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Eleições no Brasil

Contra a ideologia, o socialismo e os protocolos, o “mito” Bolsonaro começou a tornar-se realidade esta terça-feira

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Os discursos não fugiram aos de campanha, o desfile foi num carro "aberto" (apesar das preocupações de segurança) e Michelle a protagonista inesperada. Eis o filme da posse de Bolsonaro, cena a cena.

Jair e Michelle Bolsonaro deslocaram-se sempre num carro (um Rolls Royce presidencial, utilizado desde os anos 1950) aberto, saudando a população. Ele envergava um colete à prova de bala por baixo do fato

ANTONIO LACERDA/EPA

A cerimónia de posse do novo presidente do Brasil, esta terça-feira, decorreu como é habitual em Brasília, a capital do país. Como também é habitual, foi duradoura — começou a meio da tarde e terminou já de noite. Teve um primeiro grande momento quando Bolsonaro jurou cumprir a constituição, foi empossado e falou pela primeira vez como presidente no edifício do Senado e um segundo grande momento com o discurso habitual do novo presidente no púlpito exterior (o “parlatório”) do Palácio do Planalto, a que se seguiu um “cocktail” no Palácio do Itamaraty, a sede do Ministério dos Negócios Estrangeiros brasileiro.

Popular para alguns (que o elegeram), populista para outros (que se lhe opuseram), Jair Bolsonaro divide o país. Iniciou o mandato com mais de meia centena de delegações internacionais presentes, ao som de gritos de “Mito” (vindos de apoiantes), quebrando protocolos e tendo um grande alvo na mira dos discursos: “a ideologia do socialismo”. Este foi o filme das cerimónias de posse do novo presidente, cena a cena.

O primeiro desfile (num Rolls Royce “aberto”)

Sabia-se que nas cerimónias de posse do novo presidente do Brasil estariam presentes delegações vindas de 60 países, entre os quais Portugal, que se fez representar ao mais alto nível com o presidente da República Marcelo Rebelo de Sousa. Sabia-se, também, que as cerimónias começariam entre as 16h30 e 16h45 portuguesas, com um desfile de um cortejo presidencial em direção ao edifício do Congresso de Brasília.

O que não se sabia era como é que a comitiva presidencial faria a viagem — se com o carro “aberto” e o futuro presidente a acenar à população ao longo da viagem, se mais escondido no interior do carro por motivos de segurança, dado que a animosidade de parte da população brasileira tinha-se revelado de forma violenta durante a campanha eleitoral, motivando um esfaqueamento a Bolsonaro na cidade de Juiz de Fora, no estado de Minas Gerais.

Bolsonaro optou por fazer a viagem com o Rolls Royce da presidência aberto, com um colete à prova de bala, mostrando-se e acenando aos apoiantes durante o caminho, viajando com motorizadas de “batedores” à sua frente, outros carros atrás de si, cavalos que acompanharam o desfile e seguranças que fizeram o percurso a pé e em corrida, ao lado do carro.

O novo presidente do Brasil tinha sido aconselhado a não se mostrar durante o cortejo, para evitar algum ataque à distância, mas Bolsonaro preferiu viajar com “carro aberto”. Não se registaram quaisquer incidentes, a não ser uma pequena manifestação de nervosismo de um dos cavalos que acompanhava o cortejo, que fez abrandar o carro.

O primeiro discurso no Congresso e o juramento à Constituição

Foi com firmeza na voz que Jair Bolsonaro prometeu cumprir a Constituição brasileira, na câmara dos deputados, localizada no edifício do Congresso Nacional em Brasília. Ainda mais firmeza na voz teve o seu vice-presidente, o general Hamilton Mourão, que ao cumprir jurar a Constituição no mesmo local fê-lo com a voz a um volume inusitado (bastante alto).

O novo presidente do Brasil assinou o chamado “termo de posse”, que o tornou presidente legítimo do Brasil até ao final do mandato a 31 de dezembro de 2022. Seguiu-se o primeiro discurso, antecededido e sucedido com alguns risos e algumas palavras trocadas com os deputados do parlamento que assistiam ao momento (e que, na sua maioria, o aplaudiram à chegada).

No seu primeiro discurso como presidente do Brasil, Bolsonaro prometeu ser “curtinho” e falou apenas perto de dez minutos. Começou por agradecer a Deus “por estar vivo” (depois de ter sido esfaqueado no estado de Minas Gerais, durante a campanha), traçou um cenário negro de um país na “maior crise ética, moral e económica da nossa história” e anunciou a vontade de libertar o Brasil “do jugo da corrupção, da criminalidade, da irresponsabilidade económica e da submissão ideológica”.

Bolsonaro no edifício do Congresso, onde prestou juramento e foi empossado presidente (Marcelo Chello/EPA)

Bolsonaro garantiu ainda que “o Brasil voltará a ser um país livre de amarras ideológicas” e prometeu “partilhar o poder de forma progressiva, responsável e consciente”. Fez mais: prometeu às pessoas “boas escolas, capazes de preparar os seus filhos para o mercado de trabalho e não para a militância política”, defendeu a liberalização da posse de armas dizendo que “o cidadão de bem merece dispor de meios para se defender” e prometeu “combater a ideologia de género” e, na economia, estimular “a concorrência, a produtividade e a eficácia sem enviesamento ideológico”.

Numa primeira quebra de protocolos, o novo presidente do Brasil cumprimentou mais cedo do que o esperado alguns chefes de Estado e primeiros-ministros internacionais, que estavam na primeira fila — desde logo o o primeiro-ministro de Israel Benjamin Netanyahu e o presidente do Chile Sebastián Piñera. Abraçou ainda o ex-presidente do Brasil José Sarney. Recorde-se que a igreja evangélica brasileira — que na sua maioria apoiou o novo presidente quando era candidato — tem uma ligação afetiva forte com Israel.

