Cinema

Estas famílias islandesas não se entendem e a culpa é de uma árvore (é um filme, mas podia não ser)

"A Árvore da Discórdia" é sobre desentendimentos que só precisam de um gatilho. Um filme que dá boas razões para começarmos a falar uns com os outros. Entrevistámos o realizador.

Ele vai cortar a árvore. Ou será que não vai? Nesta entrevista, o realizador islandês Hafsteinn Gunnar Sigurðsson não esclarece

Autor
  • André Almeida Santos
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Ao longo dos últimos meses uma série de filmes algo incomuns têm estreado nos cinemas UCI do El Corte Inglés e depois em plataformas como o Filmin ou os videoclubes dos operadores de televisão. Alguns dos melhores filmes do ano passado passaram por aqui, como “Thelma” ou  “O Interminável”. 2019 arranca com “A Árvore da Discórdia” do islandês Hafsteinn Gunnar Sigurðsson, e estão já prometidos “Climax”, de Gaspar Noé”, e “Na Fronteira”, de Ali Abbasi, para os próximos meses. As fronteiras são desafiadas nos filmes da Bold.

“A Árvore da Discórdia” começa com um casal na cama, um momento frio e sem comunicação. Na cena seguinte apanhamos o homem a masturbar-se com um filme protagonizado pelo próprio e por uma amiga do casal. E há um outro casal que embirra com a árvore dos vizinhos, que lhes tira a luz do solar do jardim. Eventos de conflito começam a surgir a partir daí, escalando sempre a um ritmo muito acima do desejável.

O conflito não para, as personagens não falam entre si, só agem em reação. A razão deixa de existir – de diversas formas – e “A Árvore da Discórdia” torna-se num filme muito negro sobre o modo como lidamos com situações do dia-a-dia. Estaremos a perder a razão? Foi isso que tentámos perceber numa conversa com o realizador.

[o trailer de “A Árvore da Discórdia”:]

Num país com uma população tão pequena como a Islândia é difícil de imaginar, para quem está de fora, que coisas como as que acontecem no seu filme sejam realmente possíveis. Este tipo de situações acontecem realmente na Islândia?
Sim, claro. Infelizmente, os islandeses não são mais simpáticos do que qualquer outro povo. O filme foi inspirado em dois acontecimentos, apesar da história ser totalmente ficcional. Na Islândia existem muitos conflitos entre vizinhos por causa de árvores. É comum tornarem-se muito violentos, feios, como um gato desaparecer misteriosamente. Talvez seja pelo facto de não termos muitas árvores na Islândia e as pessoas que têm árvores bonitas, altas, ficarem muito afeiçoadas a elas. Simultaneamente, o verão é curto e não temos muito sol, por isso as pessoas que não apanham sol no seu jardim por qualquer razão, estão dispostas a tudo para conseguir um pouco de sol. É aí que entra o dilema que mostro no filme.

Mas percebe porque é que fico espantado por este filme vir da Islândia?
Toda a gente tem vizinhos. E em comunidades pequenas, convives com os mesmos vizinhos durante muito, muito tempo. Vês as mesmíssimas pessoas todos os dias. É impossível ser anónimo.

Vê o seu filme como uma comédia ou um drama? Para mim não se enquadra com o humor negro que é descrito em todo o lado.
Creio que não é um nem outro. Tem alguns elementos de comédia, sim, de comédia negra, mas também de tragédia, drama familiar. Até é uma espécie de thriller.

O que o levou a contar esta história?
A ideia surgiu ao meu co-argumentista e assim que ele me contou, fiquei logo interessado. Para mim é um filme sobre pessoas normais e os seus conflitos. Esses conflitos do dia-a-dia interessam-me muito. Porque dizem muito sobre a forma como comunicamos, e de como na aparência as pessoas tentam ser normais e respeitosas. Contudo, quando a casa está envolvida e alguém te diz o que deves fazer à tua casa, as pessoas começam a ter comportamentos absolutamente loucos. Há uma história bem maior no meu filme, há ali um filme sobre guerra, de conflito.

