A presidente da câmara de Almada e antiga vice-presidente da bancada parlamentar do PS, Inês de Medeiros, considera “preocupante” que os deputados interrompam a sua carreira profissional para ir para a Assembleia da República e depois alguns destes eleitos saiam do hemiciclo e não tenham “direito a nada.” Em entrevista ao Público e à Rádio Renascença, a autarca adverte que a “desvalorização da passagem por deputado faz com que haja deputados que deixam de ser deputados e não têm direito a nada, nem sequer a um fundo de desemprego.”

Para Inês de Medeiros o facto de não existir uma garantia para os deputados após saírem do Parlamento — recorde-se que o subsídio de reintegração dos deputados acabou em 2005 por via da maioria socialista liderada por Sócrates — é algo “que pode fomentar a corrupção e o facto de os deputados terem vários empregos”. E acrescenta: “Isto deve ser dito claramente. O que é que alguém tem por se dedicar a certa altura à causa pública sem arruinar a sua vida? Estas são as questões essenciais”.

Sobre os últimos casos que afetaram a credibilidade dos deputados, a antiga deputada socialista — que também viu o seu nome envolvido em polémica por receber ajudas de custo como se vivesse permanentemente em Paris — diz que “evidentemente que os deputados têm que dar o exemplo, mas há uma desvalorização permanente do que é o trabalho parlamentar e isso é muito perigoso“.

Inês de Medeiros disse ainda ser “adepta” da geringonça, embora em Almada tenha preferido o PSD para ter uma maioria no executivo — por razões que se percebem no xadrez político de Almada, onde o PCP e PS são os grandes adversários. A autarca antecipa “um ano infernal“, que espera que não deite tudo a perder. “É ano de eleições, com imensas greves, cada um vai querer marcar a sua diferença. Mas era bom que este ano de campanha não viesse estragar a extraordinária vitória que foram estes anos de legislatura, até pela valorização do Parlamento que recuperou uma certa centralidade”, acrescentou.

Inês de Medeiros falou ainda de cultura na mesma entrevista e começou por fazer um elogio à ministra da Cultura, Graça Fonseca, de quem disse ser amiga. A atriz e antiga deputada, que chegou a ter o pelouro da Cultura na direção da bancada do PS,  considera no entanto que “existe um vazio” na cultura e defende “uma exceção cultural à semelhança do que se passa em França. Contratar um espetáculo e um melhoramento de via é praticamente a mesma coisa. Acredito neste conceito também para os trabalhadores da cultura. E depois há a questão orçamental. Melhorou um bocadinho, mas lamento que não se perceba que investir no sector cultural é investir na inovação, criação de riqueza”.

Questionada sobre se gostaria de ser ministra da Cultura, respondeu lembrando que não é um cargo fácil: “Não sei. Agora estou muito embrenhada em Almada e não costuma correr bem (risos). Mas desejo as maiores felicidades a quem está no cargo”. Em três anos o Governo de Costa já teve três ministros da Cultura.

Quanto aos desafios como autarca, Inês de Medeiros adverte: “A pressão imobiliária sobre Lisboa faz com que corramos [em Almada] o risco de ver aumentados os bairros de lata. Não é um problema que Almada possa resolver sozinha. Vamos ter, a certa altura, que construir novos programas com a Secretaria de Estado da Habitação.”