Crítica de Livros

Resende, o grande muralista

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"Uma obra de referência", escreve Vasco Rosa sobre esta fotobiografia de Júlio Resende, artista que como poucos deu "longo lastro a uma vocação plástica visceral".

Hernani Pereira DN

Autor
  • Vasco Rosa

Título: “Júlio Resende, Fotobiografia 1917-2011”
Editora: Lugar do Desenho, FJR, e Câmara Municipal do Porto
Páginas: 312, ilustradas, hardcover
Preço: 50 €

Ainda que muito estimado na cidade do Porto, e sem dúvida uma das suas referências artísticas durante décadas, o pintor Júlio Resende — a quem chamavam de mestre — deixou obra singular no contexto português, a que ainda não foi dada a atenção que merece. Muitos factores contribuíram para que assim fosse, os menores dos quais não terão sido o círculo provinciano (lamento, mas não vejo que tenha outro nome) que lhe concedeu as principais atenções críticas (Eugénio de Andrade, Mário Cláudio, Fernando Pernes, Laura Castro e — já se vê — o ambicioso e omnipresente “comissário das artes a norte” Bernardo Pinto de Almeida), a modesta geografia nacional das suas exposições individuais ao longo do século e a presença quase toda nortenha da sua interessantíssima arte parietal cerâmica, aliás só tardiamente retrospectivada numa exposição promovida por Paulo Henriques no Museu Nacional do Azulejo, em 1998.

Pode até dizer-se que verdadeira revisitação sistemática do seu legado só se iniciou após a sua morte, aos 93 anos, em 2011. E no entanto, poucos artistas plásticos do nosso país tiveram um percurso como o dele, estudando, desenhando e pintando em vários países e continentes, dando longo lastro a uma vocação plástica visceral, nos primeiros passos educada em academia privada a expensas de amiga de seus pais, a escritora e jornalista Aurora Jardim Aranha, mais tarde directamente influenciada por cultura nórdica mal reconhecida entre nós (João da Câmara Leme, Sebastião Rodrigues e poucos mais, creio). Para que uma nova oligarquia de artistas e curadores abrisse alas para se impor na cena portuguesa (dita contemporânea), artistas ainda por conhecer ou redescobrir foram atirados para a margem, sem apelo nem agravo. Júlio Resende é um desses artistas.

João Hogan — falecido há exactos trinta anos — é outro que tal, como comprova a indiferença com que a efeméride foi passada em claro, em especial pela autarquia de Lisboa (cujo arrabalde ele pintou como ninguém), de que se deveria esperar toda outra coisa. Já no Porto, apoiando o centenário do nascimento de Júlio Resende, a Câmara Municipal dirigida por Rui Moreira (também responsável pelo pelouro cultural) garantiu por fim a impressão desta imponente Fotobiografia, um projecto dos últimos anos do próprio pintor, e que é — embora o não diga expressamente — o resgaste, o contraponto e certamente uma extensão ou revisitação ilustrada da sua Autobiografia publicada por “O Jornal” em Novembro de 1987 (79 pp.; porém omitida na cronologia da p. 236), e de outros textos breves de idêntica vocação auto-reflexiva e documental, instituindo-se como expressão maior “do modo como gostaria de ser lembrado” (Castro e Temudo, p. 8).

Naturalmente que, feito em registo autobiográfico, além da rememorização pelo próprio artista da sua vida e contexto familiar e geracional, o é também pequena mas incisiva crónica da cidade invicta, com as suas associações populares e lugares de referência: mãe professora de violino no Conservatório do Porto e activa na orquestra do Rádio Clube Infantil; pai comerciante de tecidos, bandolineiro e ginasta amador no Coliseu dos Recreios, com estúdio fotográfico no quintal da casa; avô encadernador com oficina na Rua do Almada, com quem aos domingos passeava no Jardim da Cordoaria; irmão António, como ele palhaço na companhia de circo amador do Sport Clube do Porto (1930-32); Salão Silva Porto, onde aprendeu técnicas de pintura; café Majestic, onde assentavam os artistas do “grupo dos independentes” de que faria parte, com Nadir Afonso, Victor Palla, Fernando Lanhas, futuros arquitectos, Fernando Guedes e António Reis, depois editor e cineasta, respectivamente, e Júlio Pomar; a Ribeira — ícone máximo da sua obra; as cenografias para o Teatro Experimental do Porto; etc. etc.

Resende beneficiaria enormemente do magistério renovador e carismático de Dordio Gomes, na Escola de Belas-Artes do Porto, que frequentou de 1937 a 1945; mas também se sobressaltou com os quadros do exilado brasileiro Cícero Dias mostrados em Passos Manuel em 1943, com reproduções de Portinari, mas sobretudo com Goya visto nesse mesmo ano no Museo del Prado, a convite de John Cobb, amigo inglês residente na Foz. Contactos com artistas estrangeiros seriam iniciados na célebre missão estética de férias organizada pela Academia Nacional de Belas-Artes em Évora e continuariam nas viagens de bolseiro por França, Bélgica, Holanda, Inglaterra e Itália, a todo o título determinantes — não admira, aliás, que um seu auto-retrato do período parisiense seja dos mais reproduzidos.

