A imprensa brasileira fala num “gesto inédito na história recente do país”. Quebrando as normas protocolares, a nova primeira-dama do Brasil, Michelle Bolsonaro, discursou antes do marido e no presidente no púlpito montado no exterior do Palácio do Planalto, onde Jair Bolsonaro fez o seu primeiro discurso como chefe de Estado à população.

Michelle Bolsonaro surpreendeu não apenas por discursar — foi a primeira na história do país a fazê-lo, refere o Estadão –, mas também pelo modo como o fez: expressou-se em LIBRAS – língua brasileira de sinais. Os gestos da primeira-dama foram traduzidos em voz alta por uma intérprete, invertendo-se a lógica de seguida no discurso do marido, que falou ao microfone e viu o discurso traduzido por um intérprete de língua gestual.

No discurso, além de falar através de gestos, Michelle Bolsonaro dirigiu-se aos brasileiros que são incapazes de ouvir: “”Gostaria de me dirigir de forma especial à comunidade surda e de deficientes: vocês serão ouvidos”, referiu, aludindo ao “trabalho de ajuda que sempre fez parte da minha [sua] vida” e que pode agora “ampliar de maneira significativa” com os novos poderes. A intérprete dos gestos de Michelle Bolsonaro, que traduzia as expressões gestuais para palavras em voz alta, chegou a emocionar-se, enquanto traduzia as ideias da primeira-dama.

Além de se dirigir à comunidade surda e deficiente, Michelle Bolsonaro fez uma leitura dos resultados das últimas eleições, dizendo que “o cidadão brasileiro quer segurança, paz e prosperidade” e garantindo que no Brasil “todos são respeitados”. A primeira-dama agradeceu ainda todos os que apoiaram o novo presidente brasileiro quando este passou por “momentos difíceis”, referindo-se ao esfaqueamento a Bolsonaro na campanha eleitoral: “Agradeço também a todos aqueles que demonstraram a sua solidariedade pelos momentos difíceis pelos quais o meu esposo passou recentemente. Agradeço à população brasileira pelas orações que nos deram tanta coragem para seguir adiante “.

Estamos todos de um lado só. Juntos alcançaremos um Brasil com educação e liberdade para todos”, referiu ainda Michelle Bolsonaro, num discurso brevemente interrompido com dois beijos trocados com o marido, depois de o tratar como “amado esposo, o nosso presidente”.

A primeira-dama quebrou todos os protocolos ao discursar no Palácio do Planalto, nas cerimónias de posse do seu marido como novo presidente do Brasil. Durante o discurso, chegou a fazer uma pequena pausa para beijar Jair Bolsonaro (EVARISTO SA/AFP/Getty Images)

O “tio surdo” e o trabalho com a comunidade

Nascida em Ceilândia, uma cidade a 26 quilómetros de Brasília, Michelle de Paula Firmo Reinaldo Bolsonaro tem atualmente 38 anos e um histórico de colaboração com a comunidade surda e com comunidades necessitadas do país, que ajuda a explicar a opção por discursar em língua brasileira de sinais. Curiosamente, a colaboração com a comunidade surda até se terá intensificado depois de um desaguisado entre o marido e o fundador e pastor da igreja que Michelle frequentou até 2016, a Assembleia de Deus Vitória em Cristo (Advec).

Na igreja liderada pelo pastor Malafaia, Michelle Bolsonaro — que na juventude fizera já voluntariado na Bahia — tornou-se inicialmente conhecida por colaborar com obras sociais e na integração social de mulheres com problemas e necessidades, num programa  chamado “Mulheres Virtuosas”. Quando o marido teve um diferendo (ainda não inteiramente explicado) com o pastor, Michelle Bolsonaro acabou por abandonar a igreja, passando a frequentar a Igreja Batista Atitude.

Apesar da ligação com a língua gestual vir de família — tem um tio surdo, que a ajudou a aprender a falar LIBRAS — foi na comunidade religiosa que a acolheu nos últimos três anos, localizada na Barra da Tijuca, na zona oeste do Rio de Janeiro, que Michelle intensificou o seu trabalho social com estas comunidades, trabalhando por exemplo como tradutora das palavras proferidas nos cultos dominicais desta igreja.

A importância que Michelle Bolsonaro tem dada à comunidade surda tinha-se já refletido na campanha presidencial do marido. A 26 de setembro, dia nacional do surdo, a página de campanha de Bolsonaro nas redes sociais publicou um vídeo da atual primeira-dama a comunicar em língua gestual. Os discursos de Bolsonaro enquanto candidato também eram traduzidos por um intérprete de LIBRAS que o acompanhava, e a primeira-dama já havia comentado a sua ligação à comunidade surda durante a campanha: “Tenho um tio surdo e foi ele que plantou essa sementinha na minha vida. Despertou o meu amor pelas LIBRAS, fui estudar, aprendi sozinha e esse amor só foi aumentando”.

O jornal de Curitiba Gazeta do Povo escreve que “se  Michelle vier mesmo a assumir certo protagonismo no novo governo, teremos o resgate de uma tradição interrompida neste século. No Brasil, a primeira-dama tem uma função protocolar. Ela é não obrigada por lei a se envolver em funções públicas, mas, tradicionalmente, ocupa posições ligadas a causas sociais”. A primeira-dama “já afirmou que pretende participar de ‘todos os projetos sociais possíveis’ durante o mandato de seu marido”, acrescenta o jornal.