16 meses depois, Mayweather volta aos combates para uma exibição de boxe em nove minutos com um campeão de kickboxing que lhe vai render quase 77 milhões de euros. Mas será que sai mesmo a ganhar?

Floyd Mayweather e Tenshin Nasukawa na apresentação do combate que se realiza esta segunda-feira em Saitama, no Japão

AFP/Getty Images

Depois do duelo com Conor McGregor, o 50.º numa carreira como profissional de quase duas décadas onde nunca soube o que era perder e teve dois regressos da reforma pelo meio, Floyd Mayweather demorou um mês para abrir como nunca o seu livro sem fim de excentricidades: comprou uma mansão nova em Beverly Hills (com seis quartos, nove casas de banho, sala de cinema para 20 pessoas, ginásio, piscina e casa de hóspedes), encheu uma das paredes da sala de jantar com algumas das garrafas de vinho mais caras do mundo mesmo não bebendo, foi investindo no seu clube de striptease, o Girl Collection. Em setembro de 2017, voltara à ribalta, mas a hipótese de regressar aos ringues parecia arrumada de vez. Que não está: esta noite, irá receber cerca 77 milhões de euros por um combate de exibição de nove minutos com o japonês Tenshin Nasukawa. Ou seja, o equivalente a 142 mil euros por segundo. E com isso até pode ter mais a perder do que a ganhar para os anos que aí vêm.

Tem mais a perder porque deixou que uma oferta milionária (onde se incluem não só os direitos de presença, mas outras receitas diretas e indiretas daí advindas, de acordo com a imprensa local) para nove minutos de um quase treino escalasse e muito em termos mediáticos. Tem mais a perder porque se colocou a jeito da crítica, num papel com o qual outrora chegou mesmo a gozar. Tem mais a perder porque, sobretudo, aceitou fazer parte e como protagonista daquilo que muitos consideram ser um “circo”. Ou, numa outra perspetiva, são os seus rivais mais diretos que poderão ganhar: em 2019, será possível recusar um combate que meta pelo meio a invencibilidade e os títulos depois de aceitar fazer número com o kickboxer japonês?

“Tenho a certeza que ele [Nasukawa] está a levar o combate muito a sério, que tem trabalhado muito no ginásio. Eu não tenho feito muito isso porque basicamente consigo estar pronto três rounds a dormir, sem treinar”, relativizou o americano de 41 anos, que tem mais 21 do que o adversário nipónico que enfrentará nesta noite de Fim de Ano num evento organizado pela Rizin Fighting Federation, o equivalente japonês ao MMA, na Super Arena de Saitama com capacidade para 37 mil espetadores.

Mayweather mostrou-se particularmente bem disposto na conferência de apresentação do combate (BEHROUZ MEHRI/AFP/Getty Images)

Ainda assim, este acaba por ser um fim de 2018 improvável para o pugilista que voltou a estar na ribalta e nem sempre pelos melhores motivos mas termina da forma com que tinha começado o ano, na primeira mensagem que partilhou nas suas redes sociais: “Todos gostam de dizer Feliz Ano Novo, eu gosto de dizer ‘Sou feliz por conseguir novo dinheiro todos os anos'”.

Depois de mais uma festa milionária para comemorar o seu 41.º aniversário, em fevereiro (que contou com convidados como Mariah Carey, Jamie Foxx, DJ Booth, Wiz Khalifa, Bobby Brown, John Singleton, Stephen Belafonte ou Laura Govan), onde quis também mostrar o novo Rolls Royce que custou mais de 370 mil euros, Mayweather “apresentou” o seu novo avião privado e mais uma das suas excentricidades conhecidas: um relógio que custou cerca de 15 milhões de euros. No entanto, nem tudo foi festa na vida do pugilista, que apanhou um susto em abril quando, depois de sair de uma discoteca em Atlanta, viu um dos três carros da sua “caravana” ser baleado na estrada de madrugada, o que deixou ainda um dos seus seguranças ferido numa perna.

Floyd Mayweather, tal como o DJ Khaled, foram também multados pela Comissão de Bolsa e Valores dos Estados Unidos, acusados de promover a compra de criptomoedas nas redes sociais. No caso do primeiro, a multa foi de 530 mil euros. Cá fora, houve algo que claramente mexeu com o orgulho do americano. As trocas de farpas com o rapper 50 Cent já se tornaram quase uma regra e se um apresenta um carro milionário, na semana seguinte há sempre resposta do outro. Neste caso, em relação a Canelo Álvarez, mexicano que assinou um contrato milionário para fazer 11 combates em cinco anos a troco de 315 milhões de euros, há uma questão de ego e domínio do boxe mundial (e das suas receitas) que apimenta essa disputa.

“Foi o combate mais fácil que tive na minha carreira, o Conor McGregor é muito melhor do que essa trampa do Canelo. Eu levo 36 minutos ou menos para ganhar mais de 300 milhões de dólares, eu consigo isso numa noite e num combate e tu precisas de cinco anos e 11 combates. Afinal, quem é que continua a ganhar?”, escreveu Mayweather numa das várias publicações que foi fazendo com fotos desse combate entre ambos, em 2013. “Gostava de ter uma desforra mas ele é um lutador retirado, que volta e não volta, está sempre com as suas coisas… Sabemos como é mas se houver essa possibilidade e se ele quiser, ficarei encantado. Para o boxe seria muito bom. Assim também daria algo de bom ao boxe, já que ultimamente a única coisa que tem feito é diminuir a sua reputação com as lutas que tem feito. A desforra até seria boa para ele”, respondeu Canelo.

Durante anos a fio, Floyd Mayweather, um dos melhores atletas de sempre, deu sempre passos que podiam ser mais ou menos percetíveis mas que, no final, acabavam por fazer sentido; agora, talvez pela primeira vez, ninguém consegue perceber ao certo o que passou pela cabeça do americano (questão financeira à parte, claro). O americano que até tinha aberto a porta a uma possível desforra mas com Manny Pacquiao, naquele que em maio de 2015 foi o combate mais lucrativo de sempre, colocou-se agora numa posição onde é legítimo perguntar o porquê de qualquer duelo que decida aceitar. Para já, ainda há nove minutos a 142 mil euros por segundo. E dificilmente não será um Fim de Ano bem passado pelo campeão mundial invicto.

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