Militares do Gabão anunciaram esta segunda-feira na televisão pública que está em curso um golpe de Estado naquele país da África Ocidental. Depois de os militares tomarem controlo sobre a estação pública, um soldado do Exército, ladeado por outros dois elementos armados, leu um comunicado a informar que os militares tomaram o controlo do Governo “para restaurar a democracia” no país. Mas, de acordo com fonte do Governo citada pela Radio France Internationale, os militares acabaram detidos.

Na declaração que leu em estúdio, o tenente Ondo Obiang Kelly, que se identificou como membro da Guarda Republicana do país e foi um dos protagonistas dos momentos tensos desta segunda-feira, disse que os militares estão insatisfeitos com as últimas declarações do Presidente do Gabão, a 31 de dezembro, a partir de Marrocos, onde se encontra há dois meses a recuperar de um enfarte.

Ao tentar dar rapidamente por concluído o debate acerca do seu estado de saúde”, o Presidente, Ali Bongo, “apenas reforçou as dúvidas sobre a sua capacidade para lidar com as difíceis responsabilidades que vêm com o cargo de Presidente da República”, disse o militar.

De olhos postos no comunicado que leu aos microfones da estação pública de rádio, Obiang Kelly explicou que essas dúvidas sobre o estado de saúde do Presidente do Gabão levaram o Movimento Patriótico das Forças Jovens de Segurança e Defesa a “assumir a sua responsabilidade para finalmente derrotar todas as manobras em marcha para confiscar o poder” no país. A passagem do comunicado está a ser interpretada como uma referência aos responsáveis do Gabão que gerem o país na longa ausência de Ali Bongo.

Enquanto os militares liam o comunicado oficial em direto na televisão, os moradores da capital, Libreville, davam conta da presença de tanques militares e de veículos armados em patrulha nas ruas. À porta da estação onde o comunicado foi lido, cerca de 300 pessoas juntaram-se numa manifestação de apoio aos militares mas acabaram por dispersar depois de as forças de segurança recorreram a gás lacrimogéneo. Dentro do estúdio de rádio, numa declaração que ficou gravado também em vídeo, os militares anunciaram a criação de um “Conselho Nacional de Restauração”.

O Presidente Ali Bongo — no poder desde 2009, depois de suceder ao próprio pai, que governou durante décadas o país — está fora do Gabão desde outubro, existindo relatos de que sofreu um acidente vascular cerebral (AVC). Bongo dirigiu-se recentemente ao país numa mensagem de Ano Novo, acamado, a partir de um hospital em Marrocos. A Bloomberg nota que, apesar de os cerca de dois milhões de habitantes do país viveram em situação de pobreza, a família Bongo tem lugar entre as mais ricas da África Central.

Golpe falhado, um militar em fuga

No comunicado, os militares insurgentes instigaram as Forças Armadas e depor armas e munições, a juntarem-se ao grupo e a “tomar o controlo das ruas” para “salvar o Gabão do caos”. Mas os membros do grupo acabariam por ser detidos, de acordo com o ministro da Comunicação, Guy-Bertrand Mapangou, citado pela Radio France Internationale.

A situação está “sob controlo”, disse mais tarde o ministro à BBC. Mapangou avançou a informação de que quatro militares tinham sido detidos e que um quarto elemento do grupo tinha conseguido escapar às autoridades.

“A situação está calma, os guardas que habitualmente estão destacados para a estação tomaram controlo de toda a zona à volta da rádio e da televisão, portanto, a normalidade está a regressar”, disse o ministro à estação britânica.

Guterres condena tentativa de golpe de Estado

O secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, condenou a tentativa de golpe de Estado por militares no Gabão, opondo-se a “mudanças no poder não constitucionais através da força”. O responsável da ONU criticou o golpe frustrado e apelou que “todos os envolvidos a sigam os meios constitucionais”, segundo o seu porta-voz, Stéphane Dujarric.

Dujarric acrescentou que o emissário da ONU para o Gabão, François Lounceny Fall, está a acompanhar a situação.