O Presidente da República português Marcelo Rebelo de Sousa foi ao Brasil assistir à posse de Bolsonaro como presidente do Brasil (AFP/Getty Images)

O primeiro discurso de Bolsonaro como presidente foi muito elogiado por um chefe de Estado que não esteve presente em Brasília. O presidente dos EUA Donald Trump, uma das referências políticas de Bolsonaro, publicou uma mensagem no twitter elogiando o “grande discurso inaugural”: “Parabéns ao presidente Jair Bolsonaro, que acabou de fazer um grande discurso de inauguração — os Estados Unidos estão consigo!”, referiu.

Bolsonaro respondeu a Trump, em inglês e em português: “Senhor Presidente Trump, agradeço suas palavras de apoio. Juntos, sob a proteção de Deus, traremos mais prosperidade e progresso para nossos povos!”.

O discurso no Palácio do Planalto e o protagonismo inesperado da primeira-dama

Ao longo da tarde, ouviram-se muitos gritos de apoiantes, que proclamaram a palavra “mito” para festejar a ascensão ao poder do homem. O grito até se ouviu na Câmara dos Deputados, no edifício do Congresso brasileiro, e propagou-se por vários locais de Brasília à passagem de Bolsonaro. Depois do primeiro discurso, o novo presidente passou revista às tropas militares, voltou a ouvir o hino nacional, viu aviões da Força Aérea Brasileira sobrevoarem a área como cumprimento ao novo presidente (e, consequentemente, novo comandante supremo das Forças Armadas) e ouviu uma salva de 21 tiros de canhão em frente ao edifício do Congresso. Daí, dirigiu-se com a mulher Michelle à nova residência oficial da presidência, no palácio do Planalto.

No palácio do Planalto, a que chegou com praticamente meia hora de atraso, Jair Bolsonaro foi recebido pelo anterior presidente, Michel Temer (que ascendeu ao cargo devido à destituição da anterior presidente Dilma Rousseff), que o recebeu com um abraço e manifesta camaradagem. Foi já no “parlatório”, um púlpito exterior em que os novos presidentes falam às multidões que se dirigem ao local para o ouvir, que Temer depositou em Bolsonaro a faixa de presidência, depois de gritos de “Ô, o capitão chegou” (já ouvidos na revista aos militares). Num gesto para alguns popular, para outros populista, Bolsonaro apontou para a faixa de presidência e depois para as pessoas que o ouviam, como que indicando que a faixa pertencia à população.

Esperava-se, então, que Jair Bolsonaro fizesse um discurso mais longo, dirigido à população. O novo presidente do Brasil, porém, tinha uma surpresa preparada: em vez de começar a discursar, deu primeiro a palavra à sua mulher, a primeira-dama Michelle Bolsonaro. Nunca uma primeira-dama tinha falado à população no “parlatório” do Palácio do Planalto, no dia de posse de um novo presidente. Mas Michelle falou mesmo à população, e em LIBRAS, o português do Brasil em linguagem gestual, devido ao seu interesse e dedicação antigos à comunidade surda.

O segundo discurso de Jair Bolsonaro foi ainda mais duro: depois de prometer que este era o dia “em que o povo começou a libertar-se do socialismo”, do “gigantismo estatal” e do “politicamente correto”, depois de ser interrompido pela população com gritos de “mito” e desfraldar uma bandeira do Brasil, Bolsonaro atacou as “ideologias nefastas”: “Não podemos deixar que ideologias nefastas venham dividir os brasileiros. Ideologias que destroem os nossos valores e tradições, destroem as nossas família, alicerce da nossa sociedade”. O novo presidente do Brasil causou alguma surpresa quando, empunhando uma bandeira do Brasil, afirmou que esta “não é vermelha” e defendeu que faz sentido “derramar sangue, se for necessário”, para manter a bandeira “verde e amarela”.

A corrupção, os privilégios e as vantagens têm de acabar. Os favores politizados e partidarizados devem ficar no passado, para que o Governo e a economia sirvam de verdade toda a nação. Tudo o que propusemos e tudo o que faremos a partir de agora tem propósito comum e inegociável: os interesses dos brasileiros em primeiro lugar. O brasileiro pode e deve sonhar com uma vida melhor”, referiu também Bolsonaro, prometendo ainda “acabar com a ideologia que defende bandidos e criminaliza policiais”.

Seguiram-se então os cumprimentos oficiais a chefes de Estado internacionais. O Presidente da República Português Marcelo Rebelo de Sousa foi o terceiro chefe de Estado a ser cumprimentado por Jair Bolsonaro, depois do presidente do Uruguai Tabaré Vázquez e do presidente do Paraguai Mario Abdo Benítez. Aos jornalistas em Brasília, Marcelo revelou-se depois satisfeito com o “relevo que Portugal mereceu protocolarmente” nas cerimónias, nomeadamente “no Congresso e no alinhamento dos cumprimentos, em que Portugal ficou em terceiro lugar, por uma questão de antiguidade de chefes de Estado, chefes de Governo e ministros dos Negócios Estrangeiros”.

As cerimónias culminaram depois com a cerimónia de posse dos 21 ministros escolhidos por Jair Bolsonaro para o seu Governo, com a fotografia oficial do novo executivo do Brasil, com a saída do cortejo presidencial rumo ao Palácio Itamaraty (sede do Ministério dos Negócios Estrangeiros brasileiro) e com um cocktail privado neste palácio, em que Bolsonaro recebeu 2.500 convidados.

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