O facto de ter viajado com a mulher e a filha de berço, a instrutiva vivência dos tempos ásperos mas esperançosos do imediato pós-guerra (em que amiúde a solidariedade fez a sua parte: “A minha estadia em França haveria de proporcionar um conhecimento de qualidade humana extraordinária”, p. 101), o convívio com artistas dedicados à pintura a fresco, ao vitral e ao mosaico, o confronto de ideias e práticas com Frantisek Emler, Morley, Pierre-Marie Dubois, Oddvard Straume, e os escultores Ossip Zadkine e Mabel Gardner (esta, muito influente), o diálogo com a obra dos grandes mestres (Resende também foi copista diário no Louvre), tudo isso capultou o pintor para o “confronto com o mundo”, acentuando um “toque de consciência” (cit. pp. 105, 82) da realidade de um horizonte artístico muito maior, que o regresso a Portugal em 1949 não fecharia mais.

Em pouco tempo, à parte novas relações artísticas e literárias portuguesas, e o início duma itinerância pedagógica que lhe influencia novos ciclos estéticos, reaproxima-se de amigos nórdicos da temporada artística parisiense, que o levariam por três ou mais vezes até à Noruega e à Dinamarca, para expor os seus trabalhos, gravura e artesanato portugueses, e onde pintará dezenas de aguarelas. Resende vai também trazer artistas de sete países às missões internacionais de arte que desenvolve em Trás-os-Montes, Póvoa do Varzim e Évora (1953, 1955, 1958) e aqui e ali neste livro refere-se a grandes revistas internacionais de arte, de que foi assinante. Um painel para a representação portuguesa na Exposição Internacional de Bruxelas em 1958, premiado pela imprensa, fê-lo notado pelo poeta e crítico da arte espanhol Ángel Crespo (1926-95), que promoverá uma exposição de pintura em Madrid dois anos depois, assumindo o prefácio do respectivo catálogo em que destaca a “seriedade da arte de Resende” e prevê a sua influência sobre artistas vindouros — algo que logo fica claro em 1961, quando a primeira retrospectiva da sua obra, no Secretariado Nacional de Informação (agora já sem António Ferro, como em 1948: v. foto da p. 127), o afirma como primeiro pintor a retirar das viagens ao estrangeiro as lições necessárias à renovação da pintura portuguesa.

Certamente que a colaboração de artistas plásticos e arquitectos é uma dessas lições, e a obra de Júlio Resende — que um dia disse que “um mural num espaço urbano é o mais justo fim de uma pintura” — neste domínio surpreende alegremente quem no seu quotidiano ainda hoje tenha a possibilidade de defrontá-la, na cantina duma escola, em duas pousadas, num antigo posto fronteiriço, num quartel de bombeiros, no átrio dum bloco de apartamentos, em dois hotéis, na lareira dum conservatório de música, na fachada e interiores de dois palácios de justiça, na sede dum município, num hospital, num centro de saúde, em duas estações de metropolitano, num estádio de futebol, em duas cafetarias ou numa agência de turismo. Resende escreveu um dia que o painel da entrada do edifício da Tranquilidade, no Porto, “terá atingido melhor os objectivos de exemplificar uma presença plástica na arquitectura”, e que o mural a fresco no palácio de justiça de Anadia, feito em 1966 com ajudantes que eram presidiários, lhe proporcionou “uma experiência humana que não poderei esquecer”. Painéis para a sede do Banco Pinto de Magalhães no Porto ou para a agência do Banco Nacional Ultramarino em Espinho já não são visitáveis, mas milhares perpassam no seu dia a dia agitado por Ribeira Negra (um extenso friso azulejar que antecipa ou desemboca um túnel rodoviário), ou crentes se recolhem ante os pequenos medalhões cerâmicos no altar da igreja de Nossa Senhora da Boavista, no Porto (para onde também fez alguns vitrais), diante dum painel implantado na capela do Hospital de Santa Luzia, em Viana do Castelo, no pórtico duma igreja em Oliveira do Bairro, distrito de Aveiro, ou se espantam diante do “Anjo Músico” criado em cerâmica vidrada e talha para a igreja de Lever, em Vila Nova de Gaia, etc.

Outra intervenção absolutamente original de Júlio Resende — que infelizmente o design do livro desperdiçou, reduzindo-a drasticamente (v. p. 198) — foi a colaboração plástica com o jornal O Primeiro de Janeiro, em sucessivas capas de aniversário e pelo São João, na década de 1960, verdadeiros prodígios do amplexo dum artista com a sua cidade. E algo mais poderia ter ficado dito acerca de três personalidades que se cruzaram com o pintor: a primeira, Augusto Vieira de Abreu, dono da Agência Abreu e grande coleccionador de arte (desde 1955 com apreciável quantidade de obras de Resende; v. catálogo, p. 149), a quem atribuía qualidades de “o crítico por excelência”; a segunda, Francisco Sá-Carneiro, “uma das personalidades com quem mantinha relações” e “a quem a minha pintura não deixava indiferente” (1971 — Autobiografia cit., p. 48); e por fim, a pintora Maria Helena Vieira da Silva, que o pintor conheceu “como uma qualquer visitante da exposição [no SNI, em 1951]… Estava de passagem em Lisboa, discreta, silenciosa e leve…” (ibid., p. 28).

Num livro de referência como este, prevaleceu o zelo editorial de manter o original que Júlio Resende concebera, dando-lhe retoques mínimos e “rematando pontas soltas” (Introdução, p. 9), todavia não teriam ficado mal uma dúzia de páginas finais com uma antologia crítica muito seleccionada, uma bibliografia essencial depurada e até uma amostra dos escritos sobre arte do próprio artista. Nada que cada qual não possa alcançar por si ou com a ajuda directa ou indirecta da Fundação Lugar do Desenho, uma instituição essencial à preservação activa da memória deste pequeno grande homem, cujo centenário foi condignamente celebrado. “Quem honra, honra-se também”, disse alguém, e assim deveria ser sempre.

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