Oiça o som aqui em baixo. Agora volte a reproduzi-lo mas clique outra vez no play assim que ele chegar ao fim. Ouviu isto? Apesar de estar sempre a ouvir o mesmo som, o tom dele parece continuar a aumentar quando o reproduz mais do que uma vez. A esse fenómeno chamamos Tom de Sheppard, uma ilusão auditiva batizada em homenagem ao cientista cognitivo Roger Newland Shepard. O segredo por detrás dele está na forma como o som foi criado. E tem apaixonado alguns dos maiores criadores do cinema, da música e do mundo dos videojogos.

O Tom de Sheppard é um som que consiste numa sobreposição de ondas sinoidais — as que sobem e descem para descreverem uma oscilação repetitiva suave. Essas ondas estão separadas por oitavas: cada uma representa uma nota musical que tem o dobro da frequência da que fica por debaixo dela e metade da frequência da que fica por cima dela.

É nesse arquitetura que está a raiz da ilusão: “O que está a acontecer é que a mesma sequência de oito tons complexos está a ser tocada várias vezes. A repetição da mesma oitava cria a experiência ilusória de uma subida ou descida contínua. A ilusão é criada porque cada tom é composto de muitas frequências, que são cuidadosamente criadas para dar origem a uma ambiguidade. Cada tom é ambíguo e pode ser ouvido como um som mais alto ou mais baixo, dependendo do contexto”, explica a página The Illusion Index.

Foi uma ilusão auditiva como esta que 0 compositor Hans Zimmer adicionou ao filme “Dunkirk”. Imagine que as tais ondas são como três lances de escadas, uns debaixo dos outros, em que a que tem uma frequência mais alta é a de cima e a que tem a frequência mais baixa é a última. O que Hans Zimmer fez, seguindo a lógica de Roger Shepard, foi colocar a onda de cima a diminuir de volume à medida que o som avança; a onda do meio sempre com o mesmo volume; e a onda de baixo a aumentar de volume com a passagem do tempo.

Quando a onda de cima começa a desaparecer, a onda de baixo começa a ser audível. À conta disso, o cérebro é enganado e levado a crer que tudo isto se trata do mesmo som a subir de frequência ad eternum, como se alguém estivesse a clicar nas teclas de um piano infinito.

Esta ilusão auditiva — que pode ser comparada à ilusão ótica provocada pelos postes com espirais vermelhas e azuis à porta dos barbeiros — é usada há longos anos no mundo do cinema, da música e dos videojogos. Hans Zimmer usou-o em “Dunkirk” em “The Mole” , a Nintendo usou-o no jogo “Super Mario 64” no obstáculo “Escadas Infinitas” e os Pink Floyd usou-o na música “Echoes” em 1971. Christopher Nolan — que é também o realizador de “Dunkirk” — também acrescentou o Tom de Sheppard aos dois últimos filmes “O Cavaleiro das Trevas” e na canção “Colorado Springs”, composta por David Julyan para o filme “O Terceiro Passo”.