Concordo consigo. A falta de razão que por vezes existe nas personagens existe pela falta de comunicação. Isso é bem evidente na primeira cena entre Agnes e Atli.
Sim, é um problema. Uma das grandes questões do filme é que os conflitos poderiam ser resolvidos se as pessoas se sentassem à volta de uma mesa e falassem. No fundo, o filme é sobre a falta de comunicação, na forma como alguém assume que tem razão e não reconsidera as outras opções e opiniões.

Porque é que acha que há essa falta de comunicação?
Na maior parte das situações as pessoas simplesmente não querem reconsiderar a sua posição. Não tenho uma resposta para isso, é algo humano. Mas temos sempre muita dificuldade em admitir os nossos erros e fraquezas. Somos muito orgulhosos.

A história da Agnes por vezes foge do conflito principal do filme. Porque é que a resolveu incluir?
Queria não só explorar os conflitos entre vizinhos mas também as relações entre pessoas que vivem debaixo do mesmo teto. É um drama familiar e a árvore pode ser lida como uma metáfora para a ideia de família e eu queria explorar diferentes aspetos desse grande tema, a família.

Considera o ato de Atli como traição?
Isso é o que me interessa nestas histórias, os seus dois lados. Quem é que está certo, as pessoas que querem deitar a árvore abaixo? Eu consigo ver os dois lados da razão. Em relação a Agnes, tudo depende de como interpretas, algumas pessoas interpretam isso como traição, mas é tudo uma questão de fantasia e imaginação, o que é que nos é permitido pensar e sobre o quê quando estamos numa relação.

Durante a produção do filme pensou que seria importante para o espectador tomar partido por um dos lados do conflito?
Nem por isso. Pessoalmente, simpatizo com todas as personagens, embora não concorde com as decisões que tomam. Para mim, enquanto realizador, é importante que o espectador simpatize pelas personagens e que as apoie, mas queria deixar essa decisão para o espectador, não lhe queria dizer com quem deveria simpatizar mais ou menos.

Pergunto isto porque pelos pequenos detalhes que deixa na caracterização de algumas personagens, moralizada muito algumas situações: o tipo que se divorciou que agora anda com uma mulher mais nova, o modo como apresenta a outra família, fechada e paranoica…
Percebo o que dizes, mas queria deixar mesmo isso em aberto. Para que as pessoas fizessem o seu próprio julgamento.

As pessoas têm percebido o seu filme fora da Islândia?
Embora seja muito específico, penso que é uma história universal: toda a gente tem vizinhos e uma história com eles. E claro, toda a gente tem uma família. Penso que as pessoas têm gostado do filme um pouco por todo o mundo, mas as reações têm sido diferentes: algumas pessoas acham que é muito divertido, outras nem sequer se riem, acham que é muito dramático e que a história é muito pesada.

Foi difícil para si criar aquele acumular em crescendo de situações de conflito?
Esse foi um dos grandes desafios. Enquanto realizador, queria levar aquele lugar escuro para um fim, mas queria que se fosse desenvolvendo ao longo do filme. Foi difícil construir a história nesses moldes.

Por vezes é surpreendente o rumo que as coisas tomam…
Sim, eu gosto quando não sabes o que esperar de um filme. Era algo que eu queria criar. De certa forma, funciona como uma surpresa em alguns momentos do filme. Até chegar a um ponto em que o inevitável acontece.

Agora que entramos em 2019...

...é bom ter presente o importante que este ano pode ser. E quando vivemos tempos novos e confusos sentimos mais a importância de uma informação que marca a diferença – uma diferença que o Observador tem vindo a fazer há quase cinco anos. Maio de 2014 foi ainda ontem, mas já parece imenso tempo, como todos os dias nos fazem sentir todos os que já são parte da nossa imensa comunidade de leitores. Não fazemos jornalismo para sermos apenas mais um órgão de informação. Não valeria a pena. Fazemos para informar com sentido crítico, relatar mas também explicar, ser útil mas também ser incómodo, ser os primeiros a noticiar mas sobretudo ser os mais exigentes a escrutinar todos os poderes, sem excepção e sem medo. Este jornalismo só é sustentável se contarmos com o apoio dos nossos leitores, pois tem um preço, que é também o preço da liberdade – a sua liberdade de se informar de forma plural e de poder pensar pela sua cabeça.

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